CAPA: AS SUPERAÇÕES E CONQUISTAS DE JONATHAN AZEVEDO

Jonathan Azevedo é um dos grandes talentos da nova geração. Criado na Cruzada São Sebastião, no Rio de Janeiro, atualmente reside no Vidigal e encontrou na arte um refúgio e uma maneira de expressar sua criatividade desde muito jovem. Antes de iniciar a carreira artística, Jonathan quase virou atleta profissional do basquete, mas, foi indo atrás de livros, e de expandir seus conhecimentos, que seu caminho se cruzou com a formação no “Nós do Morro”, projeto social beneficiado pelo Criança Esperança. Posteriormente, como forma de retribuir o apoio que recebeu, Jonathan decidiu criar a “Carta Preta”, que teve início com doações de cestas básicas e produção de eventos na Cruzada São Sebastião, dos quais os moradores não tinham recursos para acessar. Com isso, o projeto se estruturou e passou a proporcionar cursos, além de parcerias culturais e trazer referências positivas aos jovens.

Jonathan iniciou sua carreira no cinema em 2007 e rapidamente ganhou destaque em filmes como “Cidade dos Homens” e “Meu Nome Não É Johnny”. Na televisão, brilhou em produções como “A Regra do Jogo” e “Verdades Secretas II”, mas foi com o personagem Sabiá, em “A Força do Querer”, que ganhou projeção nacional. Mais recentemente, participou da novela “Terra e Paixão” e da série “O Jogo que Mudou a História”, do Globoplay, em que interpretou o personagem Gilsinho. Além de ator, Jonathan é apresentador, influenciador e empreendedor social. 

Versátil, o artista também tem forte conexão com a música. Por meio do “Nós do Morro”, Jonathan fez parte do grupo de black music “Melanina Carioca”, formado em 2009. E em paralelo à carreira artística, em 2025, Jonathan se lançou no empreendedorismo. Ao analisar uma necessidade da comunidade negra de ter produtos de cabelo específicos, inovou ao criar uma linha de produtos para cabelos com dreads e tranças, intitulada EHRAIZ, com o conceito de contar a história da raíz negra, e proporcionar cuidados personalizados ao seu público. Outro cuidado que considera terapêutico é o surf. Amante de praia, o ator considera o esporte apaixonante, e é onde também se desafia.

Você já fez trabalhos no cinema, televisão, teatro, além de ser apresentador, influenciador digital e empreendedor. Como é ser um artista que já transitou por diferentes universos? O bom de ser um artista que já transitou em diversos universos é que você tem mais possibilidades de se autoconhecer, se desafiar. É algo que te leva para lugares maiores, e eu acho que, de tudo que eu já vivi, ainda estou procurando vôos maiores, ainda estou procurando me lapidar para que eu possa não só apresentar, não só interpretar, não só cantar e dançar, mas eu quero dirigir também. Eu quero desenvolver novos talentos dentro de mim, e isso é importante, não só para mim, mas para todos que vivem da arte: estar sempre se reformulando.

Ao longo da carreira, você já interpretou personagens que povoam o imaginário do público brasileiro, como o Sabiá, de ‘A Força do Querer’, Gilsinho, de ‘O Jogo que mudou  a história’ e tantos outros. Se fosse possível, qual personagem você gostaria de reinterpretar em uma nova produção? Nossa, eu sou muito grato por esses dois personagens, que um mudou a minha vida e o outro está conseguindo fazer essa mudança, essa transição para um outro patamar. Mas tem uma pessoa que eu queria me desafiar a interpretar: o Sabotage, que é um cara que eu gosto muito, Mauro Matheus dos Santos, esse rapper de São Paulo que foi muito a minha influência de ser artista quando eu era mais novo. Então eu acho que o Sabotage seria um belo desafio para mim.

Sua passagem pelo projeto ‘Nós do Morro’ causou um impacto significativo na sua vida, especialmente devido ao contato com os livros e outras pessoas da comunidade. Qual é a lição de vida que ficou desse período? A minha lição de vida no período do “Nós do Morro”, foi de escutar os professores, porque eu cheguei aqui e não era um bom ouvinte. Aqui eu aprendi a escutar, aprendi que ser artista não é só fazer sucesso; ser artista é batalhar pelos seus ideais, e isso eu carrego comigo para a vida toda. Eu aprendi no “Nós do Morro” a ser multiplicador, que, com nossa arte, dá para a gente multiplicar, levar autoestima para muita gente, como chegou até a mim através do “Nós do Morro”. Eu sou muito grato por essa escola. E ainda tem a questão de o “Nós do Morro” ser dentro do Vidigal. Então eu vim para o “Nós do Morro” e acabei apaixonado também pelo Vidigal, e aqui estou até hoje. Sou muito grato não só ao “Nós do Morro”, mas ao Vidigal também por ter me acolhido nesta jornada.

Como surgiu a ideia de criar o projeto Carta Preta? O projeto Carta Preta surgiu quando eu me deparei lendo um livro, “Escravidão”, de Laurentino Gomes. Eu vi tudo que a Carta Branca demandava antigamente, e muito do que a Carta Branca fazia era para me impedir de evoluir, festejar, estar com os meus, ser o que eu sou. Então, depois que eu tive acesso à informação, à cultura, me veio essa ideia da Carta Preta, onde eu e minha empresária, Juliana, começamos a juntar, tirar porcentagens de tudo que a gente trabalhava para investir em projetos sociais, e levar autoestima para as crianças, fazer essa festa acontecer, proteger esse corpo preto e levar educação para eles. Eu tive muita dificuldade para ter acesso à literatura, e quero muito ter uma biblioteca. Hoje, eu tenho uma na Cruzada de São Sebastião, que ainda é pequena, mas eu quero muito expandi-la. Eu quero tudo que eu tive dificuldade para ter acesso; não é que eu queira dar facilidade, mas eu quero dar acesso, para a gente não precisar morrer para se educar, para a gente não precisar morrer para ser o que nós somos. Só ser por si, e tá tudo bem. E aí surgiu essa ideia da Carta Preta: para levar autoestima, levar arte, levar debates, levar tudo o que esses projetos carregam. Os projetos já estão lá; eles só precisam de visibilidade, recursos, pessoas com sabedoria para dividir, para que eles possam não só formar pessoas, mas formar belas profissionais e fazer eles acreditarem que podem muito mais do que esse mundo pensa.

Como empreendedor, você idealizou uma linha de produtos para cabelos com dreads e tranças para a comunidade negra. Como você vê, hoje, a vaidade do homem negro? Eu acho que no caminho da vaidade do homem preto nós já caminhamos bastante, graças a Deus, mas ainda vejo muito caminho a percorrer. Hoje eu tenho a EHRAIZ, que surgiu também das próprias dificuldades que eu tinha para cuidar do meu cabelo. Era muito difícil você achar um shampoo para dread, era muito difícil você achar um leave in para trança… E muitas das vezes a gente fazia trança e ia na praia, aí ficava aquela sensação de cabelo sujo, você tinha que ou destrançar o cabelo ou ficar ali passando a mão que já tirava toda a beleza da trança. Então hoje eu consegui fazer produtos que de fato são feitos para as pessoas pretas, para o cabelo de pessoas pretas e, antes de tudo, todo o tratamento, o processo mais difícil da EHRAIZ foi escolher o produto certo que fazia bem para a gente.

Foi um processo muito grande, tudo eu mandava voltar, até que meus amigos e minhas amigas pretas começaram a falar “caraca que está funcionando!” e quando eu também vi resultado em mim, aí eu fui aprovando. Então foi tudo muito difícil, mas também muito prazeroso! Hoje a gente tem algo pra chamar de nosso, pra contar nossa história, pra cuidar da nossa raiz e nossa raiz ela vem não só da cabeça, mas também vem da nossa mente. Ela vem das nossas histórias, então essa história que a gente quer contar cuidando das pessoas pretas, e como vaidade a gente não pode abrir mão. Porque vaidade também é saúde, cuidado e eu quero viver bem! E eu tenho que me cuidar! Mas graças a Deus a gente começa agora uma nova conversa, porque antigamente essa conversa quase nem existia, se é que existia! Então vamos para cima, botar essa conversa na pauta e vamos falar sobre beleza masculina e autocuidado.

Como a paternidade transformou a sua vida? Você já conversou sobre racismo com o pequeno Matheus Gabriel? Nossa, a paternidade mudou muito a minha vida. A gente conversa muito sobre racismo, sobre preconceito. E o Matheus me faz lembrar muito dessa ingenuidade que a criança tem. Eu lembro que eu não sabia o que era preconceito, eu não sabia. Tem um momento que a gente não sabe, é um curto momento da nossa vida, que a gente não sabe por que tem que ter um dia da Consciência Negra. O meu filho me perguntou por que tinha que ter um dia da Consciência Negra. Ele é muito novo, mas a escola dele dá uma base. Ele comentou “ô papai, na escola hoje só está falando da onde a gente veio.” Primeiro ele falou isso. “Lá na creche está falando muito da onde a gente veio.” Falei: “é da África”. E ele: “É estão falando da África o mês inteiro.” Falei: Maneiro e está aprendendo muito?” E ele: “É pô, agora sei da onde eu vim, não sei quê”. Até que ele me perguntou: “Papai, e tem o dia da Consciência Branca?” E ali, eu vi aquela ingenuidade que todos nós, por um momento da nossa vida, tivemos, sabe? E é triste a gente saber que meu filho não vai viver esse mundo, que já já ele vai perder essa ingenuidade e vai ter que entender. Isso se ele já não entendeu na conversa que eu tive com ele nesse dia! Eu tive que explicar pra ele que é um dia muito importante pra falar dos nossos antepassados, resgatar nossa auto estima. Mas que teve muito desastre no meio disso tudo. Eu sou muito atento ao modo que trago isso pra ele, mas ele é muito atento e inteligente, então eu deixo ele ficar com a parte lúdica da escola, com a parte lúdica do pai, porque já, já essa conversa vai vir e vai vir pra preparar ele pra vida! Porque eu quero preparar ele pra vida, porque ele é o amor da minha vida e muito mais ele me ensina do que eu tenho a ensinar pra ele. A única coisa que ficou marcado pra mim foi sobre essa ingenuidade que a gente, por um momento, carrega mais o mundo e a vida tira isso tudo da gente e a gente tem que entender porque tem que ter um dia da Consciência Negra e porque ele é tão importante nas nossas vidas!

No que a sociedade ainda precisa evoluir em relação à diversidade racial? O que acho que em tudo né, porque a diversidade ela ainda é pautada não pelas pessoas que vivem ou que sofrem as questões e sim pelas pessoas que acham que aquilo deveria ser de tal jeito ou que aquela pessoa deveria se comportar de tal forma. Então acho que dentro desse pensamento de evolução, eu acho que primeiro a gente tinha que respeitar mais a nós mesmos, porque muitas vezes falamos do respeito ao próximo, mas a pessoa nem se respeita né? Então quando a pessoa não se respeita, é muito mais fácil ela desrespeitar. Quando alguém não é leal com ela, é muito mais fácil ela ser desleal com alguém. Então eu penso que esse é o caminho da evolução: para eu mudar o mundo, preciso mudar primeiro o meu universo. Para eu mudar o que está ao meu redor, eu preciso ter uma mudança dentro de mim. Então, se cada um fizer o dever de casa, de refletir o que você está mudando dentro de você, e o que você está melhorando de um dia para o outro. E avaliar, que se você piorar também é uma fase, está tudo bem! Mas dentro daquela piora, o que você vai resgatar de melhor para que você possa transcender dentro da sabedoria do que é viver, do que é cuidado. Então, acho que para a evolução de si, eu acho que a gente tem que refletir mais dentro de nós, porque a gente está muito no externo e estamos esquecendo do interno. E o interno é muito importante, estar saudável para que o externo possa fluir.

Além da sua paixão pelo surfe, o que faz para manter a forma? Eu sou apaixonado pelo surf, mas não pegado onda. Eu ganhei uma prancha do Ítalo Ferreira que me deu até uma energia, cheguei até a pegar onda há uns dias. Mas o que realmente eu tenho feito é malhado, que é uma coisa que eu gosto muito! Agora que minha perna está mais forte, eu voltei a correr. Eu adoro correr, que deixa a minha cabeça mais pulsante. É o que eu gosto de fazer. Eu gosto de ter meu tempo para fazer minha academia lá, pegar meu peso e ficar lá com meu fonezinho. E meu personal é o Helder, que me ajuda pra caraca. Meu irmão Vitinho me ajuda a manter, não só o físico, mas o mental bem, sabe? Adoro curtir minha praia no meu Rio de Janeiro. Também quero voltar a dar uns arremessos no basquete pra ver se eu consigo pegar a mão. Esporte sempre foi bom pra mim! Tenho também muita saudade de jogar futebol. Mas agora que o meu joelho vai ficar mais forte, eu vou poder voltar a jogar também. Eu amo esporte! E, nossa senhora, se eu pudesse eu treinava pra ir pra Copa do Mundo de 2026! (risos)

O que toca na playlist do seu treino? Há algum hit no momento? Estou num momento de ouvir muito samba enredo, porque eu quero aprender, eu adoro aprender as histórias das escolas de samba, as histórias dos enredos, então agora eu tô num momento muito carnavalesco! Mas também tô estudando inglês, então eu escuto muito música americana, e uma coisa que eu não consigo deixar de escutar é rap! Rap bem rua mesmo, e samba: Jovelina, muito Cartola, muito Poeira Pura, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, muito batuque, entendeu? Das músicas internacionais, eu escuto de Alicia Keys, a Ed Sheeran, 50 Cent, Tupac, Lil Wayne, Young Thug. Eu também gosto muito de reggae, Maneva, Bob Marley, Peter Tosh, Edson Gomes…Então essa é minha playlist de superação, muito Sabotage, muito Racionais, RZO. Eu sou um pouco dessa velha guarda que eu gosto muito disso. Cone Crew, gosto muito, também, L7, Filipe Ret. Nossa, se eu ficar aqui soltando minha playlist, vou ficar uma vida. Mas eu escuto de tudo, sou muito eclético pra música!

O ano de 2025 já está acabando e o que ele ensinou para você? O que ainda quer realizar em 2026?  Esse ano me ensinou que eu já cuidei de todo mundo, que eu pude cuidar da minha família, do jeito que eu podia cuidar. Eu estruturei cada um da melhor forma possível. E 2026 é o ano do Jonathan e do Teteu, assim, dali pra frente eu tenho que cuidar do meu filho e cuidar de mim, prosperar em mim, né? Porque graças a Deus eu prosperei com a minha família, agora eu preciso prosperar comigo. Então é hora de realizar os sonhos do Jonathan. Então 2026 vai ser um ano de muitas realizações, não só pra mim, mas pro meu filho também e logo pra minha família. Quero muito voltar pra TV, quero muito! Já vou fazer cinema no ano que vem, mas também quero voltar pra televisão. E eu tô na ViU – agência de marketing de influência da Globo – e sei que podem me proporcionar muitas possibilidades. Quero criar um canal no YouTube, para lançar um podcast e poder trocar ideia com meus amigos aqui na minha laje, enfim, um mar de possibilidades. Possibilidades para 2026 e muito grato por tudo, tudo, tudo! 

Fotos @hugobarbieri / Styling @castanheiras