
Há mais de três décadas no mundo dos negócios, Flávio Augusto da Silva construiu uma trajetória marcada pela ambição de transformar ideias em projetos de grande escala. Fundador da Wise Up e do Geração de Valor, empresário, escritor e uma das principais vozes do empreendedorismo brasileiro, ele mantém uma convicção que ajuda a explicar sua trajetória: não parar. Para Flávio, depois de determinado ponto, o dinheiro deixa de ser a principal medida de sucesso e abre espaço para outras formas de realização, como impacto, legado e a possibilidade de continuar sendo útil à sociedade.
Em conversa com a MENSCH, o empresário fala sobre os desafios de empreender em tempos de crise, a importância das vendas para reduzir a dependência de bancos e investidores e o papel da ambição como força capaz de transformar sonhos em decisões concretas. Também analisa como a inteligência artificial está mudando a educação e defende que, em um mundo no qual a informação se torna cada vez mais acessível, o verdadeiro diferencial estará na capacidade de aplicá-la, gerar resultados e criar experiências humanas relevantes.
Olhando para 2027, Flávio pretende ampliar esse impacto por meio da tecnologia, expandindo conteúdos, cursos e eventos gratuitos voltados à educação empresarial. Com a meta de alcançar milhões de pessoas, seu próximo movimento reforça um propósito que atravessa toda a entrevista: democratizar o conhecimento, preparar empresários para um cenário em constante transformação e, principalmente, encorajar uma nova geração de brasileiros a empreender, assumir riscos e sonhar mais alto.
Por Patrícia Alves

Você construiu uma trajetória marcada por decisões ousadas e pela capacidade de transformar ideias em negócios de grande escala. Qual foi a decisão mais determinante para chegar ao patamar em que está hoje? A decisão de não parar. Mas pense: parar para quê? É comum ouvir alguém dizer: “No dia em que eu conquistar X, eu paro.” Respeito essa escolha, mas nunca pensei assim. Obviamente, já faz tempo que ganhar 100 milhões a mais ou a menos não muda nada na minha vida. Mas quem disse que continuo por dinheiro? O dinheiro é apenas uma medida matemática de performance. Está longe de ser a única forma de remuneração. O significado do que construo, o legado que posso deixar e, principalmente, a sensação de ainda ser útil à sociedade também me remuneram. É isso que me faz querer continuar, criar novos projetos e acordar todos os dias com vontade de fazer mais.
À frente da Wiser Educação, você acompanha de perto as transformações no ensino e no mercado de trabalho. Como enxerga o futuro da educação diante do avanço da inteligência artificial e das novas demandas profissionais? Vivemos num mundo em que a informação está se tornando uma commodity. Portanto, o simples “comércio” da informação perderá cada vez mais valor. O diferencial estará no que você é capaz de fazer com essa informação: como aplicá-la, transformá-la em resultado e produzir algo a partir dela. Esse será, cada vez mais, o verdadeiro valor de qualquer programa educacional. E existe um segundo componente fundamental: a experiência associada ao aprendizado. A inteligência artificial pode entregar informação em escala extraordinária, mas não substitui a experiência humana. Por isso, acredito que a educação do futuro será cada vez menos sobre transmitir informação e cada vez mais sobre aplicação, transformação e experiência.

O Geração de Valor tornou-se uma plataforma de grande alcance para falar sobre empreendedorismo e desenvolvimento pessoal. Depois de tantos anos compartilhando conhecimento, quais princípios continuam indispensáveis para quem deseja empreender? Nesses 16 anos de Geração de Valor, produzindo conteúdo gratuito nas redes, mantive uma convicção intacta: o indivíduo é o principal agente de transformação da própria vida e, consequentemente, da sociedade. Acredito que as grandes mudanças acontecem de dentro para fora. É o indivíduo que, movido por seus sonhos, desejos e ambições, toma decisões que antes não tomava, desenvolve novas atitudes e cria iniciativas que antes não existiam. Por isso, sempre falei muito sobre ambição, no bom sentido da palavra. Ambição é desejar construir algo que ainda não existe. Tudo começa em algo aparentemente subjetivo: um sonho, um desejo, uma inconformidade. Mas, quando isso se transforma em decisão e ação, produz consequências absolutamente concretas.
A Mentoring League Society movimentou cerca de R$ 1,4 bilhão em apenas dois anos. O que esse resultado revela sobre a importância das conexões, da troca de experiências e de um networking qualificado no ambiente empresarial? Trabalho com educação há 35 anos e empreendo há 31. Para mim, esse resultado confirma exatamente o que acredito sobre a educação na era da inteligência artificial. Não basta mais promover tráfego de informação. É preciso discutir sua aplicabilidade e, sobretudo, criar experiências que façam esse conhecimento ganhar vida, gerar conexões e produzir novas sinapses. Em tempos de uma IA praticamente onisciente em termos de acesso à informação, a experiência humana ganhará ainda mais valor. Um exemplo aconteceu no último domingo, 16 de agosto: reunimos 35 mil empresários em um estádio para assistir a aulas sobre negócios intercaladas com música e entretenimento. Transformamos um estádio em uma gigantesca sala de aula. Há alguns anos, seria difícil imaginar educação empresarial com essas características. Para mim, esse é um sinal claro de para onde estamos caminhando.

Depois de construir empresas, investir, escrever best-sellers e formar uma comunidade de líderes e empreendedores, o que ainda desperta sua ambição? Qual legado Flávio Augusto deseja deixar para a próxima geração de empresários brasileiros? Empreender não é fácil em nenhum lugar do mundo. Não é fácil no Brasil nem na Noruega, em Angola nem na Suíça. Empreender é, por definição, assumir riscos, enfrentar incertezas e construir alguma coisa onde antes não havia nada. E quem aceita esse desafio? Homens e mulheres inconformados, que desejam mais para suas vidas e estão dispostos a pagar o preço por isso. Quero ser um agente encorajador desses empreendedores. Quero despertá-los para a educação empresarial a fim de aprimorarem as suas técnicas, ajudá-los a desenvolver novas competências e, principalmente, desafiá-los a sonhar mais alto, com mais ousadia e ambição. O mundo precisa de mais empreendedores. São eles que criam empresas, geram empregos, movimentam a economia e produzem riqueza. Quando o empreendedor prospera de forma sustentável, toda a sociedade pode prosperar junto.
Você possui cerca de 13 milhões de seguidores em suas redes. Como é, para você, influenciar o sonho de tantos empreendedores? É uma honra e, ao mesmo tempo, uma enorme responsabilidade. Foi justamente por entender a dimensão desse impacto que abracei essa missão. Isso me motiva a continuar construindo projetos, produzindo conteúdos e viajando pelo Brasil em busca de novas pedras preciosas: empresários, empreendedores e talentos que muitas vezes só precisam de conhecimento, ambiente e estímulo para descobrir até onde podem chegar.


Qual a grande dica para um empreendedor em tempos de crise, principalmente no Brasil? É nas crises que o dinheiro muda de mãos, as cartas são redistribuídas e novas posições de liderança são construídas. O pequeno, muitas vezes, tem uma vantagem importante: mobilidade. Enquanto uma grande empresa atravessa a tempestade tentando proteger estruturas enormes e resolver dezenas de problemas simultaneamente, o pequeno consegue mudar de direção com muito mais velocidade. Em um cenário de tantas empresas enfrentando dificuldades, nunca fez tanto sentido uma frase que repito há anos: estabilidade não existe. Não gosto de crises; ninguém deveria gostar. Mas elas fazem parte dos ciclos econômicos. E, quando chegam, inevitavelmente destroem algumas posições e criam outras. Portanto, crise também é tempo de oportunidade para quem consegue enxergar, decidir e agir mais rápido.
Você disse em uma entrevista que, apesar da alta dos juros no Brasil, empreender ainda compensa. Mesmo com as incertezas do cenário nacional e mundial, você continua estimulando o empreendedorismo? Fale mais sobre isso. Navegar com o vento a favor é muito mais agradável. Mas, quando o vento muda, o bom navegador não abandona o barco: ajusta as velas. Em uma tempestade, é preciso adaptar a estratégia para continuar avançando. Juros altos são um enorme problema para quem está endividado ou depende de financiamento para crescer. Por isso, gosto de dizer que existem três grandes fontes de dinheiro para financiar uma empresa: o dinheiro do banco, o dinheiro do investidor e o dinheiro do cliente. Para usar o dinheiro do banco, você paga juros e, neste momento, muito caros. Para usar o dinheiro do investidor, você “paga” com equity, que também fica mais caro quando os juros elevam a taxa de desconto e pressionam os valuations. Já o dinheiro do cliente exige outra moeda: competência comercial. É preciso dominar vendas, construir novos funis de aquisição, melhorar conversão e aprender a vender mais e melhor. Entre os três, o dinheiro do cliente é o mais barato: não cobra juros e não leva participação na sua empresa. Quem domina vendas depende menos do banco e do investidor, e navega muito melhor durante a tempestade. É isso que faço há 31 anos.

Cite uma característica que, para você, é comum a todos os empreendedores. O empreendedor é, por natureza, uma pessoa de fé. Enquanto a maioria quer ver para crer, o empreendedor precisa crer para ver. Ele coloca seu próprio dinheiro, seu tempo e sua reputação em risco sem qualquer garantia de que dará certo. Muitas vezes, aquilo que pretende construir ainda existe apenas em seus planos e na sua cabeça. É preciso acreditar antes que os outros consigam enxergar. Mas fé não significa agir no escuro. Quanto mais preparado estiver esse empreendedor, melhores serão suas premissas e maiores as chances de transformar aquilo em que acredita em realidade. Equipar esse empreendedor para errar menos e acertar mais é uma das coisas que mais me movem.
Qual novidade, já pensando em 2027, você pode antecipar aos leitores da MENSCH? Comecei esse movimento em 2026 e vou acelerá-lo muito em 2027: ampliar significativamente a produção de conteúdos, cursos e eventos gratuitos por meio do aplicativo Estabilidade Não Existe, disponível para Android e iOS. Nossa meta é alcançar 2 milhões de usuários na plataforma, com acesso gratuito a conteúdos voltados ao empreendedorismo e à educação empresarial. A tecnologia será cada vez mais nossa grande aliada para ganhar escala. Se antes precisávamos estar fisicamente em uma cidade para alcançar alguns milhares de empresários, hoje podemos chegar simultaneamente a milhões de pessoas em todo o país. Esse é o projeto: usar tecnologia para democratizar a educação empresarial e encorajar uma nova geração de empreendedores brasileiros. É nisso que dedico minha vida todos os dias.



