ESTRELA: CALMA QUE CINTIA CHAGAS TE EXPLICA

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Por Nadezhda Bezerra

Já dizia Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, escrito por Guimarães Rosa: “O que a vida quer da gente é coragem”. E isso não tem faltado a Cíntia Chagas. Do contrário, ela não estaria lançando, em TV aberta, o Calma Que Eu Te Explico, programa que estreou esta semana na Record, que mistura educação e entretenimento no ensino da língua portuguesa — do jeitinho que só ela sabe fazer e pelo qual conquistou milhares de seguidores nas redes sociais. Bastante requisitada para cursos e palestras em empresas, Cíntia tirou um tempinho para conversar com a gente. Conversa essa que você, caro leitor, vai adorar.

Nenhuma conquista nasce da noite para o dia. Normalmente é fruto de sonho, esforço, entrega, conhecimento, senso de oportunidade e até um pouco de sorte. Quando você se inscreveu no curso de Letras da UFMG, imaginava que um dia estaria estreando um programa em TV aberta? Quais eram suas ambições naquela época? Eu não sonhava em ser professora. Eu sonhava em ser artista, em estar na TV, em ser famosa. Como, à época, eu não tinha condições financeiras de morar no Rio para tentar algo na televisão, eu fui atrás dos palcos das salas de aula. Estudiosa, eu vi na língua portuguesa o caminho. E eu me espelhava no professor Pasquale. Lembra-se dele na TV Cultura? Pois então. É muito importante ter referências. Ele foi a minha.

O que mais te encanta na língua portuguesa? A riqueza e a beleza vocabular. Temos um léxico riquíssimo, muito mais belo que o da língua inglesa, por exemplo. Ariano Suassuna não exagerava quando dizia que o inglês tem pouca graça perto do português.

Em tempos de redes sociais, fala-se muito sobre a falta de interpretação de texto. Parece que muita gente desaprendeu a lidar com ironia, metáfora e outras figuras de linguagem, gerando grandes ruídos na comunicação. Por outro lado, há quem use a língua de forma intencional para confundir ou enganar. Como você enxerga esses fenômenos contemporâneos? Consegue pensar em caminhos para melhorar essa situação? Desaprendeu ou nunca aprendeu? As redes sociais hiperbolizam os problemas existentes, e a baixa capacidade interpretativa do brasileiro é uma realidade. A solução, além do investimento na educação de base, passa pela leitura dos clássicos e, obviamente, pela dedicação ao estudo. Mas, na vida adulta, as prioridades, infelizmente, costumam ser outras. Dificilmente um profissional se vê compelido a dedicar tempo ao estudo de textos literários. Com isso, ele se torna presa fácil de armadilhas linguísticas comuns, por exemplo, em contratos.

Diferente de muitos influenciadores, você tem formação, experiência e propriedade para ensinar o que ensina. Você tem um perfil definido da sua audiência, qual seria? Estamos falando de milhões de seguidores, o que torna o meu público muito amplo. Todavia, percebo que há algo em comum entre a manicure e a médica que me seguem: ambas querem progredir na vida, ambas querem ser referência na área de atuação e ambas querem receber elogios sobre o modo como se expressam. O meu público quer ser reconhecido pela inteligência.

Sua influência há de crescer com o Calma Que Eu Te Explico, que estreia agora no final de abril na TV Record. Conta pra gente como o projeto nasceu. Eu espero que sim! A Record me chamou para uma reunião e ofereceu-me um quadro no domingo Espetacular. O vice-presidente, Antônio Guerreiro, foi bem objetivo: “Queremos um quadro educativo, que forme as pessoas”. E eu acrescentei que precisaria ser divertido. Ele respondeu algo como “Foi por isso que escolhemos você”. Tenho muita liberdade para criar as dinâmicas, estou muito feliz. As equipes de direção e de produção são sensacionais. 

Quais são suas expectativas em relação ao programa? E o que o público deve esperar? Dinamicidade, entretenimento e educação. Eu nunca faria algo morno, monótono, chato. Teremos convidados famosos, falaremos com o povo, criaremos jogos, resolveremos dúvidas. Estamos todos muito empenhados. E eu estou muito feliz!

Enquanto alguns veem a matemática como um grande desafio, outros acham complicadíssimo aprender regras ortográficas, tempos verbais e gramática. Você tem mostrado que não precisa ser um bicho de sete cabeças. Como surgiu a ideia desse ensino diferenciado e como e por que ele alcançou tantas pessoas? Eu nunca tive o objetivo de criar uma metodologia. Eu simplesmente não saberia fazer de outra forma… Prova disso é o fato de eu ter sido demitida dez vezes. Sim, eu fui mandada embora de dez cursinhos. O meu jeito politicamente incorreto me rendeu muitos problemas antes de me gerar sucesso. A verdade é essa.

Você é daquelas pessoas que analisam alguém pelo jeito de escrever e falar? (risos nervosos) O tempo todo! É mais forte que eu… A pessoa vai falando, e eu vou contabilizando os erros e os acertos. Quando eu olho para um ar-condicionado, por exemplo, eu penso na grafia. Eu digo a mim, mentalmente: ar, hífen, condicionado, cujo plural é ares, hífen, condicionados. Se faço isso com objetos, imagine com pessoas.

Na sua visão, a falta ou a má comunicação nas empresas é, se não a maior, uma das principais causas de problemas entre setores, funcionários, clientes, fornecedores — e até de doenças emocionais no ambiente de trabalho? Com certeza. E a comunicação via Whats App se tornou um perigo… Escrevemos como se o outro tivesse acesso à nossa entonação, o que gera muitos desentendimentos.

Por que a transparência na comunicação ainda assusta tanto dentro das empresas? Quais são as maiores dificuldades que você costuma encontrar em suas consultorias, cursos e palestras? As pessoas querem ser firmes, mas temem o julgamento alheio. E se me considerarem ríspida? Uma das perguntas que mais ouço é: “Como ser firme sem ser grosseiro?”. A solução se ancora em muitos pilares, como linguagem verbal, postura, gesticulação, expressão facial e até velocidade de fala.

Um debate que virou livro escrito a quatro mãos. Como foi a experiência de produzir A Dor Comum, publicado recentemente pela Editora Planeta, em parceria com Manuela D’Ávila? Vocês já se conheciam antes da participação no GloboNews Debate, em 2025? Nós nos conhecíamos apenas pelos nomes. O debate foi um sucesso porque nós nos respeitamos, acredita? Onde já se viu isso? Esperavam interrupções, ofensas e clima bélico, como se essa fosse a natureza dos debates. Mas nós provamos que pessoas de opiniões distintas podem e devem acrescentar umas às outras. Com relação ao livro, cujo tema é a violência contra a mulher, a conclusão a que cheguei foi a de que nós, mulheres, de fato sofremos só por sermos mulheres. Precisamos nos unir. E precisamos do apoio de homens íntegros, corretos, bons. O homem em si não é o inimigo. Quem faz esse papel é a impunidade.

Pra finalizar, qual a sua opinião sobre a escrita gerada por I.A? E que recado gostaria de deixar para os nossos leitores? Eu tenho uma forte resistência à escrita gerada pela IA. Primeiro, porque não há originalidade; segundo, porque os adjetivos são usados de modo repetitivo e pueril; terceiro, porque há muitos erros de português. Nunca li uma frase admiravelmente bela advinda de IA. Aliás, a IA deveria ler Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos e Nelson Rodrigues. Talvez assim ela aprenda a escrever. Um recado aos leitores? Leiam os clássicos. Por quê? Porque os clássicos são clássicos, ora.

Fotos e direção @itamazzutti

Beleza @eduhyde

Film @lucasbrando