Cá está Juliana Knust de volta à nossa capa. E como pode ainda mais bela?! Essa aliás, foi uma das questões aqui durante esta entrevista. Pois sempre que vemos Juliana ela está a mesma. Quer dizer, depois de dois filhos e perto dos 40, ela está ainda melhor. Mas segundo a própria nos falou nem sempre foi assim. Se aceitar como é foi parte do processo e fez toda a diferença. Atualmente no ar com a reprise de “Fina Estampa”, Globo, interpretando a ambiciosa Zuleika, Ju é um colírio para nossos olhos. Mas quem vê só o glamour da atriz de sucesso na TV não imagina o sufoco da vida real, em especial durante a quarentena. Depois do que ela nos contou aqui e olhando essas belas foto é que ficamos ainda mais fã. E que venha muito mais Ju Knust por aí.

Como está sendo essa reta final (de novo) de “Fina Estampa” para você? Tem acompanhado? É mais crítica hoje em dia? Eu não consigo acompanhar todos os dias porque, justamente nesse horário, estou na rotina de colocar as crianças no quarto pra dormir. Mas às vezes consigo assistir e, quando isso acontece, fico feliz. Lembro com muito carinho dessa novela. Estava num momento de transição na minha vida. Tinha acabado de ser mãe. Estava entendendo ainda como funcionaria essa rotina de trabalho e maternidade. Foi o meu primeiro trabalho depois que tive o Matheus. Então foi um processo! Na época me cobrava muito. Hoje, um pouquinho mais madura, tenho um olhar carinhoso praquela Juliana de 2011. Aceito o meu trabalho. Sei que fiz o melhor que pude naquele momento. E o que está feito, feito está. Não posso mudar. Talvez hoje, ao interpretar Zuleika, fizesse tudo diferente. Acho que teria um leque de possibilidades por que o entendimento do personagem seria mais profundo. Mas isso se chama maturidade. A maturidade nos traz mais ferramentas. São quase 10 anos que nos separam. 

Falando em novela, suas últimas foram “Apocalipse” e “Jezabel”, duas tramas bíblicas. Como é participar de trabalhos que trazem essa carga religiosa à trama? É um desafio maior de que forma? “Apocalipse”, apesar de ser uma novela bíblica, também era contemporânea. Estávamos abordando um assunto que ainda não aconteceu. Baseado em histórias bíblicas. A Zoe era uma jornalista, super moderna. Foi uma delícia fazer essa personagem. E Pra mim, como atriz, foi um processo muito construtivo também. Passei por vivências que, até então, em quase 22 anos de carreira, eu ainda não tinha passado. 

A zoe passou por diversas situações inusitadas… muitas provações. Foi sequestrada, teve que dirigir um carro durante uma perseguição, levou um tiro, sofreu um acidente aéreo, foi resgatada por beduínos, viveu por 3 anos no meio do deserto tentando se adaptar às novas circunstâncias. Teve um filho naquela situação…e ao longo de toda a novela ela foi se transformando, se fortalecendo. No amor e na fé. Foi linda a história dela. Acho que a coisa mais linda de se contemplar no ser humano é isso. O poder interior dele. A capacidade de se transformar, de amadurecer diante das dificuldades. Se fortalecer. O encontro da fé! Eu acho que a descoberta de uma crença em algo maior te dá um rumo na vida. Te traz um significado. Eu aprendi muito com essa personagem. 

Em Jezabel, existiu uma construção mais complexa por conta da época em que a trama se passava… nesse caso a gente precisa realmente fazer um mergulho no tempo. Estudar os hábitos, os costumes. Entender como a sociedade funcionava. Como eram as relações. 

Em “Apocalipse” você encarou o Satanás de frente. Em que você crê? Deus e o Diabo, o bem e o mal…Como você enxerga tudo isso? Sou batizada na Igreja Católica. Meus filhos também. Mas não sou praticante. Respeito todas as religiões e acho que o fator principal, todas elas têm em comum. Amar ao próximo como a si mesmo! Já tive contato com diversas religiões e filosofias de vida. Trago sempre um aprendizado de cada uma delas. Tenho a minha conexão com Deus. Essa energia Maior. Ensino aos meus filhos a conversarem com “papai do céu” todas as noites antes de dormir. Quero que eles sejam pessoas de fé! Que sejam gratos pela vida. E que tenham sempre esperança em dias melhores pro mundo! 

Qual pecado “favorito”? Por que? Pecado? (risos) Pecado é passar pela vida e não viver, não amar, não sofrer, não sorrir, não sonhar…Acho que erramos sempre tentando acertar! E isso não é pecado! Faz parte do amadurecimento. Vivo intensamente todas as minhas fases. Sou, literalmente, uma mulher de fases. 

Na estreia em “Malhação”, aos 16 anos, você já sabia que era essa carreira que queria seguir? Sua família sempre apoiou você na carreira? Entrei no meu primeiro curso de teatro aos 12 anos e nunca mais deixei de estudar. Realmente me descobri ali. E eu não fazia a menor ideia de que isso aconteceria. Entrei por curiosidade. Eu era muito tímida e tinha muitos medos. O teatro me acolheu. Me libertou. Me fez descobrir o autoconhecimento. Me tornou mais corajosa. Acho que foi um renascimento sabe? Despertei minha alma! E tive a sorte de ter pais maravilhosos, que sempre me apoiaram. Em todas as minhas escolhas. 

Qual foi a coisa mais constrangedora que você já teve que fazer como atriz? Tem um trabalho, especificamente, que me decepcionou muito. Acreditei demais no projeto, me entreguei completamente. Confiei muito na direção. De que seria cuidada, não seria exposta de forma desnecessária. E isso não aconteceu. A edição ficou nas mãos da emissora. A direção entregou pra eles todos os takes, o material bruto. Sem cortes. Sem o cuidado que havíamos combinado. Me senti completamente exposta. Não fiquei feliz com o resultado. Foi um momento bem difícil. Mexeu muito com meu emocional. E não recebi nenhuma ligação com um pedido de desculpas. Não houve consideração comigo e nem respeito com o meu trabalho. É uma pena. Mas trago isso como aprendizado também. Essas pedras no caminho nos deixam mais fortes. 

E o que você só teria coragem de fazer como atriz, “acobertada” por uma personagem? Maldades de uma vilã maravilhosa! Fazer vilã é muito libertador. Porque vale tudo!  Você pode enlouquecer em cena e tudo bem. É um exercício bem interessante. A vilã te desafia o tempo inteiro. Nada é óbvio. 

Agora em maio você completou 39 anos, em plena pandemia. A aproximação dos 40 te assusta de alguma forma? Como lida com isso? De forma alguma. Eu brinco que tô ficando velha, com cabelos brancos e tal… Mas, sinceramente, eu não me trocaria pela menina de 20 anos que fui! A maturidade é tão maravilhosa! Sou muito mais feliz hoje. Gosto mais de mim. Me respeito mais. O amadurecimento nos traz confiança. Nos ensina a tolerar as frustrações. Aprender com elas sem sofrer tanto. 

Dois filhos e o mesmo corpo de sempre. Você tem facilidade em manter o peso ou vive no conflito da balança? Isso é uma eterna questão na terapia. (risos) Comecei a trabalhar com a minha imagem muito jovem. No meu primeiro trabalho grande, precisei engordar 10kg pra interpretar a personagem. E eu tinha 15 anos! De lá pra cá… muitas neuras, muitas fases… dietas malucas, remédios pra emagrecer. A cada trabalho, um desafio de ficar com alguns quilos a menos. Eram exigências disfarçadas de cuidado. E, pro bom entendedor…

Levei um tempo até encontrar o meu equilíbrio. Aprender a aceitar o meu corpo como ele era. Aprender a gostar de mim. E entender que eu realmente precisava cuidar dele, mas não porque os outros pediam. Porque EU queria. Porque EU me sentia bem quando eu me cuidava. No momento em que entendi isso, todo o processo ficou mais natural e leve. Fiz reeducação alimentar. Aprendi a me alimentar bem. Cometo excessos às vezes, claro! Sou humana! Mas tenho a cabeça mais tranquila pra lidar com isso. E corro atrás pra não sair de controle. 

A quarentena me trouxe uns kg à mais, por exemplo. Muita coisa acontecendo. A ansiedade tomando conta de mim. Vivi várias fases emocionais nessa quarentena. E tenho me respeitado. Sei que daqui a pouco volto pra minha rotina de cuidados e exercícios. E ok. 

Você declarou na época da Playboy que ter posado fez aflorar seu lado mais sensual, que até então as pessoas não enxergavam isso em você. Esse lado permaneceu desde então? Como você enxerga isso em você hoje em dia? Eu falei isso??? (risos) Acho que foi um equívoco. 2007 foi o ano em que tive depressão. Estava desequilibrada emocionalmente. Fragilizada. E resolvi, aos 45 segundos do segundo tempo, posar pra essa capa. Acho que ali foi um resgate de auto estima, um momento de fazer as pazes comigo, me aceitar, me sentir mais no controle da minha vida mesmo. 

Esse é nosso segundo ensaio de capa e você está mais linda e sensual. Como assim? Imaginamos que daqui há 10 anos você estará ainda melhor! (risos) Você se vê assim? Acho que, de fato, a gente só melhora com o tempo. E aí volto a falar da maturidade e da autoconfiança. Da importância de se sentir bem consigo mesma. De se conhecer e se amar! Acho que aquilo que sentimos, reflete diretamente na beleza. Estar bem e em paz te traz brilho no olhar, leveza. Consequentemente o outro enxerga essa beleza. Que vem de dentro mesmo. 

Em que o tempo te deixou melhor? O que ele realçou mais em você? O tempo me ajudou a encontrar um equilíbrio na minha vida. Corpo, mente e espírito. O tempo realçou meus cabelos brancos e minhas rugas, mas também realçou a minha força. Minha capacidade de aceitação. Amadurecer potencializa nosso crescimento. Seja ele pessoal, emocional, espiritual ou profissional. 

Onde recarregar as energias? O que te traz bem estar? Recarrego minhas energias num mergulho na cachoeira, no mar, pegando um sol, fazendo yoga ou uma viagem bacana. Quando consigo me desconectar um pouco das cobranças que a rotina nos traz, dos compromissos diários. Quando consigo relaxar e ficar em paz com os meninos. Aproveitando a simplicidade de cada momento juntos. Isso é bem estar. 

E como mãe e esposa, como foi passar por esse isolamento social? No primeiro momento, eu tive um impacto muito grande. Acho que, muito pelo contexto, por ser uma situação histórica e totalmente nova pra sociedade de hoje. Por ter que me afastar das pessoas que amo. Fiquei exatamente três meses sem ver meus pais, por exemplo. Por medo, insegurança, cuidado! É uma situação que faz a gente pensar, refletir. Rola uma revisão de tudo que faz parte da nossa rotina, das relações. Das prioridades. Lá em casa ficamos sozinhos fazendo tudo! Dividimos as tarefas… lavar, cozinhar, faxinar… estudar com os meninos. No início foi enlouquecedor. Mas o ser humano tem uma capacidade enorme de adaptação. Aos poucos as coisas foram se equilibrando. 

Passei por muitas fases nessa quarentena. Fiquei mais irritada em alguns momentos, mais ansiosa em outros. Tive a fase de ficar extremamente emotiva e chorar por tudo. Tive a fase zen… onde procurei yoga e meditação pra alinhar minha energia. Tive a fase pedagoga onde estudava TODOS os dias com meus filhos (e depois me dei conta de que isso também estava me enlouquecendo, então afrouxei). Enfim… me senti sobrecarregada. Achei que não fosse dar conta de todas as obrigações. Tive insônia. Mas acho que são respostas normais a uma situação excepcional como essa. Cérebro e corpo tentando se adaptar à nova realidade.

Como usou o tempo durante essa quarentena? Queria muito falar pra você que aproveitei o tempo de quarentena pra descansar, ler muitos livros, ver muitos filmes… (risos)… mas a realidade é que fiquei entre faxinas, louças, roupas, homeschooling… e algumas viagens, no meio do caminho, pra reenergizar.

Quando vamos vê-la atuando novamente? Algum plano para este ano? Estar num palco ou num set de filmagem exercendo o meu ofício foi a forma que eu escolhi para me expressar nessa vida. Vai além da palavra “trabalho”. É existencial! É como um alimento pra minha alma. Então obviamente que sinto muita falta. Quero muito voltar logo! Mas diante do que estamos vivendo, é difícil saber quando isso vai acontecer. Tinha o projeto de retomar o espetáculo que estava fazendo mas, infelizmente, não temos previsões pra abertura de teatros. O setor cultural é um dos que mais sofrem com essa pandemia. Estamos todos ávidos por esse retorno! Nos resta ter fé e esperança! Que essa vacina chegue logo!!!

Fotos Guto Costa

Styling Samantha Szczerb e Hugo Machado

Beleza Yago Maia

Agradecimentos: Poema Hit, Érica Rosa Atelier, 613, Duloren, By Segheto, Mettaly, Schutz e Animale