Ele já foi Jesus e já foi o Diabo. Entre o bem e o mal o ator Igor Rickli foi se destacando nos palcos e TV. Na vida real, a vida traz esses dois aspectos de dureza e leveza que ele, como bom aprendiz, senta assimilar e colocar em prática na vida. Entre as dores e amores dos dias atuais, ao lado dos amados Aline e Antônio, pra quem não sabe, a esposa e o filho, Igor segue com fé. Fé no que podemos mudar, fé por dias melhores, fé que tudo dará certo. Essa é nossa terceira entrevista com Igor, mas o papo rendeu tanto que parece que nunca havíamos conversado com esse cara que admiramos muito. Um verdadeiro “homem MENSCH”, que nos inspira em sermos homens melhores, pais melhores, cidadãos melhores. A estrada é longa mas Igor saber que vale à pena lutar pelo que se acredita, pelo faz o coração bater mais forte.

Igor, você sempre foi um cara muito ativo e assim como todos foi pego por esse isolamento social. E aí, como foi e tem sido passar por isso? Eu acho que esse isolamento social não tem nada de positivo. A não ser que a gente tenha que entender, parar e realmente ficar dentro de casa. Acho que o que rolou de interessante foi ver que nós, como uma sociedade, conseguimos nos organizar e rever os nossos princípios. Apesar de sempre ter sido uma pessoa de muito movimento, de ter muitas pessoas próximas, acredito que esse momento o convite foi parar e olhar para dentro. Ver o que tinha e que não prestava mais e que não servia mais para nós nos dias atuais. Acho que foi uma reforma coletiva íntima, que está chamando todo mundo para que observe a necessidade de mudança.


Não há mal que não traga um bem, você acredita que de certa forma isso veio para as pessoas pararem um pouco e dar outro significado às coisas? Como você vê isso? Ele acabou nos forçando a gente a se reestruturar. E redescobrir uma força, porque ficar preso, de fato, de forma alguma, é legal. Ele fez a gente buscar dentro de nós forças para dar a volta por cima… Porque até nossos filhos, até as crianças entenderam essa dificuldade, é muito frustrante você ver um filho seu entristecendo porque está dentro de casa, porque queria ver os amigos. Na verdade, isso foi muito nocivo para nós. Mas sem dúvida, nos foi necessário para que a gente parasse e observasse por onde estamos indo. Comecei a lembrar do mundo em que estávamos vivendo e realmente estávamos fingindo que estava tudo bem. E não estava tudo bem. Foi necessário para que agora sejamos mais honestos com nós mesmos. Que Isso consiga, de alguma forma, trazer uma qualidade de vida melhor daqui para frente.

Você, assim como Aline, parece ser uma pessoa espiritualizada, conectado com o planeta e com a mente aberta para o aprendizado. É isso mesmo? Nós somos buscadores, sem dúvida. Como bons sagitarianos, somos pessoas que buscam o tempo inteiro se lapidar, se aperfeiçoar, melhorar, integrar, transmutar, crescer e propagar. Esse é o princípio da natureza. A gente não está isolado. Somos esse organismo vivo no coletivo. E a gente olha a espiritualidade com esse olhar prático de um organismo aberto da natureza. Tudo cresce, desenvolve, reproduz. É tudo parte. Então, estamos sempre buscando trazer isso para nosso dia a dia, para as nossas consciências. E a espiritualidade, nós procuramos olhar pra ela de uma forma prática, a gente entende que é muito mais prático do que a gente pensa. Cada um tem uma forma de codificar. Cada um enxerga de um jeito. Para mim, particularmente, graças à criação que eu tive do meu pai, a espiritualidade, a religião para mim é o amor. Acho que a maior vibração que pode, sim, causar transformações gigantescas. Não um amor romantizado, mas um amor maduro, companheiro, firme e que te ensina, cobra e abraça. Espiritualidade para mim é o nosso pilar principal.


No currículo algumas novelas bíblicas. Em que você crer? Qual sua religião, sua crença? Amo fazer novelas bíblicas. Pedi por isso. Sempre pedi para fazer trabalhos que tivessem cunho espiritual, que não fossem simplesmente uma coisa corriqueira, cotidiana. Tenho uma identificação forte com isso. É parte da minha história. Cresci vibrando nesse lugar, cresci falando sobre isso. Sou de uma família evangélica, fui criado numa igreja evangélica. Tenho o maior respeito por isso, mas hoje, tenho uma forma de enxergar que acredita que cada vez mais precisamos reaprender a nos reconectar. As pessoas ficaram completamente arredias ao espiritual. Por medo, por puro preconceito, mas, para mim, é uma parte muito importante. Amo poder trabalhar com isso, sei que comunica algo muito simbólico para as pessoas. Tenho o maior respeito quando se trata da fé alheia. Esse também é o nosso convite, respeitar a fé do outro. E principalmente a nossa mesmo.

Recentemente você e a família passaram por uma experiência traumática de assalto em casa. Depois de passado o pânico, revolta, o trauma, o que ficou? Que reflexões tirou disso? Sim, tivemos um episódio um tanto quanto marcante em nossas vidas. Temos certeza disso. Eu e Aline temos uma característica que é de muita leveza, apesar de muita profundidade, levamos a vida de uma maneira muito lúdica. Quase que ingênua, acreditando no melhor do mundo, no melhor das pessoas. Sempre muito desprotegidos. Sempre muito vulneráveis. Isso é muito bom, nós enxergamos como um ponto positivo. Mas para viver nesse caos de hoje, não dá mais para ser criança, não dá mais para você negar os fatos que nos cercam. Acho que passamos por uma experiência realmente traumática, estamos em processo de cura. Um processo de tirar de nós a vibração de qualquer medo que tenha causado em nossa cabeça. Foi para um lugar muito esquisito que a gente não imaginava, não imaginaria nunca. Não desejo para ninguém, porque você está no limiar. A forma como foi, pessoas armadas, nos amarrarem, deixarem a gente amarrados em um closet. Num quarto trancado e vendo sempre uma arma apontada, isso tudo é muito agressivo. Começamos a refletir demais, “o que está acontecendo? O que estamos fazendo aqui? É isso mesmo?”. Foi, sem dúvida, um marco muito importante em nossa vida. Muito transformador e que exige uma responsabilidade cada vez maior, principalmente porque agora nós temos um bichinho nosso, que precisamos cuidar, e só queremos que ele assimile o melhor desta vida. Mas queremos que ele entenda que esse mundo é um lugar onde é preciso ter muita gentileza, muito cuidado e respeito. Está todo mundo em carne viva.

A desigualdade social cria esse tipo de situação em nosso país que infelizmente de tão comum fica corriqueiro. Bate uma revolta e vontade de mudar de cidade ou país? Não. Não bate revolta e não pode bater. Temos que entender que não existe uma aceitação, não existe um sentimento de culpa porque nós não entendemos a sociedade. Não é isso. Essa é uma realidade. Isso acontece direto. Nosso planeta é um planeta doente. A gente está em guerra há muito tempo. Muita hipocrisia e ignorância tomam conta. Nós somos permissivos quanto a isso. A gente bate palma para a loucura. Batemos palmas para coisas frívolas, futilidades, show de egos. A gente está em um momento real de transformação, e isso é sim uma resposta muito séria da nossa sociedade. Temos que entender. A gente tem uma relação muito interessante, eu, particularmente como homem branco, tenho observado muito os privilégios que tive da vida. Tendo a chance de caminhar com Aline, percebo um lado oposto, que agora a gente vem entrando em um lugar que, se Deus quiser, vai caminhar para mais igualdade, com mais respeito. Menos masculinidade. Mais hombridade, mesmo. O sentido de respeito pelo outro ser humano, entendendo as diferenças, a escolha de cada um, a cor, a textura, o gênero. Estamos em um momento de cada um se posicionar. Entender como se posicionar. Para que cada um entenda o seu limite e onde começa o limite do outro. Para isso é necessária muita cordialidade e compaixão da nossa parte para dar certo. Se não tiver um pingo de amor, é insustentável.


Ao mesmo tempo percebemos que hoje em dia cada país tem suas mazelas e o afeto e a garra do brasileiro nos dá força para seguirmos juntos. Concorda? O que te dá forças? Como brasileiros, nós somos muito novos. Não temos noção da gravidade da nossa história, do que a gente passou. Da colonização, do que foi feito com os índios, a gente não vê. Somos irresponsáveis, uma sociedade leviana com a própria história. Que trata tudo, às vezes, com certo desdém. Isso não pode mais acontecer. Temos sim esse jogo de cintura, o rebolado, a garra para dar a volta por cima. Mas embora tudo isso sejam fatores positivos, temos que parar de ser levianos. Parar de achar que tudo é festa, uma grande bagunça e está tudo certo. Não, não está tudo certo. Está tudo errado e a gente tem que arrumar. Não sei por onde. Tenho feito muitas perguntas para mim mesmo, procuro não amargurar e nutrir meu coração com esperança e amorosidade, para que a gente consiga olhar para o outro de fato. Olhar para a dor do outro, a escolha do outro, para os defeitos do outro que me incomodam e ver onde refletem em mim. Um momento onde a gente vai ter que reaprender a se olhar e a se reconectar. Esse é o grande barato. Saber que juntos a gente consegue fazer, mas só juntos. Sozinho não dá. Sozinho eu não faço nada, sozinho é tudo mais chato e mais difícil. Juntos, tudo facilita. Mas temos que falar a mesma língua. O grande problema deste momento é que falamos línguas distintas. Cada um acredita em uma coisa, cada um fala uma coisa e vai para um lado. Essa radicalização e polarização é muito ruim para nós. Estamos em um momento que precisávamos nos unir, e estamos em sentidos opostos. Sempre haverá divergências, mas a polarização de opiniões é muito complicada. Temos que achar o meio termo disso tudo.

O que te inspira de modo geral? A arte me inspira, pessoas que são autênticas, pessoas que vivem aquilo que acreditam. Sem medo da opinião alheia, me inspiram. São pessoas que fazem porque sabem que têm que fazer. Respeitam a essência delas e a do outro. O amor me inspira, o amor de verdade. O amor sem romantismo é o mais inspirador. Quando você consegue compartilhar, mesmo doendo em você. Ainda assim, você consegue. Por mais difícil que te seja olhar para o outro. Tudo isso para mim é muito inspirador.

Você está participando da novela “Gênesis” (Record). Como tem sido a experiência e o que espera que venha por aí? Tivemos que parar no meio do caminho. É uma novela que estou completamente feliz de fazer, porque gosto justamente dessa dualidade. Ter feito Jesus, Paulo, e agora fazer Lúcifer, que é o contraponto de toda essa energia que a gente fala de amorosidade, quando falamos de Jesus, falamos do ápice do amor, e Paulo seguiu todos os preceitos e passos, e implantou essa comunicação sobre o amor ensinada por Jesus. Quando falamos sobre Lúcifer, pela história que contamos, estamos tratando o mal, a ignorância, a ilusão. Para mim, foi um processo bem esquisito, gosto muito de mergulhar nesses universos e entender o que posso, como artista, assimilar e passar com a maior dignidade possível. Queria muito a chance de ter ido mais a fundo com o personagem, de gravar mais. Mas tivemos que parar. Mesmo assim, com o pouco já vivido tão profunda e intensamente, tive que ter o máximo de cautela, porque é realmente um buraco mais embaixo.


Falando sobre família, percebe-se o quanto você é dedicado ao papel de pai. O quanto a presença paterna é importante na família? Gosto muito da ideia do pai. Para mim foi muito importante. Tive um pai muito forte, muito íntegro, que me passou valores muito legais. Procuro sempre ser um pai legal para o meu filho também. Um pai parceiro, que ele curta, que ele consiga conversar sobre tudo. Sobre sexualidade, sobre os medos e frustrações. Quero ser esse pai onde, na verdade, ele encontre um amigo. Um lugar de força e conforto para ele. O papel do pai é tão fundamental quanto da mãe, obviamente.

Você é um homem atual, que divide as tarefas de casa com Aline, cuida da educação do filho, cuida da casa, respeita os limites de cada um no relacionamento… Como você e Aline se dividem nesses aspectos? Acho que é meio a meio. Não consigo desassociar uma coisa da outra. O papel de pai e o papel de mãe. Claro que a mãe é o ser que nutre, que gera e carrega. Mas o pai, ele é um pai maneiro, um pai legal, é parceiro. Ele assume a responsabilidade 50/50 (risos).

Independentemente de orientação sexual, educação ou referência, a masculinidade vem de onde? Essa talvez seja a questão de maior necessidade para a nossa sociedade olhar. Com certeza, o homem está doente. Com certeza, existe muita ilusão em cima disso. O ideal de homem, que é um homem forte, viril, um cabra muito porreta que bate e por aí vai… Isso já foi. Está lá na idade das cavernas. Não cabe mais nos dias de hoje. Estamos começando a entender que o homem é sensível, sim. A sensibilidade existe no homem, sim. As emoções também. E ele precisa aprender a trabalhar com isso. Não adianta usar a força para esconder, porque é isso que nós homens fazemos. A gente usa a força bruta para tentar esconder o nosso lado mais sensível, como ferramenta de defesa.

Até na história, o homem tem um mecanismo muito louco de dominação. Quando os colonizadores chegaram no nosso país, e antes disso, vemos que é uma disputa de raças, de soberania do mais forte. Exército, conquistas… e mortes. Isso é insustentável. Para onde vamos com isso, pelo amor de Deus? Em 2020, pós-pandemia, porque com a graça de Deus, nós vamos superar. Para onde nós vamos? Vamos continuar com essa cultura de guerra machista? Não compactuo. Sou homem o suficiente para entender o meu papel e assumir a minha sensibilidade, e instigar para que outros homens também olhem para isso e não se defendam. Que desintegrem isso e não lutem contra. Porque já se tornou insustentável o machismo. Se formos analisar, por que existe tanta agressão aos gays, trans, porque as mulheres estão lutando tanto pra ter um espaço de voz… O que aconteceu e acontece com o negro? É algo absurdo na história. Só que nós nos habituamos e normalizamos essa questão. Justamente por esse papel do homem. Ele perdeu a mão. Errou no tom. É completamente incabível continuar caminhando assim. Temos que fazer uma reforma íntima aí. Achem ruim ou não, por que vamos ter que reformar.

Aquela ideia de que “homem não chora” cada vez mais fica pra época dos nossos avós. Hoje o homem chora, diz eu te amo para um amigo, segue conselhos de uma mulher e pode ser mostrar frágil. O quanto isso pode ser libertador para os homens? O quanto isso faz o homem ser mais humano? Percebe muito isso hoje em dia? A gente já vê um movimento, um movimento grande. Mas, ao mesmo tempo, a gente vê outro movimento totalmente conservador que deturpa os demais, e acaba tornando muito delicado se falar sobre o machismo. Vivemos em um país onde, ainda hoje, ocorrem atrocidades e crimes absurdos. Se fomos analisar a raiz disso, grande parte é machismo, a ignorância. Acho muito legal quando vemos um número crescente de homens lidando com a masculinidade tóxica. Algo que precisa ser curado na nossa sociedade e no homem. Ele precisa ser curado dele mesmo. Não é fácil. Não é legal, porque todos nós temos fraquezas, mas não sei onde foi escrito que você tem que ser uma pessoa forte. A cultura do “não chore, você tem que ser forte. Aguenta, vai! Bate! Levanta!”… É legal entender que existe o lugar onde dói, poder falar “não faz mais isso! Eu não quero fazer igual”, e romper com esse padrão. Que a gente aprenda a respeitar. Essa imposição e força é muito triste e incabível. Fico feliz quando começamos a ver um movimento maior de homens buscando olhar com hombridade. Não confundir a hombridade com a masculinidade. Não dá para confundir. Hombridade é outra coisa, é respeito, dignidade. Honestidade, fraternidade e parceria. Não querer ser o macho alfa ou o dominador do mundo. É saber que você precisa do outro para sobreviver nessa selva. É consciência do coletivo.

Por outro lado ainda temos muita brutalidade e machismo atualmente. Quanto mais se fala da violência contra a mulher, ainda mais nessa fase de isolamento social, mais os índices aumentam. Como combater isso? Infelizmente, existe essa cultura de liberdade do homem, para ele fazer o que ele quer porque vai passar impune. Temos exemplos absurdos que não vou sequer citar aqui. Existe uma liberdade para o homem fazer o que quiser, uma supremacia para humilhar, subjugar e maltratar. Principalmente o homem branco. Não há o que se falar. Só observar os padrões, verá. O homem branco se posiciona nesse lugar de supremacia do universo. O que estiver abaixo, ele não mede as consequências. Se ele tiver que passar, vai passar por cima. Mas o momento mudou. Precisamos o inverter o padrão.

As mulheres, graças a Deus, se uniram e estão mostrando o resultado que estão conseguindo, de falar: “estamos juntas. Ninguém solta a mão de ninguém.” Elas se redescobriram. Vejo pelo processo da Aline de criação do seu novo disco, a força do feminino. Para conseguirmos derrubar esses índices e ir contra essa maré de negatividade e brutalidade É simplesmente através de conscientização. Isso está errado e não pode continuar. Quem está sofrendo precisa se posicionar. Saber que tem força. Existem pessoas que estão pré-dispostas a ajudar, a dar a mão, a fortalecer e amparar. E parar de aceitar, porque já não pode mais. A partir do momento que somos permissivos e aceitamos, não há o que fazer. Porque estamos dando corda a essa ignorância. Nosso momento, agora, é de detectar os lugares onde existe a permissibilidade da maldade, brutalidade e ignorância. E agir justamente aí.


Falando de você e Aline, existe segredo para essa harmonia? Onde e como vocês se completam? Eu e Aline nos completamos nas nossas diferenças e polaridades. Sabemos que não somos uma coisa só. Estamos assim agora e nos conectamos nas nossas almas. Elas vão além do nosso corpo, cara, gênero. Dos nossos status e profissão. Nossa alma é outra coisa. Nosso espírito não precisa disso. A gente se conecta quando consigo senti-la verdadeiramente. O amor acontece quando você simplesmente diz: “quero caminhar do lado dessa pessoa, quero crescer com ela e que ela cresça comigo. Quero compartilhar com ela”. O que me ajuda muito é ter essa parceira na minha vida. Se eu não tivesse Aline, eu estaria muito perdido, porque sou um cara muito sensível.

Se não tivesse essa mulher forte do meu lado, me dizendo “vai!”, assim como se não estivesse do lado dela falando “vamos! Você é a rainha das galáxias! Quero ver você brilhando! Cantando! Compartilhando todo esse amor que tem dentro de você! Colocando isso pro mundo”, assim como ela fala para mim. Somos espelho um do outro. A gente reflete muita coisa, é uma troca. Não é fácil não, minha gente. Não é só alegria, só riso. Não tem dessa. Aqui em casa, vivemos momentos muito nebulosos onde é preciso se ter silêncio para respeitar o tempo de cada um. O momento é de quase um sincericídio. De ser muito sincero com você mesmo, se despir e ser o que é. E é horroroso se despir, é horrível. É desconfortável, pura exposição.

Mas pela profissão, como artista, já venho trabalhando isso há muitos anos isso. Facilita com que a gente aprenda a se expor, a mostrar nossas dores e ridículo, rir do nosso ridículo. E nos integrar a isso. Saber que somos isso. Se formos analisar, sou um cara super esquisito, excêntrico e gosto de ser assim. Isso não é mais um problema, mas durante muito tempo, foi. Estou feliz com quem sou. Não estou perfeito nem quero ser, quero estar bem longe da perfeição. Estamos aqui na condição humana, que é justamente entender as nossas fraquezas. Aceitá-las e entender que não posso colocar as minhas dores sobrepostas às dores do outro. Estamos juntos. Este é o nosso grande barato.


Já sentiu na pele o preconceito e o racismo de alguma forma, mesmo que indiretamente? Era muito desumano quando havia esse tipo de comentários (racistas). Passamos por muita coisa louca. Até questionando a qualidade do nosso relacionamento, “que relacionamento é esse? Esse relacionamento não pode ser de verdade! É de fachada!”. Porque realmente não tem resposta. A resposta é o amor. A gente está junto porque a gente está junto. Nos encontramos e nos reconhecemos. Ouvimos muita coisa dolorosa. Ouvi muita coisa dolorosa para Aline, porque estamos falando de racismo.

Essa é uma grande pauta, o racismo está aí há muito tempo. Aliás, por tempo demais. Talvez no começo eu não soubesse lidar com isso. Mas obviamente eu sentia um conforto, porque eu era o cara loiro. De olho azul, o privilegiado. Sentia as dores por estarem falando de modo negativo da minha parceira, da pessoa que eu mais amo nesse planeta, além do meu filho. Mas tudo isso começou a me convidar a pensar sobre que o que eu poderia fazer. Às vezes, a gente não tem que fazer muita coisa. Às vezes, “ser” é muito mais efetivo do que “fazer”. Às vezes, quando se está tentando fazer muito, não se acerta completamente. Mas a condição de fazer aquilo que se acredita já é muito efetiva. Termos um filho que é uma mistura de um homem branco como mulher preta é muito legal. E vou lutar para defender meu filho. Vou lutar para defender minha parceira, que é o amor da minha vida. Não quero que eles sofram injustiças ou sejam subjugados. Já foi demais subjulgada.

Estamos em um momento onde é necessário retratação. De olhar com delicadeza para essa história. Parar e ver o que podemos fazer para seguir adiante, porque é muito triste tudo que vem acontecendo. O preconceito é uma arma sinistra. Hoje, ele é velado. Politicamente falando, as pessoas não têm preconceito, elas já entenderam que não podem mais falar certas coisas, não podem mais fazer piadocas. Mas elas continuam preconceituosas. Porque não se mexeu na estrutura, na raiz da questão. Nós estamos em um momento onde há de se ter muita gentileza com a gente mesmo, com muita delicadeza com a história do outro. Para mim, durante muito tempo isso foi sinônimo de fragilidade ou de soar “Poliana”. Não é mais. Não considero mais como “Poliana”, e se ainda considerarem, não me importo mais.

Peço até desculpa se, de alguma forma, ofendo alguém com o meu ponto de vista, porque não é minha intenção. Minha intenção é que a gente pare de ser hipócrita, injusto e prepotente. Está feio. Temos tanta história legal para reconstruir, tanta coisa legal pra fazer. Temos uma chance de ouro na mão, que é reestruturar uma sociedade inteira. Mas precisamos parar de bater palma para maluco. Parar de bater palma para símbolos que simplesmente pregam coisas opostas e completamente vazias. Se formos olhar para nossa arte hoje, o entretenimento, o que surte efeito e tem sucesso, efetivamente? Precisamos de uma grande reforma, e isso começa com: “quem são os nossos ídolos?”. Esses ídolos têm que saber que não são ídolos de nada. Eles são responsáveis. Têm que assumir com a sua responsabilidade. Cada comunicador tem que assumir com a responsabilidade aquilo que está comunicando.


Como você trata assuntos como machismo, violência e racismo com o pequeno Antônio? Ou ainda é cedo? Com o Antônio, a gente simplesmente tenta fazê-lo enxergar que ele tem que ter orgulho de ser quem ele é. E ele já tem por natureza. Ele ama aquele cabelo. Nunca foi uma questão. A gente já ouviu pessoas falando que já estava na hora de cortar o cabelo dele, “não está meio demais?” Por que está demais? Por que incomoda tanto o cabelo afro? Por que cortar? Por que baixar? Porque é algo que as vezes deixa as pessoas em um lugar de incômodo? O Antônio já vem com essa autoestima que eu invejo e queria ter tido enquanto criança. Eu era tímido, completamente introspectivo. Já era um menino sensível, crescendo em um sistema machista, para mim já era estranho viver nesse mundo. Esse mundo nunca foi legalzinho para mim na minha infância.

Fico feliz de ver meu filho e de ajudá-lo a se tornar tão potente. É tão importante. Estar convicto de que pensar que é tudo bem eu ser do jeito que eu sou. Esses dias, ele não estava querendo pentear o cabelo. Começa a embaraçar e tem que cortar. Perguntei a ele: “você quer cortar o cabelo?” E ele disse que não, porque gostava de ser quem era. “Isso aí filho! Arrasou!!” (risos) então vamos pentear para não dar nó. E ele gosta, gosta da identidade. Ele sabe que ele é preto e branco. E acha legal. A gente tenta deixar isso tudo muito mágico pra ele. Ele sabe que é um barato. A gente não fala pra ele que algumas pessoas podem achar isso ou aquilo. Para ele já está ressignificado em um lugar completamente positivo. Enquanto Aline viveu grande parte da vida dela sendo sub julgada, o Antônio já cresce em outra frequência. Outra vibração.

Você lida bem com seu corpo? Quais os cuidados? Qual sua vaidade?
Cada vez menos tento olhar pra mim apegado à matéria. Olhando mais para o meu espírito. Durante muito tempo da minha vida, fiquei condicionado a colocar minha imagem como carro-chefe do meu trabalho. Porque era o que as pessoas viam, mais do que tudo. Por mais que eu me esforçasse para mostrar meu trabalho, provar que era um bom ator, o carro-chefe que me levava para frente sempre foi, por grande parte das vezes, minha aparência. Isso se tornou sim um lugar delicado pra mim, que não quero mais carregar. Não é legal, bom, saudável e nem verdadeiro. Porque aparência vai embora, isso não sou eu, isso é parte de mim.

Não luto contra isso, tenho vaidades e conheço exatamente os meus calos e calcanhares. Mas, cada vez mais, procuro olhar para a beleza do processo de amadurecimento, de deixar essa juventude ir e me abrir para o novo, para uma sabedoria que venha trocar. Uma equação muito positiva, em lugar de saúde e leveza, força e integridade. Estou vendo minhas rugas chegarem, meu rosto nem meu corpo são mais os mesmos. Por mais que faça dietas, antes conseguia perder peso em três dias, e hoje tenho que suar muito a camisa para me manter na estica.

Sou pai, tenho um filho para brincar. Tenho uma família para cuidar, o jardim para limpar (risos), penso que poderia ter ido para academia, mas, ao mesmo tempo, estou zelando pela minha família e minha casa. Tudo dá para conciliar, mas realmente entro nesses lugares de pensar o quanto isso é importante para mim. O quanto não precisa ser tão importante, e o quanto eu posso começar a desapegar e valorizar, cada vez mais, a essência. Seria tão legal se todos nós já conseguíssemos parar de olhar para a cara do outro e julgar. Começarmos a olhar mais para essência. Menos casca e mais essência. Menos supérfluo. Mas é um processo.

Você parece ser bem ligado à natureza. Para recarregar as baterias é lá que procura? Sou extremamente ligado à natureza, cresci com isso, preciso ver o mato, preciso colocar o pé na terra, respirar esse ar, ver água. Não sou um bicho que funciona na cidade. Funciono na natureza. Isso tem sido um chamado muito forte, cada vez mais. Me reconectar com isso, valor que foi passado de gerações, que a minha frequência gosta. Gosto de estar no meio que é essencial. Acho que a natureza ensina muito para gente. Tem um padrão muito lindo de respeito acontecendo. Passamos por cima e não estamos nem aí. Cortamos, derrubamos, matamos. Temos esse sentimento de supremacia. Mas a natureza é o lugar onde gosto de estar. Gosto de observar e contemplar. Me conecto e saio para caminhar no meio do mato. Converso com Deus e comigo mesmo. Peço proteção, me limpo e me curo. Grito, crio meus personagens. Tudo assim, no meio da natureza.

Em relação a trabalho, o que mais vem por aí?
Estou doido para que a gente finalize “Gênesis” e torço para que venha Paulo de Tarso, que é um personagem que já tive a sorte de fazer e que, provavelmente, vai voltar. Pelo que escutamos, ainda é incerto. Nada definitivo. Mas seria o máximo, porque ele tem muito ensinamento, muita coisa que respeito e honro demais. Seria uma honra muito grande poder contar essa história.

Quando puder viajar, qual o destino dos sonhos? Me vejo demais em um avião, com monte de filhos e Aline, chegando no Egito, conhecendo as pirâmides, as histórias de outras civilizações. Mostrando para eles o que nossos antepassados deixaram de legado, o que eles querem dizer. Mostrando as riquezas desse planeta. A força do nosso país, da dificuldade que é. Até tentamos fazer isso com o Antônio, para ele não crescer nessa bolha, para que ele visse o país onde ele vive e as diferenças, em um projeto chamado “Sementes”. Quero levá-los para o mundo, para um mundo novo. Só para esse, para o velho, não quero. Onde vai ter respeito, esperança e muito trabalho. Muito trabalho pra gente ressignificar o que a gente entende como humano.

Fotos Brunno Rangel / Grooming Walter Lobato