É muito cool gostar de jazz, sabemos, mas quem de nós, já ouviu falar em Gregory Porter, já o escutou em alto e bom som? Depois de cantar para a rainha da Inglaterra e virar pop star do jazz no Festival de Glastonbury em 2016, onde se apresentou ao lado de Adele e Coldplay, o americano de 48 anos, completados hoje – vencedor de dois Grammy de melhor álbum na categoria (Liquid Spirit, em 2014, e Take Me to the Alley, em 2016).

Um dos oito filhos criados por uma mãe pastora na Califórnia, Gregory Porter, nascido em Sacramento, na Califórnia, nos anos 1970, tinha seis anos quando observou sua TV como quem busca um espelho. Porém não se via transmitido ali. Eram todos homens brancos, e ele negro não se via refletido naquilo. Isso só foi acontecer mais tarde quando ele foi descobrir a coleção de vinis de sua mãe com pérolas como Nat King Cole (1919-1965), ícone do jazz americano. “É difícil de explicar, mas não havia ninguém como eu. Ninguém se parecia comigo na TV. Quando vi essas imagens do Nat King, gravitei ao redor delas”, comentou Porter em entrevista. O jovem Gregory descobriu a própria voz cantando na igreja e ouvindo em casa os discos de Nat King Cole de sua mãe. Embora o talento, sabedoria e atitude de Cole tenham transformado ele em algo como um “pai substituto” para o jovem talentoso que vivia dentro da própria cabeça, foi graças a uma bolsa acadêmica oferecida a atletas do futebol americano que levou Porter de sua cidade natal à San Diego University. 

Se você ainda não o conhece, uma ótima oportunidade para descobri-lo é seu álbum “Nat King Cole & Me” (de 2017), diferentemente de seu estilo, que mistura influências de blues, gospel e soul, Porter rende uma homenagem em jazz puro ao seu maior ídolo. Nat King Cole & Me apresenta suas 12 músicas favoritas do cantor e pianista americano, entre elas “Smile”, “L-O-V-E” e “Nature Boy”.

“Nat King Cole preencheu um buraco na minha infância, quando meu pai não estava presente. Suas músicas soavam como conselhos, lições de vida”, contou ele em entrevista, em Londres, em uma audição de seu novo trabalho. Em um pocket show para um seleto público de 150 pessoas na antiga catedral de St. Luke, hoje transformada em casa de espetáculos, Porter, acompanhado de uma orquestra de 60 músicos, apresentou algumas canções. “Para mim, Nat King Cole foi o primeiro Barack Obama da história, por sua força e carisma.” Unforgettable.

INSPIRAÇÃO GOSPEL

Seu mais recente álbum, “All Rise”, lançado agora em 2020, foi anunciado em janeiro desse ano, junto do lançamento de “Revival”, o primeiro single do disco, que já acumula quase dez milhões de streams no Spotify.

“É totalmente gospel. Era isso que eu ouvia na igreja. Quando alguém sentia o Espírito Santo, essa era a batida. O Troy (Miller, produtor do álbum) sabe da importância da mensagem na música e essa letra é aquilo em que eu acredito, essa renovação do espírito, da energia vital. É algo ao mesmo tempo sagrado e terreno. Você não precisa crer para compreender o renascimento e a renovação, começar tudo de novo. Para mim, é uma mensagem sobre atravessar a vida e ter um pouco de medo, algumas inseguranças, e o momento em que você se agarra a algo que você sabe que é real, que é de verdade. Quando você se agarra à verdade, o medo deixa de fazer sentido”, disse Gregory sobre “Revival”, que foi escrita em parceria com Troy Miller, o produtor do álbum.

Na sequência do disco “Nat King Cole & Me”, lançado em 2017 e afetuosamente dedicado ao maior ídolo de sua vida, “All Rise” marca o retorno de Porter às suas composições originais, cheias de sentimentos e enriquecidas com filosofia cotidiana e detalhes da vida real, tudo isso traduzido em uma mistura de jazz, soul, blues, gospel e pop. O álbum representa também a evolução da arte de Porter para algo ainda mais enfático, emotivo, íntimo, mas universal.

Enquanto Porter trabalhava nesse álbum, ele olhou para dentro, para cima, para o entorno dele, e encontrou uma razão de ser para o título “All Rise”. “Nós ouvimos essa frase quando presidentes ou juízes entram em uma sala, mas eu pensei sobre todos nós nos levantarmos. Não é apenas uma pessoa sendo exaltada, todos somos exaltados pelo amor. Essa é minha posição política e minha verdade. Isso vem da minha personalidade, da personalidade da minha mãe, da personalidade do blues e das pessoas negras. É dessa ideia de fazer algo com os restos, da ressurreição e ascensão, de que seja qual for a situação atual, ela pode melhorar através do amor”, explicou o artista.

“Quando criança, eu era confortado pela minha voz. Eu acho que é o mesmo que as outras pessoas captam do meu trabalho. Estou tentando me curar com essas canções”. E é esse o ponto sobre o amor que o novo álbum busca destacar. Mesmo quando é doloroso, confuso, fora do alcance ou sob ataque, no fim das contas o amor cura.

Assista/ouça um pouco:

Site oficial: https://www.gregoryporter.com/