
Por Andrea Hunka / Produção Sofia Hunka / Fotos Gabriel Gaggetti
Desembarcar no Rio — acredito que esse estado e condição povoam muitos de nós — é sentir a brisa e os cenários que construíram, em nosso coração nacionalista. Há muito, o significado de um Brasil tropical e nativo, com paisagens naturais e construídas sobre derrubadas e soterramentos de orlas e marés. Bairros inteiros foram sendo pautados sobre os contextos de um país desenvolvido, moderno e maneiro — um país que constrói e desconstrói, com facilidade, suas memórias afetivas. Mas o Rio? Não. O Rio não é tão fácil assim. Mesmo que as escavadeiras, as retroescavadeiras, as desordens sociais, os governantes desastrosos e as mãos tentem, o Rio, em seus recantos, cantos, ruas e casas, continua pleno. Em seu povo, que dia a dia trafega por essa cidade, o Rio continua a rodear nossas mentes, em suspiros que agradecem por sua beleza hipnótica. Em suas imagens que interagem paisagem/ser, sopra uma nostalgia que permeia uma música ao modo Orlando Silva, em sua plena era do rádio.
O Rio, de muitos janeiros, aporta no bairro da Saúde nas batucadas e rodas sem fim, no perfume das cozinhas intrépidas e cheias de caldos — e mais e mais — das tias Ciatas, Donas Ivone Lara, Clementina de Jesus, tias Suricas, Jocelinas Pérolas Negras… Rio, simplesmente Rio — dos molejos dos quadris lá no bar da Prainha, dos sambas densos tocados nas bandas da Pedra do Sal e dos encontros de todos na mercearia Paladino, que nos abraça com seus omeletes, em especial o de bacalhau.

O Rio da Praça Mauá, que segue pela rua Sacadura Cabral e, ao final, deságua no cais úmido da Baía de Guanabara, que se derrama pelo Estácio, Santo Cristo, Gamboa e pela Pequena África que recebe, desde sempre, com a bandeira branca, a da paz, os irmãos que há muito chegam. Famílias que aportam em procissões de fé. O Rio não se aquieta — é pulsante. Seus contornos e curvas inspiram e tramam visões de morros, baías, pedras e picos. De suas formações geológicas, emerge a majestosa Gnaisse Facoidal — rocha que pautou, em eras coloniais, fundações, estruturas e cantarias (molduras de portas e janelas) de edifícios importantes, substituindo a taipa e solidificando as construções nesse território, trazendo uma vista arquitetural tão nossa.
São escadarias na Saúde, casas do Centro, frontões do Mosteiro de São Bento que, mesmo rodeados por arranha-céus de vidro e fachadas metálicas sem fim, não encobrem as cúpulas nem apagam os pavimentos imperiais que resistem ao ritmo frenético da cidade. Abrem-se, assim, caminhos e visões únicas do invólucro dos morros do Pão de Açúcar, do Corcovado e da Serra do Carioca, que a mantêm protegida. Mas o Rio está lá, entre paradoxos, diante dos cenários que emolduramos – das travas do futebol de areia às vias asfálticas que cortam tudo e desaparecem nos contornos dos morros. No olhar que se tranquiliza ao vislumbrar alguém ao lado de cadeiras praianas quaisquer, contemplando o mar imenso; nas bicicletas velozes que rasgam as vias, na busca da saúde que saúda o carioca.
O Rio que, nos terrenos convexos, articula atributos côncavos, nas calçadas que ondulam sonhos em uma Copacabana singular — suas pedras portuguesas formam uma estética que desenha uma identidade para o mundo. Nos prédios modernistas que se entrelaçam às copas arbustivas, criando uma paisagem única. Do Rio do camelô, da favela suburbana, da manicure, da praia que emana vendedores sem fim, dos filhos de santo e das senhoras religiosas, do mate gelado com limão, da feijoada, do biscoito Globo, do “podrão” — sanduíche generoso —, do bronze de fitinha. Rio sem medo, que acorda cedo, mas gosta da festa e sabe viver e que caminha pelas calçadas, que frequenta o bar Jobi, entre chope gelado e sanduíche de pernil, no Baixo Leblon. O mesmo Rio da livraria Argumento e de suas cabeças pensantes.

E há ainda o Rio das ruas — esse organismo vivo que não apenas conduz, mas narra. Ruas que não são apenas vias, mas histórias em movimento. A Rua do Ouvidor, por exemplo, que já foi passarela de elegâncias e conspirações, ainda ecoa passos de um Brasil que se inventava moderno. A Avenida Rio Branco, larga e imponente, segue como artéria que tenta organizar o caos — ainda que o caos seja parte de sua essência. E há ruas que se estreitam, que se dobram, que sobem morros e descem histórias — ruas onde o nome pouco importa diante da vida que pulsa. Becos que guardam segredos, ladeiras que exigem fôlego e devolvem vistas, escadarias que conectam mundos que o asfalto insiste em separar.

Nos bairros, o Rio se multiplica em identidades. Santa Teresa, suspenso entre o passado e a boemia, com seus trilhos de bonde e casas que resistem ao tempo e abriga artistas – memórias e um abandono que também é estética. A Lapa, com seus arcos, testemunha excessos e renascimentos, pulsando à noite como se o dia não bastasse. Leblon e Ipanema surgem como vitrines de um Rio desejado, onde o cotidiano se mistura à ideia de beleza e privilégio. Já Madureira, com sua potência cultural, revela um samba que não é espetáculo — é fundamento. Bangu, Méier, Campo Grande — territórios onde o Rio se constrói distante dos cartões-postais, mas profundamente verdadeiro.
O RIO VISTO DE CIMA DOS MORROS
E nos morros — ah, os morros — o Rio se revela em outra escala como Morro da Providência, Rocinha, Vidigal… Espaços que desafiam simplificações, onde a vida se constrói em camadas de resistência, invenção e convivência. Dali, o Rio é outro — ou talvez mais ele mesmo. Os moradores — conhecidos ou anônimos — também são arquitetura dessa cidade. O Rio de Tom Jobim, que transformou paisagem em melodia – de Vinicius de Moraes, que escreveu amores como quem vive; de Cartola, que fez do morro poesia e de Zeca Pagodinho, que traduz a leveza irônica do carioca.
Mas também o Rio do porteiro atento, da ambulante que reconhece rostos, do pescador que lê o mar, da senhora que observa a rua da janela como quem guarda o mundo. São esses corpos cotidianos que sustentam o invisível da cidade. E há os aparelhos culturais — espaços onde o Rio se pensa. O Theatro Municipal impõe sua presença europeia, contrastando com as rodas de samba a céu aberto. O Museu de Arte do Rio e o Museu do Amanhã tensionam passado e futuro, memória e projeção.

A Fundição Progresso transforma ruínas em pulsação cultural. A Biblioteca Nacional guarda silêncios que contrastam com o ruído incessante da cidade. Lugares onde o Rio se organiza — apenas para, ao sair deles, voltar a se desorganizar. E então, vêm os paradoxos. O Rio da beleza estonteante e da desigualdade gritante. O Rio que acolhe e afasta, que encanta e exaure. Onde o pôr do sol convive com o medo, onde a festa se faz ao lado da ausência, onde o luxo observa a precariedade. É o Rio onde o turista encontra o sonho, enquanto o morador negocia a sobrevivência. Onde o cartão-postal se sustenta sobre histórias invisíveis. Onde a liberdade é celebrada — e, muitas vezes, vigiada. E, ainda assim, o Rio insiste. Insiste em ser vivido, cantado, desejado. Insiste em produzir pertencimento, mesmo fragmentado. Insiste em se reinventar sem jamais se resolver.
Porque o Rio não é apenas cidade — é experiência. Não é apenas geografia — é estado de espírito. Não é apenas paisagem — é memória em disputa. E talvez por isso ele permaneça. Imaginário — e, ao mesmo tempo, brutalmente real.
O Rio solar, que também se esconde atrás de grades e portas fechadas. O Rio do samba e do caos. O Rio de Ipanema e de sua beleza humana. O Rio de histórias intrépidas, de poetas, de sambistas, de sobreviventes. Um Rio que não se rende — que respira, deseja, insiste. Rio das férias sonhadas. Do pôr do sol no Arpoador. Do quindim da Colombo. Do Cristo que, de braços abertos, o observa — enquanto o mar respira e mais um dia se encerra. RIO.



