
A trajetória de Amaury Lorenzo ganhou projeção nacional nos últimos anos, mas começou muito antes de sua chegada às novelas. Com 32 anos dedicados à atuação e uma relação profunda com o teatro, o ator viu sua carreira alcançar uma nova dimensão a partir de Terra e Paixão, em 2023. De lá para cá, vieram personagens marcantes em Volta por Cima e Três Graças, consolidando sua presença na televisão sem afastá-lo dos palcos e de uma rotina pautada por estudo, disciplina e constante busca por novos desafios. Agora, Amaury se prepara para viver Lucas Sampaio em Por Você, seu 44º personagem. Professor e diretor de escola, Lucas acredita na educação como instrumento de transformação e marca uma nova fase do ator na TV, com uma interpretação de perfil mais dramático e contido. Professor de artes cênicas há duas décadas, Amaury encontra no personagem pontos de conexão com sua própria história e com valores que atravessam sua vida. Nesta conversa com a MENSCH, ele fala sobre a construção de Lucas, revisita a repercussão de seus últimos trabalhos, comenta a relação com a fama e revela por que, mesmo vivendo um dos momentos de maior visibilidade de sua trajetória, continua enxergando a profissão como um exercício permanente de trabalho, preparação e resistência. Entre televisão, cinema e teatro, Amaury também fala sobre família, inspiração, simplicidade e o desejo de ainda viver muitas outras vidas através de seus personagens.
Você estreou em “Por Você”, interpretando Lucas Sampaio. O que pode nos adiantar sobre o personagem e o que mais despertou seu interesse quando recebeu o convite? Lucas Sampaio é um educador que acredita na educação como ferramenta de transformação social. Após perder a esposa em uma tragédia no interior de Minas Gerais, ele vai para o Rio de Janeiro em busca de um recomeço e encontra na escola sua força motora. Como professor e diretor, luta para não perder nenhum aluno e reforça a importância da educação como um direito fundamental. O fato de Lucas ser um homem preto também amplia a relevância do personagem. Durante minha pesquisa, descobri que, embora 44% dos docentes do ensino fundamental e médio sejam pretos, esse número cai para 22% no ensino superior. Entre diretores de escolas, são apenas 3%. Por isso, sinto uma responsabilidade muito grande em interpretar um personagem tão potente e levar essa discussão ao horário das sete. Eu não fui convidado diretamente para viver Lucas. Fui chamado para fazer um teste e tenho muito orgulho disso. Agarrei a oportunidade com todas as minhas forças, principalmente pelo desejo de interpretar um educador e abordar um tema tão importante para o país. Até porque também sou professor há 20 anos.


Lucas chega em um momento de grande visibilidade da sua carreira. Que desafios esse novo personagem apresenta e o que você buscou explorar de diferente em sua construção? Lucas Sampaio é meu 44º personagem em 32 anos de carreira. Foram duas universidades, inúmeros cursos, companhias de teatro e muitos trabalhos até chegar a este momento de grande visibilidade. Por isso, vejo essa fase como uma celebração e sou muito grato à minha família, aos meus mestres, à minha ancestralidade e a Nossa Senhora de Fátima, de quem sou devoto. Para quem acompanha meu trabalho no teatro, Lucas está próximo de personagens dramáticos que já interpretei. Na televisão, porém, o público ainda não me viu nesse registro, e esse é um dos desafios. Busquei construir um homem mais sereno, com gestos tranquilos, voz baixa e grave e um olhar acolhedor. Como diretor de uma escola, ele precisa transmitir responsabilidade, segurança e conforto. Foram cerca de cinco meses de preparação, com pesquisas, anotações e referências. Mas Lucas também nasce muito da minha própria experiência: sou professor de artes cênicas há 20 anos. De certa maneira, ele já estava dentro de mim; eu só precisava trazê-lo para fora.
Em 2023, “Terra e Paixão” representou uma virada na sua trajetória, trazendo reconhecimento nacional e o troféu de ator revelação. Como você enxerga hoje o impacto daquele trabalho na sua vida e na sua carreira? É importante dizer que tenho uma carreira consolidada no teatro. Comecei ainda criança, dançando balé clássico aos 10 anos, e recebi meus primeiros prêmios como revelação aos 12. Depois, também fui reconhecido no cinema. São 32 anos de trajetória, embora a televisão tenha me apresentado a um público maior apenas nos últimos cinco anos. Receber o prêmio de ator revelação por “Terra e Paixão”, minha primeira novela das nove, teve um impacto enorme e ampliou meu trabalho no Brasil e no exterior. Mas essa visibilidade só foi possível graças a muitos anos de dedicação e luta no teatro. Mesmo fazendo minha quarta novela seguida, continuo nos palcos, viajando pelo Brasil com meu monólogo sobre a Guerra de Canudos e participando do musical “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque. Sou muito grato a Walcyr Carrasco, Thelma Guedes, Luiz Henrique Rios e a todo o elenco e equipe de “Terra e Paixão”. Dedico esse reconhecimento a todos eles, porque televisão não se faz sozinho.


Depois de uma repercussão tão expressiva, veio Chico, um dos personagens centrais de “Volta por Cima”. Houve uma pressão maior para corresponder às expectativas do público após o sucesso anterior? São 32 anos vivendo exclusivamente da profissão de ator, pagando minhas contas e ajudando minha família com o meu trabalho. Por isso, não posso depositar as expectativas sobre minha carreira em outro lugar que não seja em mim mesmo. Sempre confiei na minha competência e na trajetória que construí. Quando fui convidado para viver Chico, em “Volta por Cima”, fiquei muito feliz porque entendi que, ao emendar uma segunda novela, deixava de ser uma aposta para me tornar um ator de confiança da emissora. Isso confirmou para mim que meu trabalho também funcionava na televisão. Chico foi, até então, o personagem com quem mais me diverti na TV. Era solto, divertido e me proporcionou encontros muito especiais com o elenco, além de muito aprendizado. Foi um trabalho feliz, com o texto de Claudia Souto e uma equipe maravilhosa. Sou apaixonado pelo Chico e tenho muita saudade dele.
Chico trouxe novas possibilidades para você como intérprete. O que esse personagem acrescentou ao seu repertório e ao seu amadurecimento como ator? O Chico, em Volta por Cima, possibilitou que eu ampliasse meu repertório e minhas ferramentas como ator. Ele começa a novela imaturo, traindo a namorada e reproduzindo uma masculinidade tóxica, mas passa por um arco de transformação muito bonito. Ao longo da história, torna-se um homem responsável, trabalhador e verdadeiramente apaixonado, casa-se e assume como seu o filho da mulher que ama. Esse tipo de transformação é muito comum em personagens dramáticos do teatro, mas nem sempre acontece com tanta força na teledramaturgia, especialmente em uma novela das sete e com um personagem inicialmente cômico. A Cláudia Souto e seus colaboradores construíram esse arco de maneira incrível, e me senti muito agraciado por poder vivê-lo. Pude usar ferramentas adquiridas ao longo de tantos anos de teatro e explorar um personagem completamente diferente do Ramiro. Sou muito agradecido à TV Globo, à Cláudia Souto, ao diretor André Câmara e a todo o elenco. Foi uma novela em que me senti muito feliz, justamente porque Chico ampliou meu repertório e me permitiu acompanhar a trajetória de um jovem imaturo que, ao final, se torna um homem digno.



Mais recentemente, você também integrou o elenco de “Três Graças”. O que essa experiência representou dentro dessa sequência tão intensa de trabalhos na televisão? Quando fui convidado para viver Gilmar em Três Graças, minha terceira novela em sequência em um curto espaço de tempo, me senti legitimado como ator na televisão. Percebi que a emissora, os diretores e os produtores confiavam no meu trabalho e que eu estava conseguindo entregar aquilo que esperavam de mim. Inicialmente, Gilmar ficaria apenas até o capítulo 15, mas, a convite do autor, permaneci durante toda a novela. Como gravava pouco, também pude conciliar outros projetos, como o musical Ópera do Malandro e um filme rodado na Amazônia. Além desse reconhecimento profissional, Gilmar teve um significado muito especial na minha vida: foi por meio desse trabalho que consegui comprar o apartamento dos meus pais. Finalmente pude realizar o sonho da casa própria de Maria de Fátima, minha mãe, migrante nordestina que chegou ao Rio de Janeiro na década de 1970, e do meu pai, Geraldo, caminhoneiro mineiro. Foi uma conquista proporcionada pela legitimidade que meu trabalho como ator alcançou.
Em poucos anos, você passou por personagens bastante distintos e por produções de grande alcance. Existe algum critério que hoje pesa mais na hora de aceitar um novo papel? É importante destacar que poucos anos enquanto ator de TV. Cinco anos com quatro personagens. Mas enquanto o ator do teatro são mais de 30 anos. Eu não tenho critério pra fazer personagem, eu não nego personagem. Quando o personagem chega até mim eu entendo que ele quer que eu viva o personagem. O personagem quando chega até mim é porque eu preciso vivê-lo, é porque o personagem tem urgência de que eu dê vida a ele. Eu que preciso me debruçar estudá-lo. Eu que preciso fazer com que o público o veja através do meu corpo, através da minha espiritualidade, através da minha sexualidade. Então eu nunca neguei personagem. Quando o personagem chega até mim eu entendo que é a minha missão e eu vou trabalhar para que ele aconteça da melhor maneira possível.


O reconhecimento nacional também amplia a exposição e transforma a relação do artista com o público. Como você aprendeu a lidar com a fama e com o interesse crescente pela sua vida fora das telas? Acho lindo o reconhecimento do público. Quando ando pelas ruas e as pessoas me param para pedir uma foto ou elogiar meu trabalho, fico muito feliz. Recentemente, na academia, um senhor de 85 anos veio me parabenizar e contou que, depois de acompanhar minhas novelas, foi assistir ao musical Ópera do Malandro e passou a admirar também meu trabalho no teatro. Fiquei tão emocionado que pedi uma foto com ele para guardar de lembrança. Esse carinho é muito especial. A novela faz com que o artista entre diariamente na casa das pessoas e, naturalmente, desperte interesse por sua trajetória. Sou muito grato a todos que acompanham meu trabalho e aos inúmeros fãs e fã-clubes espalhados pelo Brasil e também fora dele. É muito bonito receber tanto carinho e reconhecimento.
Olhando para o Amaury que chegou a “Terra e Paixão” em 2023 e para o ator que agora assume Lucas Sampaio, quais foram as principais transformações profissionais e pessoais desse período? Ser ator é como ser um atleta de alta performance. Você vive conflitos, ações e emoções que não são seus, abre mão de momentos pessoais, estuda constantemente e ainda precisa lidar com a exposição e a crítica. Na televisão, essa exigência é ainda maior: são jornadas de até 11 horas, muitas cenas e páginas de texto, o que exige preparo físico, mental e emocional. Do meu primeiro trabalho na TV até Lucas Sampaio, em Por Você, tornei-me um ator mais técnico, exigente, profissional e seguro. Hoje, sinto que pertenço mais a esse universo, assim como sempre me senti seguro no teatro. No aspecto pessoal, a televisão também trouxe estabilidade financeira para mim e minha família e me permitiu ajudar pessoas próximas. Tenho consciência de que viver exclusivamente da profissão de ator no Brasil é um privilégio e, infelizmente, não corresponde à realidade da maioria dos atores e atrizes do país.

Você vive uma fase de consolidação na televisão, mas sua trajetória como ator vai além dela. Quais caminhos ainda deseja explorar — no cinema, no teatro ou mesmo em personagens que possam surpreender o público? Não me considero um ator consolidado, mas um ator que tem o privilégio de estar trabalhando. No Brasil, a profissão é marcada pela incerteza: continuo fazendo testes, buscando oportunidades e produzindo meus próprios espetáculos. Meu monólogo sobre a Guerra de Canudos, apesar do sucesso e dos prêmios, ainda não tem patrocínio, assim como meu novo projeto sobre Aleijadinho. Acredito que precisamos de mais políticas públicas e incentivos que permitam aos artistas viver com dignidade do próprio trabalho. Estar na televisão não significa estar consolidado; é uma luta permanente, e tenho consciência de que amanhã posso não ter trabalho. Por isso, não paro de produzir. O teatro continua essencial na minha vida, quero fazer cada vez mais cinema brasileiro e, no futuro, tenho um grande sonho: interpretar um vilão.
Qual sua maior vaidade, como homem e como ator? A minha maior vaidade enquanto homem é chegar na minha casa fazer meu feijãozinho mineiro, meu arrozinho branco, minha couvezinha fininha refogada na manteiga, fritar dois ovos sentar no meu sofá e comer. E a minha maior vaidade enquanto o ator é saber que eu vivo desse ofício sagrado há 32 anos.
Onde busca inspiração e como recarrega as baterias? A maior inspiração para o meu trabalho vem da minha família, especialmente dos meus pais: minha mãe, Maria de Fátima Oliveira Lourenço, uma nordestina guerreira, e meu pai, Geraldo Lourenço de Sousa, mineiro e caminhoneiro que percorreu o Brasil. Meus avós, irmãos, sobrinhos, afilhados e amigos também me inspiram muito. Esses dias um jornalista, que é um amigo fotógrafo de eventos, me disse “poxa Amauri você não para de fazer sucesso e a gente espera te fotografar em uma festa, numa balada, num lugar onde geralmente os atores quando fazem muito sucesso estão e aí você no réveillon tira uma foto em família em uma fazenda no meio do mato, onde levou sua família. Totalmente na contramão do que seria um ator fazendo muito sucesso”. Ele disse isso não como queixa, mas com um elogio. Sou um homem simples e muito ligado às pessoas que amo. É junto da minha família que recarrego as energias. Mesmo com a exposição e o sucesso, prefiro estar perto deles, seja na casa dos meus pais ou reunindo todos em uma fazenda no Réveillon. Essa simplicidade faz parte de quem sou. Sou um mineiro apaixonado pela família e pelo meu ofício. Lucas Sampaio é meu 44º personagem, e espero viver pelo menos outras 100 vidas por meio da atuação, porque amo profundamente ser ator.

Fotógrafo @marciofariasfoto
Stylist @marlon_mesquita
Beleza @marilenes_makeup
Assessoria @felipebarsoli @donni.project


