Que segredos guarda Leticia Spiller para passar pelo tempo sem sofrer as questões de idade e sim absorver mais sabedoria? Esse segredo, ou melhor, mistério de se manter naturalmente bela. Respeitando seu corpo, sua natureza e claro, seu tempo. Nessa segunda matéria de capa com a atriz, mostra uma Leticia mais serena, centrada no que realmente importa e com o mesmo encanto de sempre. Encanto que nos remete a eterna Babalu, seu segundo papel na TV e seu primeiro grande destaque para o grande público. Mãe apaixonada pelos dois filhos, esposa igualmente apaixonada e uma ex-mulher altamente parceira e amável. Vivendo um momento em maior contato com a natureza, pés no chão e alma em conexão com a terra, Leticia posou para essas fotos em casa, sem grandes produções, retratando esse momento de plena simplicidade. Centrada na música, nos livros e em novos projetos. Isso é Leticia! Diga aí, tem como resistir a tanto encanto?

Leticia, imaginamos que, para um ator, viver esse momento de pandemia trancado e sem poder dar andamento na maioria dos projetos deve ser bem difícil. Como tem encarado isso? É um momento muito delicado mesmo. Eu não posso reclamar porque eu estou numa situação de privilégio – eu posso ficar em casa. E o que tenho feito? Passei boa parte do ano passado e desse ano no meu sítio, bem isolada, na região serrana do Rio. Só saio quando é necessário, quando tem algo ligado a trabalho, mas a situação de muitos artistas e equipe técnica, enfim, é delicadíssima. Uma peça, um show, um filme… Não é só a pessoa que está ali na frente ou nos holofotes, existe todo um time para realizar. Contrarregras, cenógrafo, maquiador, diretor, iluminador… E são muitos profissionais sem trabalho. A cultura passa por uma fase delicada demais. 

Você mesma está com dois espetáculos na pendência da pandemia. Como é isso, estar louca para colocar a mão na massa e precisar controlar a ansiedade? Sim, dois projetos encaminhados. Um deles eu já estava começando a ensaiar, passamos a ensaiar remotamente, mas estamos segurando para ver como será. Temos nos reinventado nesse momento de pandemia, criando alternativas… Mas ainda estamos definindo. Um dos projetos –  nós criamos umas pílulas que divulgamos nas redes. E foi bem legal e interessante.

Soubemos que um desses espetáculos é uma adaptação do filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança, que por sinal é incrível! Como está sendo feita essa adaptação? Pode nos adiantar algo? Nós estávamos ensaiando virtualmente. É uma obra bem especial, um texto muito interessante. E a direção é uma adaptação do Jorge Farjalla, que é um diretor que é meu amigo e que eu adoro trabalhar com ele. Mas ainda não tenho muitos detalhes, porque, com a pandemia, ainda estamos nesse processo. 

E ouvimos falar de Hamlet Máquina, é isso? Pelo jeito vem muita coisa boa. Quais desafios esses projetos irão te trazer? Hamlet Máquina é uma obra do Heiner Muller que traz o mito do Hamlet para o contexto político e social. Ele aborda o cidadão decepcionado com o sistema. Eu vou viver as três personagens, Hamlet, Ofélia e Electra – que é a Ofélia mais velha, depois de ter sido torturada. Esse espetáculo é multimídia, ultra-moderno! A gente quer o Pedro Novaes  e o Pablo Vares (meu marido) tocando, ou seja, um baterista e um guitarrista. Aliás, o Pablo assina a trilha sonora. Está muito legal, a gente tem uma noção durante os ensaios.  

Falando em pandemia, como você tem passado por esse período. Muitos aprendizados? Acho que foi um período em que potencializamos ainda mais a nossa solidariedade. A pandemia fez com que a gente olhasse mais para o outro, porque eram e são muitas pessoas em situação de vulnerabilidade. E agora, nesse momento, as doações caíram muito, precisamos manter essa empatia e preocupação. Eu sou da Apoiadora de Alto Perfil da ACNUR, a agência da ONU para refugiados, e a situação deles se agravou profundamente com a pandemia. Sou madrinha da rede Postinho de Saúde – que também estão recebendo bem menos doações nesse momento tão difícil. Eu busco me envolver com causas que eu sei que a minha imagem pública pode dar visibilidade e ajudar mesmo. Tem outras ações das quais eu faço parte e faço questão de divulgar. Acho que, nesse momento, é preciso olhar mais para o lado. Nossas ações como indivíduos impactam no coletivo. 

Você parece estar num momento bem ligado à terra, natureza e clima zen. É isso? Não é um momento, é o meu jeito de ser mesmo. Eu preciso estar conectada com a natureza. É o lugar em que me equilibra, me dá energia para viver. É o lugar em que eu me sinto melhor. Amo ficar no meu sítio com a minha família. 

Esse ensaio de capa traz uma Leticia naturalmente bela, sem muitos artifícios e serena. Isso traduz seu momento? Que importância isso tem para você? Obrigada pelo elogio! Esse é um ensaio muito natural, do jeito que eu sou, feito na minha casa, usando peças minhas… Eu divido muito do meu dia a dia nas minhas redes sociais, do jeito que eu sou. E eu quero ser de verdade. É claro que gosto de me sentir bonita, gosto de brincar com ensaios… Mas essas fotos são eu na minha intimidade. Na minha casa. 

Você sempre foi referência de beleza, mil capas de revista falando de como você está mais bela com o passar do tempo (coisa que nós concordamos também)… Isso termina criando uma certa obrigação em ser bonita? Em se manter bem? Como isso te toca? Eu não sinto essa obrigação. É gostoso receber elogios e é claro que eu me cuido, mas não é por pressão ou para cumprir as expectativas de alguém. Eu gosto de estar bem comigo, digo internamente e externamente porque um, é reflexo do outro. Tudo o que eu faço é pensando nessa combinação. 

Onde está a real beleza? E como você vê a beleza em você? Acho que a beleza está em nossos gestos, em nossas atitudes. É isso que faz a diferença nas pessoas, em minha opinião. Vejo beleza quando olho os meus filhos, que são a minha continuação. Tenho um orgulho imenso dos dois, de quem o Pedro se tornou. De quem a Stella está se tornando. Eles são um legado, pessoas que eu criei e acredito que farão a diferença. Isso é belo para mim. 

Você está com 47 anos, e sem chover no molhado, ainda mais bela. A passagem do tempo fez você descobrir belezas onde a juventude não te deixava enxergar? Com certeza! A passagem do tempo te traz sabedoria. E isso é maravilhoso, porque você consegue separar o joio do trigo, sabe? Não é mais qualquer coisa que te abala. A gente escolhe nossas lutas. Quando você é jovem, existe uma ansiedade de querer conquistar as coisas, de conquistar o seu espaço… Tenho uma tranquilidade hoje, que eu conquistei com o passar do tempo e com muito trabalho. Aprecio as coisas simples, os momentos com a minha família, com a natureza… Vejo beleza nesses lugares. 

Deixando a beleza de lado, onde e como exercita a mente e a alma? De que você se “alimenta” neste sentido? Em dois lugares: na arte e na natureza. São os dois lugares que me alimentam a mente e a alma. É onde eu me conecto comigo, com a minha energia… Eu faço ioga, meus ritos tibetanos também, que são coisas que me alimentam e me equilibram. Mas o contato com a natureza e com a arte são os dois pontos principais. 

Num momento de pandemia como esse é que muita gente percebeu o real valor de ter saúde (física e mental) e qualidade de vida. Mudou algo para você neste sentido? Há muito tempo eu já priorizo a saúde física e mental. A pandemia nos exigiu ter ainda mais cuidado e atenção. Não somente comigo, como a das pessoas próximas da minha vida, como a minha família. Nesse momento, nós nos tornamos ainda mais o alicerce um dos outros. E foi fundamental tê-los junto. 

Depois de quase 30 anos de Globo você parte para um “novo formato” de trabalho. Isso de certa forma te dar mais liberdade e te faz refletir também sobre a carreira em que pontos? Eu tenho uma relação muito sólida com a Globo. Temos uma história profissional muito feliz, de muitos sucessos. Minha carreira é ligada à emissora. E eles foram muito carinhosos e respeitosos comigo, reforçando nossa parceria. Apenas mudamos o modelo de trabalho. E, com isso, fico mais aberta para ter novos parceiros profissionais, o que não afeta em nada o meu relacionamento com a Globo. Tenho certeza de que terei muitas novidades para dividir com o público. 

Citar carreira sem lembrar da época de Paquita e Babalú parece ser algo eterno mesmo depois de tantas personagens marcantes. O que esses momentos te trazem de lembranças em sua carreira? Ah, são momentos importantes da minha história e que eu guardo com muito carinho. Todas as meninas da minha época sonhavam em ser paquita, né?! (risos). E ali eu aprendi muito sobre profissionalismo, sobre funcionamento da TV e tive momentos incríveis. E a Babalu foi a minha primeira personagem de projeção. Já tinha feito uma novela antes, mas com um papel menor. A Babalu foi uma força e conquistou o público. É um trabalho que eu tenho um carinho enorme e mudou a minha vida mesmo, porque as pessoas passarem a me conhecer como atriz.

Como bem sabemos, nossa trajetória é feita por ciclos. Como você enxerga isso na sua vida profissional e pessoal? Quais os mais marcantes? Acho que isso tem a ver com renovação. Vamos vivendo cada ciclo da melhor forma possível, com positividade e partindo com a mesma energia e entrega para os outros. Em relação aos ciclos marcantes, eu destaco o meu trabalho no teatro, que veio antes de tudo, antes mesmo da tv. E ele continua… Essa vontade de ser atriz está comigo desde sempre! Claro, a minha passagem como Paquita. Depois meu trabalho como atriz na TV. E aí, dentro da carreira, foram vários ciclos e coisas lindas que vivi. Na vida pessoal, o nascimento dos meus filhos. 

Como mãe você parece ser bem coruja. Como é ser mãe de um homem de 24 anos e uma garotinha de 10 anos? Como é a relação de vocês? Eu sou muito apaixonada por meus filhos. Sou mega realizada com eles. E vivo fases bem distintas. 

Por sinal, quando entrevistamos Pedro deu pra perceber como a relação dele com Marcelo e você é muito tranquila, o quanto ele transmite ser um homem de bem. Isso foi muito fruto da criação de vocês ou ele já nasceu com esse jeito bom? Eu amo o Marcello. Ele é um grande amigo, um grande parceiro. Nós nos separamos como marido e mulher, mas a amizade, o respeito e o carinho sempre permaneceram. Nós sempre priorizamos o bem-estar do Pedro, mas nunca foi só pensando nisso. Nós, de fato, nos amamos e somos amigos. Queremos e torcemos um pelo outro. E, com certeza, essa boa relação refletiu na vida de nosso filho. 

Leticia, em que momento está você com você? O que você quer se dar, sentir e aprender? Que pergunta difícil. Eu estou em um momento que estou sentindo frio na barriga, sabe? Que é quando você sabe que coisas novas estão surgindo. E eu estou mega entregue para esse momento, para as oportunidades que surgirem. Eu sou uma artista inquieta, gosto de produzir, de inventar e estar em movimento. Eu estou aberta para o novo para me dar, sentir e aprender com o que vem por aí. 

Para encerrar, o que a música tem feito e faz por você? Eu sou muito musical. Sou casada com um músico, o Pablo (Vares), então respiramos música lá em casa. Sempre tem um som surgindo de algum ambiente. E tenho cantado cada vez mais, que é uma outra coisa que eu estou amando fazer. Lancei um EP natalino no ano passado com o meu amigo Dienis. Lancei uma música com o Pablo. A música me faz muito bem. É mais um lugar que eu encontrei onde posso me expressar artisticamente. 

Inspiração, vem de onde no meio disso tudo? Vem de tudo. Vem das coisas que eu vejo no dia a dia, vem dos meus sonhos. Gravamos, por exemplo, um curta-metragem na pandemia, lá no meu sítio. Eu, Pablo, Stellinha e o Farjalla. Fizemos tudo. E ele foi baseado em um sonho que eu tive. Tudo é inspiração.

Fotos Vinicius Mochizuki / Beleza Ricardo Tavares