Ele é fera no teatro, TV e cinema. Caco Ciocler é o tipo do ator que já fez de tudo um pouco, de vilão a mocinho, de galã a fazendeiro. Premiado no teatro, Caco fez sua estreia na TV em 1996, não por acaso do mesmo autor Benedito Ruy Barbosa, autor também de seu mais recente trabalho na TV, Pantanal. “Se eu imaginava tudo isso? Sim e não. Lembro-me de sonhar em segredo, nos escuros da intimidade, com uma bem sucedida carreira sim, como fazemos todos, imagino”, comenta Caco ao longo dessa deliciosa entrevista exclusiva para a MENSCH. Sua participação em Pantanal já acabou, mas vem mais Caco por aí, dessa vez no streaming, como diretor.

Caco, desde sua estreia na TV até hoje, já se vão 26 anos de carreira, não é isso? Imaginava todo esse sucesso? Tudo tem saído conforme esperava? Minha estreia na TV foi em O REI DO GADO (1996), fazendo o Geremias Berdinazzi na primeira fase da novela, papel assumido depois pelo saudoso Raul Cortez. São 26 anos desde a estreia televisiva sim, mas que ocorreu já com uma longa trajetória no teatro amador, alguns prêmios no teatro profissional e minha formação na Escola de Arte Dramática, em São Paulo. É simbólica essa pergunta agora, quando termino Pantanal, escrita originalmente pelo Benedito Ruy Barbosa, mesmo autor da novela de estreia. Parece o encerramento de um ciclo. Se eu imaginava tudo isso? Sim e não. Lembro-me de sonhar em segredo, nos escuros da intimidade, com uma bem sucedida carreira sim, como fazemos todos, imagino. Mas sempre acompanhado de muita angústia, a angústia da probabilidade daquilo não passar de um sonho. Além disso, nunca incluímos nos sonhos os fracassos, tão presentes, tão constantes e necessários à construção de qualquer carreira sólida. Se tem saído conforme eu esperava? Sim e não também. Às vezes, me emociono quando realizo o fato de que vivo disso há tanto tempo, quando penso com quem trabalhei, com quem já dividi um palco, um set, as obras que fiz…um privilégio. Mas, às vezes, me angustio, e muito, porque vivemos um tempo difícil para a arte, não só politicamente, mas principalmente pela necessidade cada vez maior de preenchimento de todo e qualquer espaço. Desse equívoco das certezas absolutas, dessa binariedade imbecil. A arte nasce justamente nas fendas entre as certezas, mas andamos ávidos justamente pelas afirmativas, pelo lacre, ávidos por negar as fendas, ávidas pela distração. E se você não se rende a essa lógica, se não participa dela, vai ficando difícil sobreviver. Mas aí essa angústia vira assunto, vira filme, vira peça, vira ideia, e tudo volta a fazer sentido. 

Podemos dizer que você é um ator “de tudo um pouco”. De vilão a mocinho, de senhor a playboy saradão. Se diverte com essas muitas mudanças (inclusive físicas)? Me divirto, e muito. Afinal, esse é o ofício do ator. Por outro lado, sei que conforme o artista envelhece, desenvolve uma linguagem própria, uma singularidade expressiva. Por exemplo, se você pensa num Picasso, num Van Gogh… Dedicaram a vida para entrar em contato, para investigar e desenvolver uma linguagem própria, um assunto particular e uma forma particular para expressá-los. Eles continuariam sendo absolutamente capazes de pintar qualquer coisa, de fazer um quadro realista, por exemplo, mas nem tudo mais os interessa. O que interessa passa a ser mergulhar numa visão particular de mundo, numa tradução particular de mundo daquilo que enxergaram e escolheram pintar. Então, sim, me divirto em viver “de tudo um pouco”, mas não pelo malabarismo em si, mas para que possa investigar em mim uma tradução, uma opinião particular de mundo, através da vivência de uma pluralidade cada vez maior de existências.

Consegue citar alguns desses personagens que marcaram sua carreira e que você tem orgulho de ter feito? Sei que pode parecer uma resposta diplomática, mas a verdade é que tenho orgulho de todos. Absolutamente todos. Personagens são oportunidades de olharmos para dentro de nós mesmos, esse é o grande barato sagrado desse ofício. Cada um deles me veio num momento específico da vida, claro, e me serviu para enxergar ou experimentar determinadas especificidades importantes de serem experimentadas naqueles momentos. Mesmo quando só entendia isso muito tempo depois. Inclusive quando experimentei fracassos. Mas posso, claro, citar alguns personagens que, por exemplo, redirecionaram minha carreira na TV, como o próprio Geremias Berdiazzi, que me rendeu o prêmio do críticos paulistas de arte de ator revelação daquele ano. Bento Coutinho, de A MURALHA, Dom Miguel, de O QUINTO DOS INFERNOS, Ed Talbot de AMÉRICA, Renato, de PÁGINAS DA VIDA e, talvez, Edgar, de SEGUNDO SOL. Na TV fechada, o Dr. Paulo, de UNIDADE BÁSICA. No cinema BICHO DE SETE CABEÇAS, QUASE DOIS IRMÃOS, OLGA, DISPAROS, ELIS, O BANQUETE. No teatro, EQUUS, REI LEAR, IMPERADOR E GALILEU, ALDEOTAS, A TRAGÉDIA E A COMÉDIA LATINO AMERICANAS, 45 MINUTOS, A CONSTRUÇÃO e SELVAGERIA.

Que tipo ainda falta? Quem em o que você ainda deseja interpretar? Falta muita coisa, falta tudo. RICARDO III e REI LEAR, para falar dos clássicos. Revisitar 45 MINUTOS, ALDEOTAS. Um ALBEE…Neste ano fiz um filme musical, onde canto e danço – experimentei essa maluquice, mas amaria fazer outras vezes… Um super vilão de época que também filmei  neste ano – são sempre muito bem vindos… Uma mulher…Enfim, personagens não são tipos, são existências, então (quase) todos me interessam. Adoraria poder refazer todos também. Uma segunda chance, já que vamos ficando cada vez melhores. Mas não sei se vai dar tempo. (risos).

Qual o maior desafio e o maior barato em ser ator? Se vê em outra profissão? Como disse, para mim o maior barato é a possibilidade de encarar cada trabalho como uma oportunidade sagrada para revisitar-me e, assim, reinventar-me. Cada personagem te exige movimentar, alimentar uma musculatura emocional, psíquica e sensorial diferente, uma nova lente de entendimento do mundo. Talvez, por isso, nos coloquemos tanto no lugar do outro, esse é o nosso exercício, esse é o nosso ofício. Talvez, por isso, desenvolvamos a tal da empatia. Essa palavra que tem sido tão virada do avesso. Outra profissão? Sim, me vejo como biólogo, estudando células.

Atores veteranos são de uma geração para quem o ofício de ator já era o suficiente. Por outro lado, temos uma nova geração de atores que procuram empreender por outros mercados. Como você enxerga isso? Sempre acreditei e defendi a ideia de que conquistar independência financeira possibilita mergulhos artísticos mais ousados a longo prazo. Como fui pai muito jovem, essa questão de conseguir um sustento minimamente garantido e confortável pesou muito, lá no início da carreira. Se não tivesse conseguido essa garantia mínima, talvez estivesse até hoje à mercê de trabalhos que prometessem, esse retorno financeiro, que garantissem minha sobrevivência e a do meu filho, mais do que uma investigação artística propriamente dita. Se não fosse essa garantia, talvez não tivesse podido ficar mais de dez anos em companhias de teatro, investigando linguagem, fazendo monólogos experimentais, talvez não tivesse arriscado tanto, dirigido meus dois últimos filmes, que produzi com dinheiro de meu bolso. Se não tivesse sido pai tão cedo, talvez isso não pesasse tanto.

Enfim, cada um tem sua história e sabe onde o calo aperta. Se você é um artista, tudo o que deseja é poder viver de sua arte, claro, esse é o sonho, mas talvez isso não seja sempre possível, ou não seja possível para sempre. Então, para manter a própria independência e sacralidade de suas escolhas na arte, talvez seja inteligente garantir sua sobrevivência e independência financeira de outra forma. Por outro lado, alguns dessa geração anterior que você cita, alguns da minha geração, conseguiram isso fazendo apenas arte. Mas essa conquista não acontecia rápido e quase nunca cedo. Sempre fomos precavidos no sentido de não embarcarmos num padrão de vida que depois fosse difícil sustentar. Ou, que para sustentar, precisássemos abrir mão de certos princípios e interesses. A gente queria garantia e conforto suficientes para poder continuar fazendo, só isso. Alguns dessa geração mais nova, ganharam muito dinheiro, muito dinheiro, em muito pouco tempo de carreira. Se souberem reconhecer esse privilégio e manter essa garantia financeira, da forma que quiserem, em nome de continuar fazendo escolhas que os instiguem artisticamente, ótimo. 

Hoje com a tendência do fim de longos contratos com as TVs e o surgimento de novas possibilidades no streaming dá mais incerteza ou possibilidades? Claro que para quem tinha um contrato longo, perde-se garantias e confortos, mas quem disse que garantia e conforto são combustíveis para o artista? O artista precisa de movimento. E o conforto pode enchê-lo de covardia e preguiça. Então, te diria que sim, provoca incertezas e, justamente por isso, possibilidades.

Ao longo da carreira você já se sentiu rotulado? Sempre. Mas isso é uma besteira, uma demanda que vem sempre de fora. A gente não pode acreditar. Vira e mexe eu escuto “Por que você só faz papel de bonzinho!” e eu penso, como assim? O que essa pessoa tem visto? Essa pessoa viu as coisas que fiz? Mesmo que nunca tenha visto uma peça comigo, ou um filme, tá reprisando agora na TV uma novela onde faço um canalha?! Aí dobro a esquina e outro alguém pergunta: “Por que você só faz papel de gente ruim?”. É uma demanda preguiçosa, imediatista e histérica. Algumas pessoas realmente acham que o mundo é a tradução exata daquilo que viram ou experimentaram dele. É uma coisa auto-centrada, arrogante mesmo. Agora, quando isso vem de uma diretora ou diretor, de um ou uma colega, aí é triste, porque expõe sua própria covardia e preguiça. Expõem sua própria necessidade neurótica de categorizar o outro e, assim, aprisioná-lo, contê-lo. E não tenho vontade nenhuma de trabalhar com gente preguiçosa e covarde.

Falando disso, você sempre fugiu do rótulo de galã. Como você vê isso? É um “elogio” que termina sendo uma prisão? No início de carreira isso era uma questão sim, porque naquela época “deixar” o teatro para fazer TV era algo que te rotulava mesmo. Eu queria que as pessoas me vissem como um bom ator, e não alguém que foi para a televisão pelos dotes físicos. Era uma preocupação de como as pessoas que não me conheciam me enxergam. E os galãs daquela época, via de regra, eram personagens mais chatos. Hoje sei que dá para ser galã se o personagem pedir por isso, porque é muito mais uma questão de energia do que de beleza propriamente dita. Mas nem todo personagem pede isso. Brinquei de ser galã algumas vezes e deu certo, deu certo outra vez aos cinquenta, porque achei que fazia sentido para o personagem, mas isso não quer dizer que vá imprimir essa energia sempre.

No ano passado você completou 50 anos. Como você encarou esse fato? Mudou algo em sua mente? Como se sente aos 50? Olha, não tem sido fácil, não. Sério. Para mim foi um ponto de virada, muito forte. Ainda não consigo elaborar direito o porquê, porque estou ainda no olho do furacão. Não sei quanto tempo isso vai levar. Não tem nada a ver com idade, com ficar velho, nada disso, nunca me senti tão bem. Sempre quis envelhecer. É outra coisa. E é muito forte. Mas não tenho a menor condição de falar disso agora. (risos). Não faço ideia do que esteja acontecendo comigo.

E como foi encarar o papel de avô tão cedo? Aliás, ser pai e avô veio cedo para você, né? Pois é, ser pai foi um tremendo susto. Então, quando vi no olhar do meu filho o mesmo susto, senti compaixão. Eu tinha acabado de escrever um livro, chamado ZEIDE, que passeia por cinco gerações paternas de minha família, terminando no meu filho. Quando escrevi o último capítulo, brinquei com a possibilidade de ser avô. Meu filho foi ao lançamento do livro, onde descobriu do que se tratava. Chegando em casa me disse: “Pai, eu não ia falar nada para não atrapalhar sua noite, mas agora que entendi sobre o que é seu livro, não tenho como dormir sem te contar que vou ser pai!” Eu olhei para aquele olhar cheio de dúvidas e respondi, depois de um longo silêncio: “Filho, não sei como responder a isso agora”. Demos um abraço demorado e fomos tentar dormir. Para mim, o grande barato dessa história não é ser avô, mas assistir meu filho sendo um pai.

Falando em papel… seu trabalho mais recente foi o Gustavo de Pantanal. Um personagem visto como uma “bomba” mas que você soube desmontar com maestria. Como foi encarar esse desafio? Não sei se o personagem era uma bomba, eu via beleza nele, tinha compaixão pelo Gustavo. O problema é que diante da beleza, do tempo, da grandeza humana do Pantanal, seus dramas podiam soar pouco interessantes. É um personagem criado para cumprir uma função muito específica, que é a de ser um contraponto, de cara menos poderoso, para a paixão avassaladora da Madeleine pelo José Leôncio. Então, é um personagem cuja vida independente não interessava muito. Tanto que na versão original, simplesmente sumiu quando Madeleine deixou a trama. O Bruno, que reescreveu a história, tinha consciência disso, da dificuldade que foi e que seria outra vez, fazer equalizar o interesse do público pelo núcleo carioca diante da potência do Pantanal. Ele me disse isso, pediu que eu o ajudasse com isso na minha co-criação. Talvez se o Gustavo fosse protagonista de uma série, por exemplo, pudesse render um personagem super curioso, mas diante do Pantanal e da profundidade de seus dramas, a tentativa sempre foi explicitamente algum malabarismo para tentar deixá-lo minimamente interessante. E foi o que Bruno e eu tentamos fazer.

O Gustavo é um terapeuta comportamental, mas que no fundo não conseguia nem cuidar de si, de suas escolhas. Tem como defender esse cara? (risos) (risos) Pois é! Mas imagina que insuportável seria se, além de dar seus conselhos, ainda fosse bem resolvido. As contradições são bem vindas. Os grandes personagens sempre foram cheios delas. As grandes vidas sempre foram cheias delas. Dr Paulo, o médico da atenção primária que faço na série UNIDADE BÁSICA, é assim também – um excelente médico humanista, capaz de entender como ninguém a alma de seus pacientes, mas completamente inábil para gerir a própria vida. São personagens interessantes esses, a questão do Gustavo é outra. É  um personagem criado para cumprir uma função, como disse, um contraponto  de cara menos potente. As contradições, sua existência, no fundo, muito pouco importavam, pouco serviam, estrategicamente à trama. Então, minha única chance era essa mesma, de expor suas contradições, de não deixá-las passar batidas, ajudando, assim, a criar motivos para que o público pudesse se interessar minimamente por ele, por alguns de seus dramas pessoais, independentes da Madeleine. Eu sempre defendi o Gustavo, com todas as minhas forças. Por outro lado, e isso não é segredo para ninguém, a primeira fase da novela foi bastante cortada, reduzida, e era ali que a relação obsessiva dele pela Madeleine era construída, relação essa que sustentaria toda a complexidade do reencontro tantos anos depois. Além disso, o construiu como um cara observador, com longos silêncios, reflexões, mas a novela precisava andar, o núcleo carioca precisava ganhar agilidade, aí vem a edição e corta tudo isso, todos os tempos… (risos)…claro, porque os “tempos” eram do pantanal. Então, essa minha defesa do Gustavo também foi modificada. 

Daqui pra frente, foco no cinema e streaming? O que vem por aí? O foco não muda, continuará sendo meu desenvolvimento como artista, continuará sendo o teatro, o cinema, a direção, o streaming (onde também já dirijo)… Vou onde houver desafios interessantes, que me desassossegam. Estou na minha melhor fase, acredite. 

Qual sua maior vaidade (como homem e como ator)? Como homem acho que é engraçado, como ator, sentir o domínio do tempo em cena.

Quem é Caco Ciocler hoje? E como se vê daqui a 10 anos?  Hoje, um homem inquieto, confuso, mas sereno como nunca. Como me vejo daqui a dez anos? De óculos! (risos)

Desde já obrigado pela atenção e disponibilidade. Mais sucesso! Obrigado vocês pelas perguntas tão instigantes. Sucesso para todos nós! Beijos

Fotos Edu Rodrigues 

Beleza Dani Kobert

Looks AD LIFE

Agradecimento Zany Assessoria

Agenciamento Montenegro Talent

Assessoria de imprensa Julyana Caldas