
Depois de alguns anos longe das novelas, Paulinho Vilhena está de volta a um território que ocupa um lugar especial em sua trajetória. O reencontro acontece em um momento particularmente significativo: aos 47 anos, o ator retorna à teledramaturgia trazendo na bagagem não apenas a experiência de uma carreira construída entre televisão, cinema e teatro, mas também as transformações de uma vida que ganhou novos contornos com o casamento e a paternidade.
Na nova novela, Por Você (Globo), Vilhena assume um personagem que também reflete essa maturidade. Ricardo, um médico e diretor da cardiologia de um hospital, ele vive entre a responsabilidade de decisões que envolvem vidas e uma personalidade leve, esportiva e profundamente ligada ao jeito carioca de aproveitar a liberdade. Um papel que ainda estabelece uma curiosa conexão com sua própria história: antes de seguir definitivamente pela atuação, Paulinho chegou a prestar vestibular para Medicina e sempre manteve interesse pela área biológica.
Com uma trajetória iniciada na televisão e posteriormente ampliada pelo desejo de experimentar outras linguagens, o ator encontrou em nomes como Paulo Autran e Laís Bodanzky importantes referências para sua aproximação com o teatro e o cinema. Décadas depois, mantém a mesma disposição para aprender, experimentar e se colocar diante de novos desafios — seja descobrindo o universo da corrida para compor um personagem ou alimentando o desejo de, um dia, interpretar um grande vilão no horário nobre.
Nesta conversa com a MENSCH, Paulinho Vilhena fala sobre o reencontro com as novelas, as transformações da televisão brasileira, a paixão pelo esporte e pelo ofício de ator e, sobretudo, sobre uma fase em que carreira e vida pessoal parecem caminhar sob uma nova perspectiva. Entre a intensidade dos sets e a tranquilidade encontrada ao lado da mulher, Luiza, e da filha, Manoela, ele revela um homem que continua movido por desafios, mas que hoje compreende o sucesso também pela qualidade dos afetos construídos fora das câmeras.


Depois de alguns anos dedicados ao cinema, ao teatro e a diferentes plataformas, como foi receber o convite para voltar às novelas da TV Globo? O que esse retorno representa para você neste momento da carreira? Eu recebi o convite com muita alegria. Fiquei muito feliz e grato por ele ter chegado em um momento tão oportuno, porque eu desejava muito esse reencontro com a telenovela. Eu nunca parei minha vida profissional; continuei fazendo cinema, teatro e séries. Mas realmente fiquei esse tempo longe das novelas, e foi um período muito importante também para a minha vida pessoal. Foi quando constituí minha família, me casei e tivemos nossa filha. Então, fiquei muito feliz e honrado. Vamos com tudo! Tenho certeza de que será um projeto que vai encantar o telespectador.
Seu personagem Ricardo é um cardiologista, preceptor de residentes e descrito como um homem acolhedor, bem-humorado e apaixonado por corrida. O que mais chamou sua atenção nesse personagem? O que mais me chamou atenção nesse personagem é esse universo tão amplo em que ele transita dentro de um hospital: as corridas contra o tempo, salvando vidas, perdendo vidas, e, ao mesmo tempo, ele é leve. Ele sabe da importância da profissão dele e é responsável por uma área extremamente importante, que é a diretoria da cardiologia. Mas, ao mesmo tempo, é um típico carioca, que sabe aproveitar a vida.


Você já interpretou personagens muito diferentes ao longo da carreira. Em que aspectos Ricardo se distancia dos papéis que o público está acostumado a ver em você? Talvez o público nunca tenha visto um personagem meu tão maduro. E digo isso em termos de vida mesmo. Para um médico se tornar diretor da cardiologia de um hospital, ele precisa ter uma certa idade, alguns anos de profissão e um tempo dedicado à medicina. Acho que isso transforma esse personagem em alguém mais maduro e experiente. Talvez essa seja uma grande surpresa para o público e, para mim, também está sendo uma surpresa muito positiva interpretá-lo.
A medicina exige um universo muito específico. Como foi o processo de preparação para viver um cardiologista e transmitir credibilidade em cena? Durante a preparação dos personagens da novela, eu estava filmando em São Paulo, então não pude participar desse período de preparação. Mas eu já tinha a sinopse do personagem e fui me aproximando dele à medida que concluía as gravações de um longa-metragem, que também exigia bastante de mim, já que eu interpretava o protagonista do filme. Uma curiosidade é que eu já quis ser médico. Prestei vestibular para Medicina e coloquei Odontologia como segunda opção. Acabei passando em Odontologia.
A área biológica sempre me interessou muito, desde a infância, passando pela adolescência e pelo ensino médio. Tenho grandes amigos que atuam na área da saúde e converso com eles semanalmente. A cardiologia, na minha vida, é um caso à parte, porque a única vez em que estive mais próximo desse universo foi quando meu pai sofreu um infarto. Naquele momento, precisei entender um pouco mais sobre a especialidade e sobre a situação dele. Isso me fez admirar ainda mais a profissão médica, porque cada área tem suas especificidades. A cardiologia é fascinante, afinal, você lida com um dos órgãos mais importantes do corpo humano. Estou estudando cada vez mais para compreender melhor essa área e extremamente feliz com a oportunidade de viver, na ficção, talvez a profissão dos meus sonhos.


Ricardo tem um perfil humano e empático, mas toda boa novela reserva conflitos e camadas aos seus personagens. O que o público pode esperar da evolução dele ao longo da trama? Acho que esse perfil de personagem mais humano, e não simplesmente um herói ou um vilão, é uma das grandes características dessa novela. São personagens muito humanos, no sentido mais amplo da palavra. Até os vilões são humanos. Eu acho que essa é justamente a riqueza da história. Nós temos a capacidade de sermos completamente diferentes uns dos outros e, ainda assim, convivermos no mesmo planeta, buscando alguma harmonia. A novela retrata exatamente esse universo, que é o nosso mundo real. Ao longo da trama, haverá mudanças e novidades em relação ao personagem, mas, por enquanto, posso dizer que ele é um cara empático, trabalhador, extremamente profissional, dedicado ao cargo que ocupa, apaixonado pela corrida e por viver o puro suco da liberdade carioca.
Com mais de 25 anos de carreira, você acompanhou de perto as transformações da televisão brasileira. Como enxerga a evolução das novelas e o comportamento do público nesse período? Acredito que, na vida, tudo acontece por meio de mudanças. Elas são extremamente importantes para a evolução do ser humano, das empresas e da sociedade. No caso da TV Globo, essas mudanças naturalmente aconteceriam, e fico muito feliz por ter acompanhado esse processo de perto e entendido a necessidade dessa transformação. Antigamente, por exemplo, não existia internet, e isso, por si só, já representa uma enorme mudança de era. Fazer parte desse momento, continuar atuando e dedicando meu trabalho e meu ofício para que essa história tenha qualidade é uma grande oportunidade para mim como profissional. É nisso que estou focado. Quero fazer a diferença.

Sua trajetória transita com naturalidade entre televisão, cinema e teatro. O que cada uma dessas linguagens acrescenta ao seu trabalho como ator? Hoje isso parece muito natural, e acho que realmente é. Mas houve uma busca muito grande da minha parte para me aproximar da linguagem teatral e também da cinematográfica. Fui atrás de oportunidades e construí uma rede de conexões com o teatro e o cinema. Confesso que houve uma pessoa muito importante nesse processo de adaptação e nessa busca: Paulo Autran. Em uma entrevista da qual participei ao lado dele, ouvi uma fala apaixonada sobre o teatro e sobre a importância dele na trajetória de um ator. Ele me incentivou a procurar grupos teatrais, estudar dramaturgia e fazer peças. Depois, tive a oportunidade de conhecer Laís Bodanzky, uma grande diretora de cinema. Curiosamente, nosso primeiro encontro aconteceu no teatro, quando ela me dirigiu em Essa Nossa Juventude. A partir dali, também tive a oportunidade de fazer filmes com ela. Jamais poderia deixar de citar Paulo Autran como uma figura extremamente importante na minha trajetória teatral e Laís Bodanzky na minha trajetória cinematográfica.
Em um momento em que o streaming ampliou as possibilidades para os artistas, o que faz a novela aberta continuar sendo um espaço tão especial e relevante para você? A novela, para mim, é o maior conteúdo produzido pela indústria audiovisual brasileira. Ela faz parte da cultura popular do país e também da minha formação, tanto como telespectador quanto como artista. A novela tem uma importância muito grande na minha vida pessoal e profissional. Tenho profunda admiração por toda a equipe que faz uma novela acontecer. Acho tudo isso de uma grandiosidade impressionante. Já presenciei produtores de Hollywood entrarem nos Estúdios Globo e saírem de lá de queixo caído com a capacidade de produção, de criação estética e de construção de conceitos que a TV Globo imprime em suas obras. Isso é motivo de muito orgulho para mim.


Ricardo é apaixonado por corrida, um hábito que também exige disciplina e equilíbrio. Existe alguma identificação pessoal sua com esse estilo de vida ou foi um universo totalmente novo? A corrida é um universo totalmente novo para mim. Eu nunca tinha praticado e não é um esporte sobre o qual eu tenha muito conhecimento, embora acompanhe algumas provas, como maratonas e a São Silvestre. Ao mesmo tempo, é justamente isso que torna o personagem tão interessante: as diferenças, as possibilidades de aprendizado e a oportunidade de viver uma experiência nova. Sempre fui apaixonado por esporte e admiro muito tudo o que ele representa como impacto social e pessoal. Vai ser uma oportunidade de aprender algo novo.
Ao olhar para essa nova fase da carreira, quais histórias e personagens ainda despertam sua curiosidade? Há algum desafio artístico que você considera um sonho a realizar? Graças a Deus, já tive a oportunidade de viver personagens muito diferentes. Mas tenho muita vontade de interpretar um grande vilão em uma novela. Esse é um desejo antigo, talvez por ter assistido a grandes atores, de outras gerações e também da minha, brilhando nesse tipo de papel. Acho que seria um marco muito bonito na minha trajetória profissional. O planeta tem bilhões de seres humanos, cada um com sua beleza e suas diferenças, então existem infinitas possibilidades de personagens. Mas, dentro de algo mais concreto, um grande vilão de uma novela das nove, com muita carga dramática, seria um sonho.
A paternidade costuma transformar prioridades, perspectivas e até a maneira de enxergar o tempo. De que forma ser pai mudou você, tanto na vida pessoal quanto na forma de encarar a profissão? Acho que todos os pontos citados nessa pergunta são extremamente reais e concretos. A família transforma as prioridades, as perspectivas e até a maneira de enxergar o tempo. Na minha vida pessoal, foi uma dádiva encontrar a Luiza. O que poderia ter sido apenas um encontro acabou nos transformando em marido e mulher, levando minha vida para uma outra dimensão. Ela também trouxe de volta um sonho antigo: a paternidade. Hoje a Manoela está aí, completando três anos no dia 15 de agosto. Eu e a Luiza estamos juntos há sete anos e completamos três anos de casados no dia 13 de setembro. Enfim, posso dizer que Deus é muito bom e que a vida tem sido muito generosa comigo. Só tenho a agradecer.
Fora dos estúdios, você sempre demonstrou uma ligação com esportes, natureza e uma vida mais equilibrada. Como esse estilo de vida influencia sua saúde mental, sua criatividade e a maneira como chega preparado para cada novo personagem? Sempre fui apaixonado por esportes. Desde muito cedo fui incentivado a praticá-los em Santos. Eu tinha a praia como quintal, então comecei a surfar ainda criança. Também jogava futebol de salão, futebol de campo, basquete, treinava vôlei e natação. Tudo o que é relacionado ao esporte me interessa, porque fui motivado desde cedo a viver esse universo. Acho que o esporte ensina muito. É uma grande ferramenta de transformação, disciplina, respeito e aprendizado. Procuro sempre manter alguma atividade física na minha rotina, seja qual for. Isso faz toda a diferença no meu estado emocional, físico e na minha qualidade de vida. Me dá disposição para brincar com minha filha, abraçar minha mulher, pegar minhas ondas e desempenhar bem as atividades do dia a dia. Procuro estar sempre ativo.

Fotos Nanda Araujo
Styling Samantha Szczerb
Beleza Ric Menezes
Assessoria de imprensa First Press Comunicação
Agradecimentos Angelo Bertoni, Oficina e Democrata


