
Especialista afirma que técnicas usadas por filmes e séries estão sendo incorporadas à criação de conteúdo para aumentar retenção, conexão e recorrência nas redes sociais. Durante anos, viralizar foi tratado como um dos principais sinais de sucesso nas redes sociais. Mas, em um ambiente cada vez mais disputado, atingir milhões de visualizações em um único vídeo pode já não ser suficiente para construir uma presença digital consistente. Para especialistas em criação de conteúdo, a nova disputa passa menos pela busca de um vídeo isolado de grande alcance e mais pela capacidade de fazer o público voltar, acompanhar uma história e criar conexão com quem está por trás daquele perfil.
É nesse cenário que técnicas tradicionalmente associadas ao cinema e às séries começam a ganhar espaço também nas redes sociais. Curiosidade, conflito, transformação e continuidade são alguns dos elementos utilizados para prender a atenção e fazer com que uma sequência de conteúdos funcione quase como capítulos de uma mesma narrativa.

Para a especialista em criação de conteúdo e fundadora do Método Legado Digital, Jessica Quintana, as pessoas não acompanham apenas vídeos, mas histórias e pessoas. “Quando comecei a estudar os maiores criadores de conteúdo, percebi que eles tinham algo em comum com as grandes produções de streaming: a narrativa. As melhores séries criam curiosidade, apresentam conflitos, mostram transformações e fazem o público se conectar com os personagens. Na internet, acontece exatamente a mesma coisa”, afirma.

Segundo Jessica, esse princípio também ajuda a desmontar uma crença comum entre quem começa a produzir conteúdo: a de que é preciso ter uma rotina extraordinária para despertar interesse. “Muita gente pensa que precisa viver algo excepcional para criar conteúdo interessante, mas o segredo está em como a história é contada. Uma situação simples do dia a dia pode gerar identificação e conexão quando existe uma boa narrativa por trás”, explica.
Outro ponto observado pela especialista está nos primeiros segundos dos vídeos. Em meio à enorme quantidade de conteúdos disponíveis, conquistar rapidamente a atenção se tornou parte essencial da estratégia. “As pessoas costumam explicar demais antes de despertar qualquer interesse. Os primeiros segundos precisam responder a uma pergunta simples: por que eu deveria continuar assistindo? Começar pela parte mais interessante da história e criar pequenas expectativas ao longo do vídeo faz toda a diferença”, afirma.
A mesma lógica vale para a relação dos criadores com os algoritmos. Na avaliação de Jessica, atribuir um baixo alcance exclusivamente às plataformas pode desviar a atenção de um aspecto fundamental: o interesse despertado pelo próprio conteúdo.
“Na maioria das vezes, o problema não é o algoritmo. O objetivo das plataformas é entregar para mais pessoas aquilo que consegue prender a atenção delas. Se um vídeo não desperta curiosidade ou não mantém o espectador assistindo, dificilmente terá grande distribuição”, diz.

A mudança de perspectiva também atinge a própria ideia de sucesso digital. Em vez de concentrar esforços apenas em conteúdos que possam viralizar, criadores começam a desenvolver projetos, desafios e histórias que se estendem ao longo de vários vídeos.
“Quem vive apenas de conteúdos virais normalmente cria vídeos isolados. Já quem constrói uma audiência fiel desenvolve uma história contínua. As pessoas passam a acompanhar projetos, desafios e transformações. Elas deixam de assistir apenas pelo assunto e começam a acompanhar a pessoa”, conclui.
Em um mercado no qual cada vez mais pessoas disputam atenção nas mesmas plataformas, transformar visualizações pontuais em uma audiência que retorna pode se tornar um dos principais diferenciais para quem pretende construir relevância no longo prazo.


