Mesmo tendo apenas 26 anos, Heslaine Vieira já mostra a que veio com suas personagens atuais, a mázinha Zayla de “Nos Tempos do Imperador”, e a séria Ellen da séria “As Five” (ambas na Globo). Mas quem pensa que Heslaine chegou agora, é bom saber que a bela já passou por personagens mais densos em trabalhos como “Sob pressão” e “Carcereiros”. Mineirinha nascida em Iputinga, aos 15 anos mudou-se para o Rio de Janeiro e foi atrás de trilhar seu caminho e realizar o seu sonho de ser atriz. Conheça um pouco mais dessa querida atriz que tem muito o que mostrar ainda.

Heslaine, o que essa mineirinha de 26 anos tem de especial que conquistou o público e a crítica em tão pouco tempo? Meu sonho (risos). Obrigada pelo elogio! Tive a oportunidade, que é rara para mulheres negras, de participar de grandes produções com personagens significativos, de protagonismo. Sabemos que, de nós é cobrado duas, três vezes mais, ao passo que temos sempre muito menos chances! Para sermos bons em qualquer área da vida, precisamos de prática. E para praticar, precisamos de investimento e oportunidades. Fico feliz de poder estar me desenvolvendo e quero mergulhar muito mais para ser uma artista melhor, e espero que muitas outras pessoas também tenham espaço para mostrar seu talento!

Como se preparou para ser atriz? Como foi o início dessa jornada? Começamos estudando em um projeto do Farroupilha, em nossa cidade, em Minas Gerais. Eu e meu irmão, também ator, Land Vieira. Ali tivemos aula não só de teatro, mas de circo e um pouco de dança. Viemos para o Rio de Janeiro há pouco mais de 15 anos com nossos pais, que abraçaram nossos sonhos. Deixamos tudo para trás, mas trouxemos sonhos na bagagem. A verdade é que não se vive apenas de sonhos, embora não possamos viver sem eles. Conhecemos anjos que nos ajudaram. O Junior, a Andrea Avancini que nos deu bolsas de estudos, e o Marcus Montenegro. Dois anos depois, começamos a fazer um trabalho aqui, outro ali. Assim, fomos ganhando experiência e acabamos nos firmando pouco a pouco. Precisa ter paciência e estar na carreira com um propósito que não seja apenas o glamour. Tem que dar valor ao estudo, ao ofício. Nós somos artistas e não desistimos por acreditar nisso.

Sua Zayla em Nos Tempos do Imperador, tem dado o que falar e dividido opiniões diante de suas atitudes questionáveis. Tem como defender Zayla? Tem como defender o Tonico, o Borges, o Nino? São todos personagens fictícios criados para movimentar os conflitos necessários na história. Mas como intérprete, comecei a tentar observar o mundo (da época) através do olhar dela. Não passo pano para as atitudes que ela tem, seria impossível, mas consigo enxergar essa menina por trás disso tudo. Espero que ela enfrente as consequências de suas escolhas, mas torço para que ela encontre um caminho de amor, autoamor. Ela precisa se encontrar! 

Como foi o convite para viver essa personagem e como você se preparou? Eu fui convidada para um teste pela Marcinha Andrade que é uma querida. Eu estudei bastante o contexto da época. Mergulhei na história, em séries e livros! Tive aula de prosódia com a grande Íris Gomes, estudei com o Luiz Ramos e o Marcio. Foi tudo muito agregador pra mim! Entrei num processo maior de autoconhecimento, trocando experiências com essas pessoas e através das pesquisas que fiz. A Estrela Straus fez um estudo online comigo e depois, a Cristina Bethencourt assumiu presencialmente três dias antes de eu começar as gravações, mas continuou me acompanhando durante o trabalho! Em casa, minha mãe foi todas as outras personagens que contracenam comigo, tadinha. Até a Madame Lambert, falando francês arranhado. Vim do teatro e adoro ensaios, acho muito produtivo. Testo em casa com quem tiver, ou repito muitas vezes de frente pro espelho. 

A Zayla vive na Pequena África, reduto afro-brasileiro no Rio de Janeiro do século 19. Como foi mergulhar nessa ancestralidade da raça negra no Brasil? O que aprendeu e o que está levando para vida? Foi importante fazer esses resgates e tive muita ajuda pra isso. O Luiz Ramos, com certeza, tem uma parte fundamental nesse processo. Eu ligava pra ele e ficava por horas perguntando, lendo, e perguntando de novo. As pesquisas e os mergulhos que fiz me permitiram um encontro muito maior com a minha ancestralidade. Como eu aprendi e sigo aprendendo! O valor da nossa história está em nós, que seguimos levando o legado que nossos antepassados deixaram. Vivos, lutando, resistindo! Nossa cultura, nosso riso, nossas danças são nosso maior tesouro.

A novela traz debates sérios sobre racismo que até hoje, infelizmente, percebemos em nossa volta. Na sua opinião, por que esse tipo de coisa ainda permanece hoje em dia? O Brasil foi fundado no racismo, na opressão. Quem construiu o país nos braços? Os escravizados arrancados de suas terras. Foi tirada a dignidade, a família, a vida. A estrutura da nossa sociedade é racista. É preciso assumir de vez isso. Impossível curar uma doença, fingindo que ela não existe! Não precisa de mais nada. Olhe para o lado e veja se não existem pessoas em condições análogas à escravidão ainda hoje, do nosso lado. Ninguém quer abrir mão dos privilégios, ninguém quer se incomodar de fato. Porque, enxergando, a necessidade de agir se torna obrigatória. Se não temos uma base realmente inclusiva, não temos mudanças significativas e avanços necessários. Celebremos as melhorias e lutemos pela reparação. O tempo é agora!

Sua carreira começou com trabalhos mais leves como Malhação e Mister Brau e, depois, mergulhou em trabalhos mais densos como Carcereiros e Sob Pressão. Pegando o gancho, sentiu que a pressão foi mais pesada? Como foi participar desses trabalhos mais dramáticos? Comecei com muita leveza e isso me deu sustentação para mergulhar em trabalhos mais densos que amo fazer e inclusive, gostaria de fazer mais. Eu gosto de testar meus limites. É muito interessante para o artista, se desafiar.

Em “As Five” você reviveu sua personagem Ellen de “Malhação”, de 2017. Foi como reencontrar uma antiga amiga? Fico muito feliz de reencontrar as meninas. Temos muita intimidade cênica e parceria! 

E como é sua relação de amizade na vida real? O que realmente importa e como manter os laços? Sou uma pessoa com bons amigos, graças a Deus. Eu gosto de relações reais e profundas… Para mim, é muito importante manter o contato no mundo real, já que tudo hoje tudo é muito passageiro e descartável. As raízes nos mantêm vivos e pulsando! Às vezes passo longos períodos sem falar com as pessoas que amo pelo trabalho, pela distância…mas Amizade não tem a ver com distância, ou se falar todos os dias. Tem a ver com torcer e vibrar pelo outro nas conquistas. É mais fácil alguém querer chorar maus momentos ao seu lado, do que celebrar seus bons momentos! Assim fui separando na vida o joio do trigo! 

Muito nova, você saiu de sua cidade natal (Ipatinga/MG) e foi morar no Rio de Janeiro. Foi fácil se adaptar? Se sente um pouco (ou totalmente) carioca? Me sinto um pouquinho de cada lugar, e se pudesse seria demais lugares ainda. Já morei no Espírito Santo, Rio, São Paulo e nasci em Minas Gerais. É interessante descobrir um pouco da cultura de cada lugar! Foi difícil me adaptar, no começo. Toda mudança é difícil, não é?! Para qualquer um.  Ipatinga não é uma metrópole, obviamente. Fui confrontada com questões muito maiores que podia imaginar. Tinha perto dos 10 anos de idade! A escola muitas vezes pode ser um ambiente hostil, e não deveria. Meus pais foram fundamentais para dar suporte a mim e ao meu irmão. Sofremos muito pelo sotaque diferente, mas nessa mesma época, fizemos grandes amigos que temos até hoje. 

E na hora de relaxar, agora mesmo, desse período de gravação de novela, o que procura? Descansar, me reorganizar, energizar e depois mergulhar na preparação para os próximos trabalhos.

Qual seu pecado maior? A que não resiste? Sincericídio.

Quem tem chance de te conquistar é porque… Cuida

Um final de semana perfeito inclui… Viagem, conexão com a natureza, família, dança e leveza!

Algum plano de trabalho ou pessoal para os próximos meses? O foco principal é As Five. Os outros projetos, por hora, estão sendo analisados! Mas quero voltar a fazer cinema e teatro assim que possível. Sempre priorizando as demandas da casa! Agora estou me cuidando, me reencontrando com a natureza, a família e estudos. Estudar e reciclar é sempre meu maior combustível! Estou com vontade de estudar canto, moda e idiomas. Vamos tentar encaixar tudo isso.

Fotos Márcio Farias

Styling Patrícia Bastos

Beleza Walter Lobato