
Conversar com Juliano Cazarré é sempre muito bom. Desde nossa primeira conversa com ele aconteceu em dezembro de 2015 quando ele deu o que falar em uma novela das 21h. De lá para cá tivemos outros papos, mas todos sempre muito bons. Em geral nossa conversa de agora passa muito pelos desafios que seu novo personagem, Jorginho em “Três Graças” (Globo), tem passado e por tabela faz Cazarré mergulhar fundo na construção de um personagem que fala sobre fé, paternidade, redenção e sentido da vida. Muito do que nosso homem da capa já passou e passa. Falar de família, o papel do homem na sociedade e força interior é algo inerente a sua personalidade. E talvez por isso sempre o papo flui fácil e ficamos querendo mais. E aqui está Juliano Cazarré com força, fé e dedicação ao que se propõe a fazer na vida e na arte.
Cazarré, sempre que conversamos com você nos vem à mente muitos temas atuais que falam de família, masculinidade e claro, personagens marcantes. Atualmente você vive um momento especial com seu personagem Jorginho, em Três Graças (Globo) por ser um personagem de muitas camadas. Como foi construir esse personagem e interpretá-lo? Jorginho é um personagem muito especial ele já nasce com um arco muito interessante, ex-bandido, agora convertido e com uma doença incurável. Foi um homem ruim no passado, mas agora quer se redimir e dedicar o pouco tempo de vida que lhe resta à filha que não conheceu porque estava preso. É um homem que entregou sua vida a Deus, mas continua com um ‘peso’, com jeito de falar das ruas onde cresceu. É muito rico. Eu adoro interpretá-lo e meu trabalho foi basicamente criar uma versão evangélica séria e respeitosa do Mano Brown (risos).



O personagem saiu do inferno e encontrou na religião sua paz interior. Recentemente no programa Caldeirão do Mion você relatou que viveu algo parecido. Como nada é por acaso, como é encontrar num personagem algo que você sabe bem como é? Jorginho chega a ser um “porta voz” do Cazarré em algum momento? É muito bom porque eu consigo adaptar muito do que vi, vivi e estudei nos meus anos de conversão à Igreja Católica no personagem. Somos muito diferentes, eu e o Jorginho, mas conhecer a doutrina cristã, a revelação, os ensinamentos de Jesus, tudo isso me ajudou muito.
Você fala muito da função e força do homem na família. Como criar filhos homens fortes, guerreiros sem perder a sensibilidade, a ternura? Ainda mais num mundo de tanta violência e intolerância. Só existe uma maneira de educar: pelo exemplo. Discurso não adianta. Eu espero que meus filhos se lembrem de que eu, apesar dos meus muitos erros, sempre me entreguei muito por eles, brinquei, li histórias, dei muito carinho, que sou carinhoso e cuidadoso com a mãe deles, que sempre fiz esportes, luta, mas também estava sempre lendo bons livros, escutando boa música. E que me dediquei muito, trabalhei muito para que eles sempre tivessem comida na mesa, roupas, uma casa limpa… Espero que eles se lembrem que eu nunca ocultei minhas falhas e que pedia desculpas quando errava.
O próprio Jorginho, voltando ao personagem, demonstra isso… Ele pode ser um cara bravo mas ao mesmo tempo sensível. Acredita que o perigo está nos extremos hoje em dia mais do que antes? Acho que o perigo sempre esteve nos extremos, não é de hoje. É preferível ser sério ou até ranzinza, mas ser também honesto, verdadeiro, leal, forte do que ser um fofo pela frente, mas falso, mentiroso, fofoqueiro, desonesto… Mas hoje em dia, principalmente com as redes sociais, tem muita gente que só quer parecer bom, que só quer sinalizar virtudes em vez de tentar ser virtuoso de verdade.



Vivemos numa guerra diária contra homens violentos e covardes que batem e matam mulheres diariamente. Porque quanto mais se fala e se combate isso mais casos aparecem? O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. A violência não é direcionada especificamente contra mulheres. O Brasil é violento com homens, com mulheres, com crianças, com idosos, com todo mundo. Isso é resultado de décadas de declínio na educação formal e moral do povo, de um modelo educacional que não funciona. É resultado de políticas e de uma cultura que enfraquece as famílias, os laços familiares, o valor sagrado do matrimônio, é resultado de relativismo cultural, do abandono dos valores cristãos que formaram essa nação. É resultado de impunidade, os criminosos não são presos, ou quando isso acontece, logo são soltos. Vai dar muito trabalho e vai levar muito tempo para mudar isso.
O que faltou a esses homens no passado para se tornarem violentos contra as mulheres? Resultado da criação, meio onde foram criados ou puro machismo enraizado? Cada caso é um caso. Mas sabemos estatisticamente que a falta de pai é um fator que leva um número enorme de crianças (meninos e meninas) a terem problemas na vida, abandonarem a escola, caírem no crime, engravidar cedo demais. Agora, os fatores que levam a tanto abandono dos pais são muitos, e passam pela desvalorização do matrimônio, pela cultura do sexo sem compromisso, do prazer imediato, da pornografia…



Seus personagens geralmente são fortes, másculos e viris. Mas em Boi Neon seu personagem era um vaqueiro do sertão brabo que sonhava em ser estilista. Ali você quebrou todos os esteriótipos do macho do sertão. Como foi viver essa experiência? Na verdade acho que esse contraste entre virilidade e delicadeza, entre força e inocência, entre sensualidade e doçura, é uma marca de muitos trabalhos meus e acho que isso vem naturalmente porque eu sou mesmo assim. Posso ir pro jiu jitsu de manhã e sair na porrada no treino e voltar para casa e chorar com um poema.
Hoje em dia as redes sociais deram voz a todo tipo de gente, inclusive às imbecis. Tanto que tempos atrás você teve que aturar pessoas criticando você pelo número de filhos que tinha ou por que fazia um trabalho seguido de outro. Como você se “blinda” desse tipo de coisa? Eu tento não ler, ou quando leio tento imaginar quem é aquela pessoa por trás do comentário. Que vida infeliz, solitária, ela deve ter para perder tempo na internet falando, por exemplo, do número de filhos de alguém! Mas nem sempre dá certo, às vezes eu me irrito e respondo mesmo. Tem gente que fala o que quer e merece ouvir o que não quer.



Falando em filhos, como você é hoje em dia depois de seis filhos. De gerações diferentes que requer uma atenção particular. Como é isso hoje em dia? É desafiador demais. Adolescência então… E o que é pior, adolescência nessa época louca de celular redes sociais. Vou tentando ser um pai melhor todo dia, misturando carinho com seriedade, incentivando na hora que precisam, dando bronca na hora que precisam. Um dia de cada vez, uma situação de cada vez, e tentando prestar atenção no que cada um precisa naquele momento. Não tem regra, são seis pessoinhas muito diferentes, cada um é um mundo.
Acredita que essa sua evolução espiritual e religiosa te fez enfrentar as dificuldades de Maria Guilhermina com mais força? Hoje se sente mais preparado, digamos assim? Com certeza. Se você entende que Deus se fez carne e veio à terra na pessoa do Cristo para nos ensinar sobre o Amor e acabou humilhado, açoitado e crucificado… bom, então você percebe que o sofrimento não é um “privilégio” seu, mas uma realidade comum à condição humana. E aí, você consegue fugir da tentação do vitimismo, do “por que comigo?!”, e passa a sentir gratidão por tudo o que te acontece, passa a ver a mão de Deus em tudo e pode se entregar confiantemente a Ele. “Seja feita a Tua vontade…”
O que te tira do sério e o que te faz colocar um sorriso no rosto? Injustiça me tira do sério. Covardia me tira do sério. Tirania me tira do sério. Maldade com criança me tira do sério. Impunidade me tira do sério. A invasão do Estado na vida e na liberdade das pessoas via burocracia, via controle, via impostos absurdos me tira muito do sério. A boa arte coloca um sorriso no meu rosto.
Nossa 1a entrevista foi em dezembro de 2015. Quem é o Juliano Cazarré de 2026? O que mantém e o que mudou? Mudou muita coisa. Minha conversão, a família numerosa, os desafios de uma filha especial, sobrevivi a vários cancelamentos da militância do amor… Mas outras coisas permaneceram: o desejo por liberdade, o amor pela arte, a vontade de superar meus muitos defeitos e ser um cara melhor…
Para conquistar Juliano Cazarré basta… me dar uma hora para eu fazer esporte.

Fotos Nanda Araújo
Produção executiva e styling Samantha Szczerb
Agradecimentos: Amil Confecções, Democrata, Osklen e OTT


