O filme “Bacurau” mas tinha chegado aos cinemas nacionais e a expectativa já era grande, ainda mais depois da premiação em Cannes. Com ele tivemos a grata surpresa de conhecer o ator Antônio Sabóia. Um brasileiro quase francês que o destino quis que ele criasse raízes em seu pais. Pais esse que passa por uma crise na área de cinema mas nem por isso deixa de produzir pérolas como “Bacurau”. Saboia já tem uma bela trajetória que vai do cinema à TV aberta, agora está mais em evidência por conta do filme mas em breve estará dando o que falar com seu trabalhos em séries como “Rotas do Ódio” (Universal Channel) e Santos Dumont (na HBO), só para citar duas delas. Aproveitando esse momento especial, fomos conversar com ele e conhecer um pouco mais da sua trajetória até agora. Por que pelo jeito tem muito pra vim por aí e isso vai render muita conversa ainda.

Como e quando decidiu ser ator? Eu tinha 14 anos e no colégio tínhamos que escolher uma opção extracurricular, então, para fugir da “matemática reforçada nível 2” e da “gramatica alemã nível 1” fui procurar a “opção Teatro”. Mas acabei descobrindo a única coisa que queria estudar de fato. Não e bem a história bonitinha de nasci artista, (risos).

Morando na França na adolescência, seu contato com as artes devia ser muito grande. Como isso te estimulou na área pessoal e profissional? A França é um país que sempre investiu muito em cultura e tenho o privilégio de ter uma família que sempre se rodeou de livros e filmes. Então muito cedo fui estimulado a compor meu repertório de referências. E foi essa base (que se renova ainda e sempre, na verdade) que me deu vontade de persistir e trabalhar como ator e de forma mais ampla com audiovisual.

Como foi a experiência de estudar teatro na Inglaterra? Tive professores incríveis que me deram uma formação profunda e sem dogmas. Eles ensinavam uma série de técnicas e você guardava o que pudesse melhor te servir. Não existia um jeito mas várias formas de se contemplar o trabalho de ator e você estava lá pra descobrir o jeito que funcionava pra você. Lembro que era uma quantidade enorme de aulas para aprimorar ferramentas de trabalho: corpo, voz, capacidade de construção e analise do personagem e seu contexto… E a língua era um desafio, falava inglês mas não com a fluência de um nativo, e de repente precisava improvisar no palco ou interpretar textos clássicos. A pressão era triplicada, já que eu era o único estrangeiro da sala, (risos).

Por que você se mudou para o Brasil e como foi a adaptação? Voltei a morar no Brasil por causa de uma namorada, a relação acabou virando uma grande amizade mas as coisas começaram a acontecer e decidi ficar e construir minha carreira aqui mesmo. Pra falar a verdade, foi complicado me readaptar à França quando voltei da minha primeira vivência no Brasil. Tinha 9 aninhos e lembro de ir com minha mãe na prefeitura fazer a inscrição na escola e ouvir uma moça falar que as aulas seriam das 8h às 17h… passei dois dias chorando dizendo que queria voltar pro Brasil, (risos).

Mesmo com uma boa trajetória profissional, você fez pouca coisa na TV aberta. Tem vontade de fazer mais novelas? Sim, claro. Participei de duas novelas dirigidas pelo Jayme Monjardim, a primeira do Manoel Carlos e a segunda de Alcides Nogueira. Queria muito fazer um vilão em uma novela inteira.

Acha que existe um preconceito do meio artístico sobre quem faz novelas? A novela faz parte da nossa cultura, e tem um público enorme aqui e fora do Brasil.  Seria esnobismo ter preconceito e não respeitar esse público.

Você tem no currículo vários filmes. Como é fazer cinema no Brasil e por que trabalhar nessa área é tido como o ápice da carreira de um ator? Uma sessão de cinema, de bom cinema tem essa aura mística né, uma experiência coletiva única dentro de um espaço específico e um tempo próprio. Não existe outra forma de arte que possa te oferecer uma experiência sensorial e narrativa tão completa. As coisas se agigantam na tela e quando tudo se harmoniza, roteiro, diretor, atores e meios de produção, o que você tem naquele espaço é uma experiência que vai alimentar e enriquecer teu imaginário como fazem grandes livros. Fazer cinema no Brasil não é algo fácil, nunca foi e infelizmente vai ficar cada vez mais difícil apesar de termos artistas maravilhosos em todos os departamentos necessários ao feitio de um filme. Esse ano já foram canceladas – e vamos dizer, censuradas – várias produções…

Atualmente, você está na TV na Universal Channel com a terceira temporada da série “Rotas do ódio”. Fale desse projeto e como é atuar num projeto que mostra um assunto tão importante hoje, que são os crimes de ódio. “Rotas” aborda temáticas urgentes. Nessa temporada falamos dos imigrantes ilegais no Brasil e como são explorados. E para além disso, de como são tratadas as minorias. Está cada vez mais urgente falar de crimes de ódio.  Em 2017, um homossexual era assassinado a cada 25 horas (O Globo) em 2018, a cada 19h (Estadão) em 2019, a cada 16h (UOL)… 75% das vítimas de homicídio no país são negras (IPEA) a cada 23 minutos morre um negro no Brasil (BBC). Enfim, os dados são alarmantes e não podemos deixar que o discurso de ódio se torne “aceitável”, “normal”. Então espero que a gente possa continuar de uma forma ou de outra a contar essas histórias e questionar sempre a banalização do inaceitável.

Em breve você lança a série sobre Santos Dumont, na HBO. Fale desse projeto e da importância de se falar da trajetória desse brasileiro que marcou a história mundial. Santos Dumont é uma figura histórica e tanto, precisava mesmo ter sua história contada na TV também. O cinema americano faz e refaz isso muito, exaltar seus heróis nacionais. Teríamos uma longa lista aqui no Brasil também. De Zumbi dos Palmares a Chico Mendes. Tenho muito orgulho desse projeto, interpreto o concorrente francês, Louis Bleriot, o piloto que “quase voou primeiro”, e o primeiro homem a arriscar um Londres-Paris pelos ares. Abordar a vida desses caras na TV é também construir uma ponte interessante entre o grande público e capítulos importantes de sua História.

Como surgiu a convite para atuar em “Bacurau” e fale de seu personagem no filme? Marcelo Caetano, diretor de “Corpo Elétrico” que produziu o elenco de “Bacurau”, me mandou uma cena escrita pelo Facebook. Fiz um vídeo e mandei pra eles. Foi um processo muito rápido, em pouco tempo me deram a confirmação. Tive muita sorte, na verdade, não costuma ser assim. Às vezes você fica um ano no vai, não vai. Diria que a espera é bem mais cruel do que a rejeição, mas faz parte. Sobre o personagem só posso adiantar que é um entreguista bem mau caráter.

Como foi presenciar em Cannes o filme “Bacurau” ser ovacionado pelo público internacional e ser premiado? A noite de estreia foi muito especial, éramos mais de 30 do elenco e da equipe, de vários cantos do Brasil, havia muita diversidade representada naquele tapete vermelho. Descobrir o filme juntos com uma plateia de mais de 2000 pessoas vibrando com a gente foi uma loucura! E como se não bastasse, no fim de tudo, ganhar o prêmio com Tarantino, Jarmush, Almodóvar, Dolan, toda essa galera presente na sala. Foi muito gratificante e intenso, não só pelo reconhecimento do trabalho, mas também pelo que isso significava naquele momento. O reconhecimento de um dos mais lendários festivais de cinema do mundo num momento de total incerteza quanto ao futuro do cinema brasileiro. Enfim, tenho muito orgulho de fazer parte disso tudo.

Quais as expectativas com o público brasileiro? Até agora aas estreias no Brasil têm dado muito certo, o público parece estar gostando do filme, os comentários são sempre muito positivos. Na pré de São Paulo, a fila dava a volta no quarteirão, eu nunca tinha visto tanta gente querendo ver um filme. Espero que o público abrace nossa história com carinho. A Vitrine filmes tem feito um trabalho maravilhoso de divulgação

Acha que os brasileiros ainda prestigiam pouco o cinema nacional? Existe sim um certo preconceito com o cinema brasileiro, mas acho que isso se deve também ao pouco espaço que damos as nossas produções. O cinema na França tem muito apoio do Estado e isso garante um espaço consequente para produções nacionais.

Acha que estar num filme premiado no exterior pode mudar a carreira de alguém? Isso é muito relativo, pode e não pode, vai dos acasos, dos encontros, do que a pessoa precisa viver naquele momento, uma série de fatores… Agora é fato que um filme premiado é um marco importante na carreira de qualquer ator. Tem um “antes” e um “depois”.

Recentemente, o governo avisou que não vai mais dar dinheiro para produzir cinema com histórias como da Bruna Surfistinha e temas com cunho LGBT. O que você achou disso? O pessoal tem a cara de pau de falar que não é censura… Vou falar umas obviedades mas o que define uma democracia é o direito de liberdade de expressão e o de contestação. O Estado existe para garantir esses direitos. E é pra isso que pagamos nossos impostos também. Então precisamos sim tratar da questão LGBT, precisamos sim criticar o sistema por não proteger essa comunidade e essa questão não pode ser censurada para agradar uma parcela ultraconservadora das nossas elites.

Se fosse governante, como trabalharia com a cultura no Brasil? Vasta pergunta…Só na questão do cinema, é preciso – no mínimo – que os nossos governantes tenham o entendimento que o audiovisual é uma indústria geradora de muitos empregos no Brasil, responsável por mais de 0,46% do PIB brasileiro, o que é maior do que a participação do setor farmacêutico. Precisam ter o entendimento que esse setor necessita de incentivo e apoio até que desenvolva uma cultura industrial sólida como na França ou nos Estados Unidos onde o Estado sempre apoiou muito o cinema, inclusive por meio de incentivos fiscais como faz a Lei Rouanet no Brasil. Nunca se produziu tanto e nunca o Brasil foi tão representado em Festivais internacionais de prestígio. Não dá pra frear e censurar esse momento por medo de críticas a um governo.

Quais seus próximos trabalhos? Tenho vários projetos a serem lançados. A série “Gilda” do Gustavo Pizzi (diretor do filme “Benzinho”) com minha parceira e amiga Karine Teles, projeto do qual tenho muito orgulho também. A série “Santos Dumont”, da HBO, de Estevão Ciavatta, e o filme “Calvário” sobre o tema LGBT que co-escrevi com o diretor Marcio Darocha e meu irmão Bruno Saboia. Ainda teremos a quarta temporada de “Rotas Do Ódio”, o filme “Arigó”, de Gustavo Fernandes com Danton Mello, “Um dia qualquer”, de Pedro von Kruger, e “Órbitas da Água”, de Frederico Machado… E que venham mais e mais e mais trabalhos por favor.