
Por Nadezhda Bezerra
2026 sem dúvida é um ano de grandes estreias para Erika Januza. Ao mesmo tempo em que retorna para mais uma temporada no Saia Justa, estreou um papel marcante na novela Dona Beja (HBO) e é a rainha Niara na nova novela das 18h da Rede Globo, A Nobreza do Amor. Entre o aqui e agora e o passado da sua personagem, Erika tem vivido experiências de amadurecimento e segurança em tempos em que cada opinião pode ser julgada de forma violenta ou alçar alguém a idolatria. Ciente da história que vive e faz no audiovisual brasileira, como mulher e negra, Erika segue feliz com suas conquistas sem esquecer que toda pessoa pública carrega em si uma força comunicativa importante. Nas próximas páginas você confere o resultado da nossa conversa com essa nobre rainha.
Nova temporada do Saia Justa e nova novela das 18h? É do tipo ansiosa ou tá tudo certo com o que vem pela frente? Tudo ao mesmo tempo. Está tudo certo, mas ao mesmo tempo ansiedade para tudo. Eu estou muito feliz com essa novela, muito emocionada, é uma novela muito potente, muito forte e representa muita coisa. Eu falo que ela já está fazendo história só por existir. É uma novela que traz uma simbologia retratando África, algo nunca visto em uma novela antes e da forma que é, tão fiel ao figurino, caracterização, cenário, as ideias, essa família, um reino, uma realeza africana que já está fazendo história. E o Saia Justa mudou e acrescentou muita coisa na minha vida. É um programa tão incrível que está no ar há tanto tempo, com mulheres maravilhosas que passaram por lá. E eu me sinto muito honrada de fazer parte e eu aprendi muito com o programa. A cada semana, a cada pauta nova, eu aprendo muito. Aprendo lendo os conteúdos para fazer parte dessa história, como também na troca com as minhas colegas e com os convidados. É um programa muito rico. Então, a gente está quase voltando. Eu já fico aqui pensando em pautas para sugerir. Eu gosto também de dar uns pitacos e querer me envolver também nesse lugar. É um programa que eu gosto muito. Estou sentindo falta. E eu sei que vai ser um desafio, mas estou pronta para viver esse desafio, para fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Sobre o Saia Justa, como foi fazer parte da temporada 2025, quais as expectativas na época, o que você acha que deu certo, o que pensa em mudar para esta próxima temporada? Eu tinha um pouco de receio porque era a primeira vez que as pessoas estavam conhecendo a Érika de verdade. Porque uma coisa é você atuar e as pessoas conhecerem a Érika atriz. Outra coisa é as pessoas conhecerem a Érika mesmo. O público tem, às vezes, um recorte da gente na internet. Eu pude mostrar um pouco quem eu sou no meu diálogo no programa Rainhas Além da Avenida porque eu conversava com as rainhas, as minhas vivências dividindo e querendo saber sobre as vivências delas. Então, era uma conversa aberta também. E a partir daí o Saia [Justa] me trouxe essa chance de mostrar as minhas ideias. Eu acho que escolhi um caminho de optar sempre pela verdade, de me abrir um pouco, de não ter medo mesmo das minhas verdades, mesmo que elas contradigam as outras pessoas; são as minhas verdades, cada um com as suas verdades.
Eu acho que foi um caminho arriscado, mas acho que funcionou para mim, que eu não saberia fazer diferente de dizer o que eu estou sentindo mesmo, ou de compartilhar as minhas vivências, quando elas forem pertinentes para o tema, ou para agregar contando alguma história pessoal porque o programa não é sobre falar, sobre nós, histórias pessoais, mas essas histórias também agregam de alguma forma, porque, quando você compartilha experiências com outra mulher, ou alguém ouve que você já passou por algo que pode ajudar ela de alguma forma, de experiência: ‘ah, fulano já passou por isso e agiu assim, deu certo pra ela’; quem sabe é um conselho que eu precisava ouvir, e ali é muito uma troca. Eu aprendo muito com as meninas, com os convidados. Enfim, eu adoro o programa e mudar para a próxima temporada, não sei. Acho que é só fazendo para entender porque eu acho que o que eu queria muito era não ter medo e eu acho que consegui ser um pouco destemida. Acho que eu quero continuar sendo destemida.

Já vivenciou alguma saia justa que até hoje não consegue esquecer? Já vivi algumas saias justas. Algumas e a maioria delas dentro de relacionamentos. Algumas que não dá para esquecer e que não quero viver mais, mas que me ensinaram. Tem um ditado que diz que as coisas ruins servem para a gente aprender. A gente não quer aprender a duras penas, mas, quando acontece, pelo menos você tira alguma lição. Mas eu vivi algumas coisas que não quero ter que viver de novo. Espero que tenha sido um aprendizado, que passe e que não quero mais. É isso. Na vida, quem nunca? Quem nunca passou por alguma saia justa? Então, já passei por algumas ao longo da vida.
Nessa de dar opinião sobre vários temas e lidar com a repercussão, como é a tua relação com as redes sociais. Te assusta poder ser “cancelada”? Lidar com a repercussão é muito bom. No início, eu tinha muito medo. Falei: ‘vou ser cancelada, sei lá, não vou saber falar sobre as coisas, será que eu vou saber falar o suficiente’, mas eu fui entendendo que ninguém é dono da verdade, ninguém sabe sobre todos os assuntos, e nem sempre o meu ponto de vista sobre um assunto vai ser tão bom quanto o outro em outro assunto porque tem assuntos que eu vou ter mais vivência, que eu vou dominar um pouco mais, tem assuntos que eu não vou dominar, tem assuntos que eu não vou nem nunca ter ouvido falar sobre aquilo e vou ter que aprender ali junto. Então, cada novo tema é uma nova Érica falando, é uma nova mulher opinando sobre aquilo. E é a partir do meu ponto de vista, de vivência da Érika. E o ponto de vista da Eliana é outro, da Juliette é outro. Enfim, cada pessoa tem um ponto de vista a partir das suas próprias vivências. Então, eu acho que é entender isso. E aí, quando as falas repercutem nas redes, é muito gratificante perceber que o público, de alguma forma, se conectou, gostou de algo que você falou, ou se não concordou e de uma forma respeitosa disse o porquê não concordou. Você ouvir e ler aquilo, ler aquilo.

Na verdade, ler aquilo e falar: ‘é…talvez, posso pensar por esse lado’. Eu já fiz uma fala uma vez que eu, às vezes, me deixei ser interpretada errada e aí virem pessoas falarem: ‘ah, mas você tá falando isso, mas, às vezes, criticando e está tudo bem criticar. É só a minha opinião. Não é uma verdade absoluta. E não estou ali para ensinar nada para ninguém. Então, acho que tem que ter a mente aberta também para entender quando a sua fala não for benquista e que está tudo certo. Que eu não estou ali para ser a dona da verdade. É um desafio porque, às vezes, nas redes sociais, você tem 100 comentários bons e o ruim acaba mexendo com a gente. Porque eu faço parte e o ser humano é assim. Mas eu gosto muito, ao longo da caminhada do Saia Justa. Ainda que hoje o Saia Justa está de férias, não tem um lugar que eu vá que alguém não diga para mim que está adorando assistir, que está se conectando com a história, que alguma coisa fez sentido. Eu já recebi fotos da tatuagem daquela frase que eu ouvi no avião relacionada ao tempo, de aceitar o novo e deixar o velho embora.
Enfim, eu tenho vivido muitas coisas bonitas através do Saia [Justa], um público diferente vem falar comigo, muitas mulheres, muita gente mesmo que vem falar porque gosta e, às vezes, vêm citando algo que eu falei. A pessoa realmente sabe o que eu falei e vem às vezes debater comigo sobre aquilo nos mais diversos lugares, desde aeroporto, shopping, festas, enfim, lugares muito diversos. Então, eu fico muito feliz mesmo com isso.


Ancestralidade é um tema muito debatido hoje em dia. O resgate às origens, as conexões antigas com quem veio antes de nós. Inclusive me parece algo de interesse mais do universo feminino que masculino, não sei. Como esse tema chega até você e o quanto ele te interessa ou interessava antes da tua personagem da novela das 18h? O tema da ancestralidade sempre me interessou. Tanto é que fiz um teste genético para saber as minhas origens. Porque muita gente não tem muita notícia das suas origens, de onde vem. Eu, especificamente, como uma mulher preta, venho de uma origem de provavelmente escravizados há algum tempo nesse país, que não sei de onde meus ancestrais vieram. Então, fiz um teste de ancestralidade. Eu me conecto muito com o que isso significa porque tenho total consciência de que antes de mim, um monte de gente passou por muita coisa difícil para que hoje eu pudesse ter a vida que eu posso dizer que é muito boa, graças a Deus, mas também que conquistei com muito suor.
Mas falando do audiovisual, por exemplo, para eu ter uma oportunidade de hoje em uma novela com certo protagonismo, nos trabalhos que eu faço com destaque que eu tenho a chance de ter, muita gente já passou por coisas muito difíceis, teve que dar muitos nãos para serem respeitadas para que, hoje, eu pudesse estar aqui fazendo o que eu faço. Então, tenho que ser muito honrada e respeitar a ancestralidade dessas e desses que estiveram antes, não só na minha profissão, mas na vida.
Quando a gente vê o nosso povo podendo viver de uma certa forma em paz, porque “em paz” é entre aspas, porque, até hoje, você ser negro no nosso país, que tem uma população preta tão grande e com um histórico tão grande de escravizados que tivemos aqui, hoje, quando você para olhar no entorno, eu fico muitas vezes pensando em como seria não poder nada, não ter direito à sua própria liberdade, não ter direito à sua própria língua, não ter direito a ser você. As pessoas que vieram para cá perderam o seu nome, perderam o direito de falar a própria língua, perderam o direito, tiveram um apagamento mesmo. E o mais triste é que essa história foi contada de uma forma que fez todo mundo acreditar que o povo preto é inferior. E não é. Nós fomos roubados de um lugar, de uma origem onde estávamos vivendo. E a história que se conta para as gerações seguintes, depois da escravidão, é que o povo preto é subalterno e só aquilo. Mas se esquecem da origem diversa que essas pessoas tiveram. Isso é muito triste.

Todas as cenas que falam de ancestralidade, dos que vieram antes, são sempre muito emocionantes em qualquer projeto que eu faço. Na minha vida mesmo, pensar que estou no momento com tranças no cabelo, que eu fiz para a pré-estreia da novela. Quando eu faço tranças e penso que as tranças, um dia, já foram significados de caminhos de quilombos na cabeça das mulheres…tem coisas muito bonitas que a ancestralidade traz e que muita gente, às vezes, não dá valor.
Então, eu sou conectada com isso há muito tempo. Confesso que, depois que me tornei atriz em 2012, isso ficou muito mais forte porque acho que eu não tinha antes consciência da potência disso. Mas, a cada dia, eu aprendo mais e sou muito feliz por cada dia mais pessoas estarem aprendendo mais. Porque quanto mais todo mundo aprende, mais esse aprendizado é passado adiante, mais a gente aprende no coletivo. Porque tem coisas que eu sei que aprendi recentemente, mas tem coisas que eu ainda vou aprender, porque tem gente aprendendo e ensinando o tempo todo. É uma troca. Isso não pode ser só do povo preto para o povo preto. É um aprendizado coletivo social porque não adianta o povo preto ser consciente e as pessoas não negras simplesmente ignorarem a realidade e o respeito que tem que ter por nós. Então, sou muito feliz com essa crescente consciência.
Falando em nova novela, conta um pouco da trama, da tua personagem e da relação com a Duda Santos que fará tua filha. A trama fala muito disso, mas de um jeito que não ficamos falando o tempo todo porque a pauta não é racial, mas ela é, porque está ali, em uma novela das seis, na maior emissora do país, mostrando uma África como ela é, um reino, um rei, uma rainha, uma princesa lutando para defender o seu reino. A gente não está ali falando sobre racismo, escravidão, nada disso. Teremos sim, a primeira cena abre já mostrando que lutamos contra os colonizadores por um país livre. Começa ali abrindo com o Elkitt, o ator falando, Batanga Livre, que é o nome do nosso reino. Então tem, mas é em outro lugar. E mostrar isso na novela das seis é muito lindo. A minha personagem é uma rainha que luta junto com o seu rei logo no início e eles têm um reino que sofre um golpe de estado.

Toda a trama se passa para contar a história da princesa Alika que, depois disso, vai recuperar a coroa da sua família porque, na sucessão, a princesa acaba se tornando rainha quando não tem um príncipe. A trama é sobre essas mulheres fortes porque precisam fugir para o Brasil para sobreviverem e pegarem o seu reino de volta. Então é uma história muito bonita. Tem a ancestralidade todinha ali. Quando a pessoa olhar na tela, ela vai entender. E tantos símbolos da novela que a gente tem no nosso país, no dia a dia, que muita gente, às vezes, nem sabe que são símbolos africanos. Porque o Brasil – tem até esse texto na novela – é um grande pedaço de África, na verdade. Então, é muito bonito e estou feliz. A Duda é incrível. A gente está se dando muito bem. Eu tinha encontrado com ela e tido uma troca linda no Saia Justa uma vez em que ela foi lá e eu nem sabia o que ia fazer a novela ainda. Foi muito lindo.
A Nobreza do Amor vai começar em um reino fictício em África e depois em uma cidade inventada no interior do nordeste. Você é mineira radicada no Rio. Como tem sido a preparação para viver essas travessias todas? Pois é…essa travessia do Rio Grande do Norte; da África para o Rio Grande do Norte também é muito legal porque, quando a gente chega no Rio Grande do Norte, vamos para uma cidade que, quando eu olho para ela, tem muito uma estética mineira, do interior. Tiradentes, Ouro Preto, tem um pouco dessa estética. Aquelas pracinhas interioranas, uma arquitetura dos anos 20. Tem um comportamento diferente, tem que tentar estar misturada ali naquela cidade que ninguém sabe quem é, mas ao mesmo tempo tem um corpo de realeza que não deixa de estar presente nesse novo lugar. E o Nordeste também, como o Nordeste está espalhado por todo o Brasil… quantos nordestinos também saem da sua terra para ganhar o Brasilzão. Então, acho que fazer uma novela no Nordeste também diz muito sobre o Brasil. E lá vamos ter turcos, portugueses, além de nós, a África, além do próprio povo nordestino; essa grande mistura que o Brasil é e traz. Então, a Duca tem esse histórico de mostrar essa representatividade de povos, o Elise, o maravilhoso e o Júlio. Então, estão construindo uma novela muito linda, de dar muito orgulho. Vou parar aqui pra não perder.


A grande maioria das novelas mais antigas e de época, ligavam África à escravidão, essa vai tratar de nobreza, reis e rainhas. A seu ver o quanto precisamos mergulhar na história dessas misturas para saber mais sobre nossa própria origem como brasileiros e o quanto isso poderia contribuir para o combate ao preconceito e racismo? Importantíssimo. Como eu acho que citei antes, a gente está sempre acostumado a ver esse único recorte e aí tem uma coisa que é assim: ‘Qual é o passado que a gente construiu?’ É um passado triste, um passado de dor, uma memória ruim e aí na escola, nos livros, a gente só viu sempre o negro retratado como escravo. Claro que tivemos a escravidão, é uma história que tem que ser contada, uma grande injustiça que aconteceu com todo um povo, mas esse é o único recorte que se tem a respeito do tema? Pouco se conta da beleza que foi, e é, a África. Às vezes, é retratada nas escolas como só um lugar que tem animais e pobreza. Então, é um retrato de uma África de um jeito errado e triste que precisa ser mudado porque a gente, começando a fazer isso, estamos construindo um novo imaginário para as futuras gerações que, quando vão olhar pra trás e falar: ‘o que que já se teve no audiovisual? Qual é a verdadeira história de África?’ Se a pessoa não parar para poder pegar um conteúdo sobre África bem específico, talvez ela não tenha acesso à história. Ela vai ficar sempre ouvindo a história que contam.
E ainda mais na TV aberta que é um caminho muito fácil, é a mais acessível para a população. É diferente de você acessar um streaming para poder ver algo, uma história específica que possa se falar de África. Então, é importante ter isso na TV aberta, começar a contar novas histórias, outros recortes para que as futuras gerações entendam realmente de onde veio o povo preto, o que aconteceu foi um grande crime. Não é a condição, não é a polícia olhar para o preto e achar que é criminoso, achar que o preto tem que ser aquele que não tem condições sociais, financeiras por simplesmente porque tem que ser assim. Não é sobre isso. Então, está tudo errado socialmente na construção do nosso país. E isso ainda contribui com a autoestima. Quando você olha para a TV, para a publicidade ou ao redor, você vê quem foram essas pessoas. Você tem um outro um outro lugar de recorte para poder mostrar que essas pessoas foram, tiveram outra história, outra origem. Não só a origem que se conta. Então, é importantíssimo. Essa novela é um presente. Eu lembro que falei com a Duca: ‘olha eu não sei se terei chance de fazer. Queria muito fazer, mas, se eu não fizer, ainda assim, gostaria muito…eu vou assistir. Serei uma espectadora, porque esse projeto merece ser prestigiado’. Então, estou muito feliz, de verdade, em ver isso acontecer.

Fotos Marcio Farias
Styling Patrick Doering
Assistente Lee Oliveira
Produção executiva Marcia Dornelles
Beleza Yago Maia Assistente Lais Régia


