CAPA: CACO CIOCLER, UM CHARME A MAIS EM “VALE TUDO”

Caco Ciocler é daquele perfil de ator que abraça um personagem de uma forma que parece ser a primeira vez na vida. Ele consegue imprimir sua marca seja para que tipo for independente do tamanho que o personagem tenha. Foi assim recentemente na TV com seu Estéban em Vale Tudo, personagem que na versão original não existia e que com poucos capítulos conquistou público e crítica. Prova disso é que o personagem voltará para ficar até final da trama. E tem sido assim ao longo de sua carreira na TV, cinema e teatro. Teatro onde mora sua alma de ator. E falando nisso, Caco esteve em cena com “A Mulher da Van”, ao lado da Nathália Timberg por duas temporadas em SP e já prepara para pegar estrada com a peça. No cinema ele anda em alta com diversas produções à caminho, e se tudo ocorrer como esperado, estará marcando presença nos festivais. Caco Ciocler é isso, talento, entrega e uma discreta inquietação que o move para muito longe ao traduzir em momentos marcantes a alma humana.

Caco, você acabou de interpretar Estéban em Vale Tudo. Um personagem que não existia na versão original. Como encarou o convite e como foi participar? Pois é, o convite já veio com esse aviso: Por ser um personagem não existente na versão original, não sabemos como o público vai reagir. Foi um “atrevimento” corajoso da Manuela Dias (autora da novela) diante de tanta comparação entre as versões. O público poderia gostar ou rejeitar a novidade. Então, você pode imaginar a alegria de ter sido chamado para viver essa aposta. Parece que deu certo, acabei de saber que Esteban volta para a reta final da novela. Eu amei participar, revi amigos, conheci gente maravilhosa, com quem não havia trabalhado ainda, munido da responsabilidade da aposta, mas, ao mesmo tempo, leve por não precisar entrar no jogo cruel de comparação que, à época, ainda pairava no ar. Feliz de dizer o texto da Manuela, com quem nunca tinha trabalhado, de ter sido tão gentilmente cuidado pelo Paulo Silvestrini, diretor geral, que também não conhecia, por toda a equipe da novela e, principalmente, por minha parceria de cena. Jogar com a Malu Galli é um sonho.

O Estéban trabalhava com o mercado de arte. É um universo muito distante de você? Fez alguma preparação especial para o trabalho? Não, porque as cenas não pediam nenhum conhecimento do assunto. A preparação foi interna mesmo, de ator, ouvindo o que o Silvestrini esperava da energia desse cara, com consciência absoluta de que Esteban entrava em cena com um objetivo bastante específico, o de trazer alegria e segurança à Celina. Despertando nela o vislumbre de uma vida feliz possível, longe do jogo abusivo da irmã. Mas não foi fácil, ele tem uma sofisticação de berço, difícil de reproduzir. Além de uma segurança e autoestima muito longes das minhas.

Na trama você viveu um romance conturbado com a personagem Celina, uma mulher insegura e manobrava pela irmã que terminou sendo injusta no final do relacionamento. Como foi contracenar com Mali Galli e Débora Bloch? Débora eu já conhecia, havíamos vivido um casal em “Caminho das Índias”. Sempre foi um doce de pessoa, talentosíssima. Mas claro que contracenar com Odete Roitman tem outro peso. Tivemos poucas cenas, talvez duas ou três, sempre com algum grau de enfrentamento porque Esteban era um dos poucos personagens que não se sentiam ameaçados por ela. Então, era a delícia de brincar de bancar Odete. Malu tive muito mais cenas, e foi a primeira vez, um encanto. Tudo o que a gente quer encontrar no trabalho é um(a) parceiro(a) de cena com a escuta aberta e corpo pronto pro jogo. E Malu é a tradução desse sonho de consumo.

Trabalhar por obra é algo que dá mais liberdade para o ator. Você mesmo tem estado a alguns projetos para o cinema, algo só possível com a disponibilidade do ator. Como você enxerga isso? Fui contratado fixo da emissora por vinte e cinco anos, e isso nunca me impediu de fazer teatro ou cinema. Ao contrário, a Globo, por muito tempo, olhou com bons olhos e apoiou o fato de seus talentos buscarem aprimoramento e estudo. O que mudou, claro, foi a chegada do streaming. Não fazia sentido manter fixo um elenco cujos filmes passaram a ser exibidos na concorrência. Foi um movimento natural, de mercado. E, claro, todo movimento trás consigo acertos e erros, vantagens e desvantagens. Perdemos uma segurança financeira que, no meu caso, servia para conseguir produzir filmes autorais e fazer peças que me interessavam sem precisar pensar em bilheteria, mas perdemos também certa acomodação dentro da própria emissora, que um contrato fixo pode causar. Ao mesmo tempo, ganhamos liberdade, ânimo e perspectivas novas de caminhos. Foi assustador no começo, claro. Afinal, como disse, foram 25 anos acostumados com um estilo. Mas, passado o susto, o saldo foi extremamente positivo.

Falando em cinema, para este ano você está em três produções e já prepara mais duas para 2026. O que podemos esperar dessa temporada de cinema? Tudo vai depender de os filmes serem ou não selecionados para os grandes festivais. Isso determina um pouco a agenda de seus lançamentos. Mas a expectativa é que esse ano ainda estreiem “Overman”, filme baseado no super-herói brasileiro criado pela Laerte, dirigido pelo Thomás Portela; “Descontrole”, protagonizado pela Carolina Dieckmann e dirigido pela Rosane Svartman, ambos produzidos pela Iafa Britz; “Orelha de cão”, dirigido pelo Murilo Salles; “Resta um”, dirigido pelo Fernando Ceylão e a versão brasileira de “O quarto do Pânico”. Além disso, se tudo der certo, ainda consigo lançar esse ano o terceiro longa metragem da trilogia política que dirigi, “Eu não te ouço”, que está em fase de pós-produção.

Você é um ator com quase tantos filmes para o cinema quanto projetos para a TV. Isso sempre foi um desejo seu ou foi acontecendo de acordo com os convites? Quando estreei profissionalmente, fazer cinema nos soava uma possibilidade bastante remota, um sonho que remetia a um tempo passado. Então, quando vieram os primeiros convites, fui logo ver o que era aquilo. E o cinema me abraçou forte, fiz muita coisa em muito pouco tempo. Acertei, errei muito, não sabia fazer aquilo. Aceitar os convites era chances de aprender, experimentar, achar um caminho. O cinema era uma coisa cara, rara. Me perdia, ma achava, me perdia outra vez. Hoje a coisa mudou bastante. A TV (com algumas exceções, claro) foi ficando mais cinema, o cinema (com algumas exceções, claro) foi ficando mais TV. Fui entendendo como lidar com esse universo onde não consigo exercer controle, nem do meu próprio trabalho, e fui aprendendo a gostar disso. 

Podemos dizer que cinema é o onde se sente mais em “casa”? Não, minha casa é o teatro. O cinema são viagens esporádicas para lugares exóticos e a TV, uma casa alugada na serra.

Já fazia algum  tempo que você estava longe dos palcos, ou estamos por fora?… Tem planos para algum novo projeto para o teatro? Sinto dizer, mas estão por fora. (risos) Estou em cena com “A Mulher da Van”, ao lado da Nathália Timberg, aos 96 anos de idade. Acabamos de fazer duas temporadas de muito sucesso em SP e, agora, começando a viajar. Para o ano que vem, preparo um sonho antigo, para comemorar meus 30 anos de carreira, mas é segredo, ainda.

Você sempre pareceu ser um cara tranquilão. É isso mesmo ou disfarça bem? (risos) Disfarço bem.

Onde recarrega as baterias e onde descarrega? Recarrego no trabalho e ao lado da minha família, descarrego em estacionamentos de shoppings.

Quais suas vaidades? Do que não abre mão? Isso vai mudando conforme a gente envelhece. Hoje, não abro mão do humor, de um conforto básico e do respeito.

Quais os desejos para um futuro próximo? Desejo que as pessoas abandonem cada vez mais as redes sociais ou, ao menos, sua lógica burra de pensamento binário. Desejo um mundo mais pacífico (mas acho que o primeiro desejo  já ajudaria muito o segundo), cachorros, quem sabe um filho, uma casa na árvore, estudar japonês, arquitetura, escultura e piano.

Fotos Priscila Nicheli

Styling Samantha Szczerb 

Agradecimentos Amil Confecções, Angelo Bertoni, Democrata e Oficina