CAPA: RONALD SOTTO E SUA ANCESTRALIDADE COM TONHO EM ‘A NOBREZA DO AMOR’

Ronald Sotto vive um momento de ascensão na carreira e consolida seu espaço como um dos talentos da nova geração da atuação brasileira. Desde a estreia na televisão, em 2019, o ator vem construindo uma trajetória marcada pela versatilidade, transitando entre novelas, cinema e plataformas de streaming com personagens de diferentes estilos e desafios. Agora, ele assume o protagonismo de A Nobreza do Amor, interpretando Tonho, um homem simples que protagoniza uma história de amor e representatividade. Nesta entrevista exclusiva para a MENSCH, Ronald fala sobre sua formação artística, os desafios da profissão, a importância da ancestralidade negra na dramaturgia, seus objetivos pessoais e profissionais e revela quem é longe dos holofotes.

Sua estreia na TV aconteceu em Malhação: Toda Forma de Amar, em 2019. O que aquele primeiro papel representou para você naquele momento da sua vida? Representou o meu ‘cheguei’. Foi a transição do ‘querer’ para o ‘fazer’. Malhação me deu a casca que eu precisava. Foi ali que o Ronald ator começou a deixar de ser uma promessa para entender que era um operário da arte.

Você é formado pelo Teatro Tablado. De que forma essa formação contribuiu tecnicamente e emocionalmente para o seu desenvolvimento como ator? O Tablado foi uma das minhas bases. Tecnicamente, aprendi a arte da composição; emocionalmente, aprendi a empatia necessária para dar vida a qualquer personagem. Foi ali que percebi que, para ser um ator completo, você precisa ter os pés no chão. 

Ao longo da carreira, você transitou entre TV, cinema e streaming. Como você enxerga as diferenças de atuação entre essas linguagens? Para mim, a diferença é o ‘tempo’. A TV é  prontidão, o streaming é a da precisão e o cinema é a profundidade. Transitar entre eles me fez desenvolver uma versatilidade técnica. No final das contas, o que eu levo para frente da câmera é a mesma verdade, o que muda é apenas o volume dessa voz. 

Em plataformas como Disney+, Prime Video e Netflix, você participou de projetos variados. Qual desses trabalhos mais desafiou sua versatilidade como artista? O maior desafio não foi um projeto específico, mas a transição entre eles. Mudar de universo, do lúdico de uma série juvenil para o drama realista de um conteúdo de streaming, exige que você seja um camaleão. O trabalho que mais me exigiu e sempre o próximo. 

Você também explorou o suspense no curta A Morte Não Te Ama. O que te atrai em personagens e narrativas mais densas? O que me atrai no suspense e nas narrativas densas é a oportunidade de descer às profundezas do que não é dito. Em A Morte Não Te Ama, a tensão não estava na ação, mas naquilo que o personagem guardava para si. Como ator, esses papéis eles me obrigam a ser honesto com a minha própria sombra. O suspense é um exercício de controle e de instinto.

Em produções recentes como Veronika e Os Donos do Jogo, você mostrou um lado mais intenso em cena. Como foi construir essas performances? O grande desafio nesses projetos foi a dosagem. A intensidade, se não for bem direcionada, vira ruído. Em Veronika, por exemplo, eu precisei encontrar um ponto de equilíbrio onde o público sentisse o perigo ou a urgência do meu personagem sem que eu precisasse ‘gritar’ isso. Foi um estudo de contenção.

Agora você assume o protagonismo em A Nobreza do Amor como Tonho. O que mais te chamou atenção nesse personagem? O que mais me chamou atenção foi o coração do Tonho. Ele é um homem simples, mas com uma alma complexa. Ele é a representação daquele Brasil que trabalha, que luta, que tem honra e que, mesmo sem ter nada, ainda tem muito a oferecer. Mesmo muito distante de mim, viver o Tonho me permite revisitar as minhas próprias origens. Ele me lembra que a nossa maior riqueza não está em onde chegamos, mas em quem somos durante a jornada.

A novela tem um grande diferencial por trazer pela primeira vez na TV a nobreza negra em destaque. Fala de ancestralidade. Como você percebe o protagonismo negro atualmente. Que importância tem para você uma novela como essa? Eu percebo o protagonismo negro hoje como um movimento sem volta. Não se trata mais apenas de ‘estar presente’, mas de ditar a narrativa. Uma novela como essa é fundamental porque ela muda o imaginário do brasileiro. Quando uma criança preta vê o Tonho, ou vê uma corte negra sendo representada com toda a sua riqueza e história, ela entende que o lugar dela é onde ela quiser. Para mim, ser parte desse projeto é entender que o meu sucesso como ator não é individual, ele é coletivo. É abrir portas para que outros venham depois.

Tonho vive um romance improvável com uma princesa, mas também carrega um forte senso de propósito social. Como você equilibra essas camadas na construção do personagem e o que o público pode esperar dessa história? O Tonho é o equilíbrio entre o coração e a consciência. Ele ama com intensidade, mas nunca esquece a sua missão. O público pode esperar uma história sobre um amor que desafia as convenções sociais e que, ao mesmo tempo, impulsiona uma mudança real. Para mim, construir esse personagem foi entender que a verdadeira nobreza está nas escolhas que fazemos todos os dias para proteger aquilo que amamos.

Fora dos holofotes quem é Ronald Sotto? O que te diverte? Onde recarrega as energias? Fora da câmera, sou um homem que valoriza o silêncio e o afeto. O que me diverte é viver momentos reais, longe de telas. Recarrego minhas energias cuidando da minha casa, vivendo a paz do meu lar com quem eu amo e, sempre que posso, pegando a estrada. O Ronald que as pessoas veem na tela é um operário da arte, mas o Ronald que vive fora dela é alguém que busca equilíbrio, natureza e essa paz simples que só as a família e quem amos pode nos dar.

O que ainda deseja profissionalmente? E como homem? Como ator, o que me move é a inquietação. Eu quero continuar sendo desafiado por papéis que me tirem da zona de conforto, como o Tonho tem feito. Quero contracenar com grandes nomes, aprender cada vez mais e, quem sabe, inspirar outros jovens que, como eu, vieram de lugares onde o sonho parece distante. Como homem, desejo manter o equilíbrio. Quero que a minha vida pessoal continue sendo um porto seguro para a intensidade que a profissão exige. Quero continuar sendo um homem presente para a minha família, minha mãe, meu filho, minha parceira. O meu maior objetivo é que o Ronald dos 50 anos olhe para o de 27 com orgulho.

Para conquistar Ronald basta… Basta verdade. Eu sou um homem que valoriza o que é real, o que não tem máscara. Em um mundo onde tudo é tão performático isso vira raro. A lealdade é o meu pilar; quem caminha ao meu lado com lealdade, conquista meu respeito e meu coração.

Fotos @maga.maju / Styling @carneirogs / Make @rikmakeup