Que 2020 foi um ano difícil em vários sentidos, isso todo mundo já sabe. Mas sem dúvida foi um momento especial para quem soube aprender com tudo isso e se reinventar. E um alento no meio de tudo isso foi o que surgiu nas artes e via internet chegou até nós. O humor nunca foi tão importante como aliado nesse período de pandemia. E aí que (re)surgiu Eduardo Sterblich, só que dessa vez dominando as redes sociais com o seu “Sterblitch, não tem um Talk Show: O Talk Show” e seus memes que foram surgindo. O cara já é um velho conhecido do público, com passagens pelo “Pânico”, “Amor & Sexo” e até novela (“Éramos Seis”). A sua simplicidade e naturalidade, mesmo sendo sério, nos traz uma afinidade que parece que somos conhecidos de longas datas. E com muito orgulho encerramos esse ano pesado de uma forma leve, com uma capa divertida e uma entrevista gostosa de ler, simples como Edu (já nos sentimos íntimos do cara!).

Eduardo, é difícil para você ser levado à sério quando todo mundo acha que você é um cara engraçado 100% do tempo? Você é seu pior pesadelo? (risos) Eu levo a sério questões da minha vida, óbvio! Mas eu não me levo a sério, não levo o meu artista a sério não. Tem vezes que é óbvio que você leva a sério, mas é importante levar, para que você consiga estabelecer alguma coisa que você queira estabelecer. Quando você vai fazer uma peça, você precisa levar aquilo ali à sério né!? Mas eu não me levo a sério, e acho também que as pessoas não me acham 100% engraçado. Pelo contrário, hoje em dia a maioria não me acha engraçado. Pra ser engraçado é mais fácil quando ninguém te acha engraçado, que você surpreende. A comédia está nesse lugar do susto né? Então, quando a pessoa é muito engraçada sempre é mais difícil ela ser engraçada, pelo fato dela ser engraçada sempre, então todo mundo já espera isso dela. Imagine só uma história que não tem nada de engraçado é do nada surge algo engraçado, aquilo ali fica muito mais engraçado do que é. 

Em entrevistas você já comentou que no dia-a-dia é um cara sério. É isso mesmo? E o que te tira do sério? Eu sou bastante sério, mas eu não sou aquele cara fechado. A minha cara, normalmente, é aquela cara do 3×4 mesmo, sabe!? Da foto de 3×4 que tem uma cara nula, essa é a minha cara normal. Porque o que me tira do sério são as coisas muito banais, simples da vida. As minhas questões são muito simples, e todo dia eu penso nelas. Então a vida me tira do sério, porque eu não sou vida e morte, a minha questão é vida e morte todos os dias. Preciso de mais paz de espírito. 

2020 foi um ano difícil, mas para você foi um ano bem especial. Você foi um dos grandes destaques desse momento online em que vivemos. Em especial com o sucesso do “Sterblitch, não tem um Talk Show: O Talk Show”. Foi surpreendido com esse sucesso nas redes? Como foi isso pra você? Está sendo bem difícil né!? Mas quanto mais difícil mais especial fica. Nem sempre o especial é só positivo né? O Brasileiro inclusive tem esse talento de achar como ser especial na tragédia né? Como ser criativo na dificuldade. O programa é mais ou menos isso, a gente conseguiu ser criativo em uma dificuldade. Conseguir se comunicar com as pessoas e poder levar alegria e principalmente poder ouvi-las no momento onde está todo mundo encantado com seu inferno, foi um momento muito importante que surpreendeu a gente sim. Mas eu fiquei muito surpreso, na verdade, com a nossa evolução. O programa começou de uma jeito e foi evoluindo com o tempo. Achamos um jeito de uma coisa caótica funcionar, fiquei muito orgulhoso disso. Antigamente eu achava que era só o caos e agora nós conseguimos organizar ele. Nada como uma equipe brilhante. 

Falando no “Sterblitch, não tem um Talk Show: O Talk Show”, o que é mais difícil em fazer ele e onde é mais divertido? O mais divertido é fazer ele como se fosse fazer em família né!? Com amigos de infância, meu amigo, melhores amigos, pessoal da equipe que admiro. E tendo uma credibilidade grande de estar em um veículo tão grande que é o GloboPlay, tendo essa parceria do GShow. Tudo isso é muito divertido fazer. A parte mais difícil é ser o guia, responsável em guiar o espectador. Então isso é muito difícil, porque é muito mais divertido quando não se tem uma responsabilidade, do que quando se tem. Então o programa pra mim, não tem a responsabilidade da televisão, isso é muito mais divertido, mas o pior é que eu tenho que fazê-lo. Então esta é sempre a parte mais tensa né, de conseguir guiar e ser um bom apresentador que eu não sou. 

Você é um bom espectador de si mesmo? Se diverte com você? Como é sua autocrítica? Eu preciso me assistir né!? Até para editar e compor personagem eu preciso me olhar, não tem outro jeito. Mas não seria meu fã não. Mas me divirto comigo, porque sei que faço com coração e é genuíno o que estou fazendo. Então se der errado fui eu, prefiro fazer o mais autêntico possível e saber o mais cru do que realmente vem da alma do que ficar calculando muito. Porque se der errado e, eu calculei muito a probabilidade de dar errado, é grande se eu errei pelo meu coração e que era para dar errado mesmo. Parece mais saudável, sabe? Morri feliz mas morri feliz e não morri suando. 

Pra quem vê de fora imagina que você deve ter sido uma criança bem traquina. Como era o Eduardo na infância? Deu muito trabalho? Eu sempre fui uma criança muito quieta. Eu sempre joguei a energia mesmo nas apresentações para família. Eu descobri há pouco tempo na terapia que eu tive depressão, quando eu era criança. Não sei exatamente explicar o porquê. Mas eu me lembro que desde pequeno eu faço brincadeiras de teatro, interpreto, grito, canto e danço. Eu sou este maluco aqui desde sempre. 

E que história é essa que você estreou no teatro aos 3 anos? Ou isso é fake news? (risos) Não, não estreei no teatro com três anos. O teatro estreou em mim nesta idade. A minha tia dava aula no teatro Tablado, minha tia avó Maria Vorrise.  Minha mãe tinha aula com minha tia e minha vó dava aula de voz no Tablado. Tablado pra quem não sabe é um curso livre de teatro aqui no Rio. E eu fui fazer o curso de teatro na Laura Alvim, por que o Tablado não tinha curso de criança na época, eu era muito muito criancinha. Então na verdade eu comecei a praticar a brincadeira do teatro com três anos de idade sem ser sozinho. Então com toda certeza vou morrer fazendo isso, mesmo que seja sozinho. 

Muita gente hoje conhece você da TV e da internet, mas você veio do teatro. Como foi essa transição até chegar na TV? Foi em uma ida pra São Paulo, eu estava em um elenco de uma peça onde toda galera que fazia era muito conhecida do pessoal do Pânico, eles iam na rádio etc. A galera do Pânico ia assistir a peça e era muito divertido, eram os Desnecessários com Paulinho Serra, Maíra Charken, Rodrigo Capela, Miá Mello foi uma peça que fez muito sucesso pelo Brasil e era uma peça que meio que tinha vindo da internet. O Paulinho tinha feito um personagem que fez muito sucesso que era um traficante gay, isso agregou muito público para peça e chamou atenção do povo do Pânico e como estava saindo gente do Pânico na época e a galera do programa que estava vendo a peça acabou chamando todo elenco da peça para participar ou fazer partições no programa, e acabou que fui ficando. Rolou de eu participar do Pânico, a gente se gostou muito. A gente achou uma psicopatia em comum, e aí começou a dar certo, pela liberdade que eles me davam de criação, a quantidade de personagem que eu era obrigado a fazer, porque tinha muitos quadros e a gente mesmo que criava. Então o Pânico me ensinou a fazer televisão, foi meio que uma missão, eu tinha que ter feito o Pânico, foi o universo que conspirou e ali que eu aprendi a rapidez das coisas, de como a televisão é cruel, os números, Produção, o valor dela etc. Vamos dizer que o Pânico foi meu Tablado da televisão. 

Do Freddy Mercury Prateado do “Pânico”, até o Zeca de “Éramos Seis”. Como avalia sua trajetória até aqui? O que destaca e o que descarta (se possível)? Eu sou obrigado a deixar o público avaliar sempre. Se não, minha avaliação acaba sendo leviana. Mas eu trabalho muito, para que o público avalie a minha trajetória de uma jeito positivo. Eu quero mostrar que eu posso jogar nas onze quero mostrar que sei fazer várias coisas, quero mostrar que eu estudo muito pra isso que sou muito dedicado e que podem contar comigo para divertir e principalmente para emocionar, provocar e para sair do lugar comum.

Na TV você também passou um tempo na bancada de “Amor & Sexo” e se jogou sem pudores. E aí, sofreu muito ou foi só prazer? Eu me jogo sem pudor em tudo. É o que me resta mesmo. O “Amor e Sexo” foi uma escola de cidadania pra mim, uma escola onde eu percebi que eu não era somente um artista ali eu também tinha uma responsabilidade como cidadão. Eu não sabia de nada como cidadão, eu não sabia 1/3 da profundidade das coisas que estavam acontecendo. Eu tinha noção da minha ignorância mas eu não tinha a noção que eu era tão ignorante. Então, “Amor e Sexo” me ensinou muita coisa, consegui criar muito lá. Já escrevi inclusive para o “Amor e Sexo”. Na primeira temporada que eu participei eu pude participar também escrevendo. O trabalho que não te ensina muito, que não tem este trabalho de ensinamento sabe, não tem muita graça, muito sentido. 

Dentre as pérolas desse ano, veio o sucesso do meme da “Cabeleireira Leila”. Isso sem falar dos “comerciais” do seu programa. O negócio é esse tirar onda do que está na boca do povo e devolver pro povo? Como foi isso? O objetivo sempre é o povo, sem o povo nada disso faz sentido, nada disso importa. Em questão da Cabeleleira Leila na verdade faz parte do conceito do programa, como não temos comerciais, como somos um fracasso, nós mesmos criamos o nosso sucesso, nossos comerciais, nós somos os nossos próprios anunciantes. Isto foi uma ideia conceitual do programa e deu muito certo, que essa coisa da responsabilidade de ser um programa. Nós não somos um Talkshow, não temos um programa, isto deixa a gente ser a internet. E foi muito legal ver que a gente conseguiu, conseguimos entrar para um hall dos memes interessantes que se vê na internet. Conseguir entrar para este hall é impossível, pelo fato da internet fazer isto a todo segundo, então a gente conseguir fazer uma coisa que tem uma certa importância nesse hall, já é um orgulho muito grande. O programa foi feito para a internet. 

Edu, e como foi achar o tom do Enzo, protagonista da série “Shippados” (Globoplay), que era um cara sério, sem grandes rompantes de humor, mas era um cara sério? A minha grande pira é a composição de personagem e o meu sonho de criança. Quero poder compor milhões de personagens até eu morrer, para todo mundo lembrar quem sou eu. No caso do Enzo foi muito legal achar o tom dele, por ter achado o tom junto com a equipe e o elenco durante o processo. Como a equipe e o elenco são muito criativos, o erro era divertido, o acerto era divertido, e a gente conseguiu chegar num lugar juntos. Então a gente foi criando os personagens juntos, um personagem foi criado junto com o outro. Isso ajudou muito a gente. Quanto mais despudor, preocupação de se errar, mais o processo fica interessante, mais coisas você acha e mais o personagem fica composto e mais interessante. Eu acredito que é assim é cada vez eu foco mais nisso, em errar, errar no processo.

Quais suas referências do humor no passado e na atualidade? Ah, não dá para falar… Não dá para falar qual é a referência porque é todo mundo. Agora tem até humorista do TikTok, tem gente que é genial. Então, você tem de realmente abrir para todo mundo, botar todo mundo na antena e colocar dentro de você. Ser um pouco de todo mundo. Tem muita coisa. É o momento de se abrir, não de se fechar. Até quem eu não gosto, é minha referência.

Existe um pouco de Oscarito e Didi dentro de você por acaso? Existe sim, um pouco de Oscarito, Didi, mas principalmente Dedé.

Dentro do humor existe algo proibido ou não favorável de se falar? Todo o assunto é possível. Desde que você tenha talento para falar daquele assunto. Porque falar, todo mundo pode falar. A questão é ter de entender. E responder o que você tá falando, independente do que você for falar. Principalmente, se for um crime. Mas você pode falar, você pode fazer o que quiser, é o livre arbítrio.

Onde busca inspiração? Busco inspiração em que eu assisto, sempre foi assim. Peça, filme, série, livro, qualquer arte… Uma pessoa declamando uma poesia… Tudo isso me inspira. Até uma coisa ruim. Vejo peça ruim, me inspira muito, penso: “Humm, queria fazer uma coisa ruim!”. Vou para casa e escrevo uma peça ruim.

E onde curte relaxar? Relaxar, eu não consigo.

O que curte ler, ver e ouvir? Tô ouvindo muito Janis Joplin. Ouço Janis Joplin agora e já basta. Ou você coloca um Jorge BenJor aí, ou você coloca o bom e o velho, Raça Negra. Adoro ler peças. Gosto muito de ler peças. Então, tô lendo muita peça. 

Dá algumas dicas para os leitores. Sugiro ler uma peça do Lonesco chamada “O Rinoceronte”. Tem tudo a ver com o que tá acontecendo com a gente agora.

E para 2021, o que podemos esperar? Ou pelo menos, desejar para o novo ano (além da vacina)? Espero só que em 2021 a gente tenha a misericórdia de Deus. Que Deus seja misericordioso com a gente. E que a gente ache o melhor dentro de nós. E rápido. Pois não temos muito tempo.

Fotos Vinicius Mochizuki

Styling Milton Castanheiras