CAPA: SAMUEL DE ASSIS É PURO DESTAQUE NO HORÁRIO NOBRE E NA BEIJA-FLOR

Quem acompanha a trajetória de Samuel de Assis percebe que seu talento se estende para além da atuação. Isso sem falar do samba no pé que todo ano ele demonstra ao pisar na Sapucaí. Mas um talento em agregar pessoas, contagiar pessoas com seu astral e simplicidade. Em dar valor e atenção ao que está fora dos holofotes. E é essa simplicidade que percebemos no nosso “muso” do carnaval que mais uma vez traz seu alto astral para nossa capa em um ensaio cheio de energia e beleza. E um pouco do que vamos constatar no desfile da Beija-Flor nesta segunda-feira (16). Antes de cair no samba, conversou conosco sobre seu momento na TV com o personagem João Rubens na novela Três Graças, os planos para a pós-novela. Abram alas que Samuel de Assis vai passar.

Mais um Carnaval e ritmo acelerado. Como estão os preparativos para este ano? Os preparativos estão a mil. Treinando muito, tentando ter uma alimentação saudável, tomando meus remedinhos para a pressão não explodir. Trabalhando a quantidade certa para não sobrecarregar e nervoso, controlando a ansiedade e o nervosismo para o dia do desfile, porque segunda vem aí e vai ser lindo.

Como “muso” da Beija-Flor o que podemos esperar na Sapucaí desta vez? Eu sou da comunidade, sou um destaque de chão da comunidade nilopolitana. Eu não tenho um lugar de celebridade na escola, definitivamente, eu não sou uma celebridade, muito menos dentro da Beija-Flor. Eu não sou um famoso que entrou ou que está indo passear na escola de samba, eu sou um cara que é da comunidade, que ama aquele lugar, que ama aquela escola, que ama aquelas pessoas e não consegue viver sem isso. Então, eu não tenho saída a não ser viver o amor que explode no meu peito. O que a gente pode esperar é essa entrega na avenida. Isso, com certeza, o Brasil inteiro e o mundo, podem esperar, a minha entrega de corpo, alma e coração.

O que o Carnaval representa para você? Acho que o carnaval é a representação da alegria da minha fé, é a representação maior da festa dos meus deuses, da minha crença. Eu não consigo pensar o carnaval, sem pensar nos meus deuses, na minha ancestralidade, sem pensar no meu povo que teve tanto sangue derramado para que hoje eu pudesse estar curtindo nas ruas, na Sapucaí, em cima do trio. Então, eu acho que é uma manifestação de amor e de entrega à nossa ancestralidade.

Qual sua primeira lembrança de Carnaval? E a sua primeira grande farra de Carnaval? A minha primeira lembrança de carnaval sou eu, no carnaval de clube que meu pai levava toda a família. Eu, todo ano, fantasiado de indígena, totalmente errado politicamente, mas era isso, né? Eu tinha cor e cabelo de indígena e então meu pai sempre me fantasiava assim, até a gente aprender que indígena não é uma fantasia, não é legal estar fantasiado assim. É um povo que merece todo respeito, todo nosso amor e a nossa solidariedade, como todos os outros. E a primeira farra, sei lá! Eu acho que eu tenho farras de carnaval desde que eu me entendo por gente. Desde os meus três, quatro, cinco anos.

Qual é a sua maior fantasia nesse Carnaval? O que vai realizar e tornar real? Ser bicampeão. E estou lutando muito, junto com uma comunidade inteira, para que isso se realize. Acho que é a minha fantasia e a fantasia de milhares de nilopolitanos.

Hoje o “politicamente correto” baniu do Carnaval fantasias como baiana, índio e nega maluca. Como você encara essas novas “regras” do que se pode ou não usar como fantasia? Existe limite para isso? Eu já falei isso lá na resposta anterior, mas acho que nem são regras, isso não é uma regra! É bom senso. Não quero que as pessoas se fantasiem do meu povo, da minha raça. Eu não sou uma fantasia, sou um ser humano, não quero que as pessoas façam isso comigo e não vou fazer com outros. É simples assim! Mulher não é fantasia, indígena não é fantasia, baiana não é uma fantasia, é uma profissão e tem uma história toda por trás daquilo.  Eu já acho que o carnaval em si tem uma história muito grande, muito responsável, a qual você tem que conhecer, porque quando eu vou numa festa na sua casa, eu vou me divertir à beça mas eu lhe devo respeito porque a casa é sua. Quando eu estou “pulando” carnaval, eu vou me divertir à beça, vou fazer todas as loucuras que eu quiser fazer, mas preciso reconhecer de quem é a casa, eu preciso reconhecer quem inventou aquilo, quem criou aquilo, sabe? Preciso saber que teve muito sangue de pessoas pretas derramadas para que o carnaval existisse. Que teve muito indígena assassinado, queimado, torturado para que a gente pudesse estar vivendo o carnaval hoje. Então, eu não vou me fantasiar de pessoas que pagaram um preço alto por isso. Volto a dizer que isso não é uma regra, é bom senso, é saber se portar no mundo, é mais que uma simples regra.

Em recente entrevista no Sem Censura você comentou que por muito tempo não se achava bonito. Um reflexo do racismo estrutural. O que fez você mudar esse pensamento? Muita terapia, muita conversa, muito trabalho psicológico, muita ajuda de amigos, muita entrega à minha religião e muita evolução espiritual e psicológica.

Pensando nisso… quando se olha no espelho do que mais gosta de ver? O que eu mais gosto de ver quando me olho no espelho é que ele está limpo! (risos). Eu gosto de ver o cara massa que eu me tornei, fruto de um trabalho muito longo e muito duro de uma vida inteira.

Você atualmente está interpretando o João Rubens na novela Três Graças. Um cara ligado às artes e é bem vaidoso. Como você lida com vaidade (como homem e ator)? Eu lido até muito bem. Acho que a vaidade faz parte do nosso trabalho – como você mesmo perguntou, né? Como homem e como ator -, eu acho que a gente precisa ter vaidade sim, mas ela pode ser a nossa maior aliada e a nossa maior derrocada. Ela tem que existir na medida certa. O grande barato da nossa vida é saber equilibrar essa vaidade. Eu me preocupo com minha imagem, tenho stylist, que é a Carla Garan, tenho uma equipe que trabalha comigo me assessorando, tenho pessoas que me ajudam, que cuidam comigo. Faço uma massagem aqui, cuido da minha pele, tenho os meus cuidados, mas tudo de uma forma legal, de uma forma orgânica, nada exacerbado não.

O personagem é bem diferente dos demais que você já fez até aqui. Que desafios e aprendizados o João Rubens tem te trazido? Muitos, muitos, muitos. João Rubens tem me ensinado muita coisa, é muito desafiador, de fato. Eu nunca fiz algo parecido, nunca fiz um personagem gay tão liberto quanto o João Rubens, tão cheio de “pinta”. Muito sutil de vez em quando, mas às vezes ele se solta quando quer provocar alguém, mas ao mesmo tempo é amoroso. Pai de família, cuidador, ele é muita coisa. Não uma, duas, três coisinhas apenas. É difícil você equilibrar, parece que está equilibrando um monte de pratos ao mesmo tempo, o tempo todo. Isso, o João Rubens tem me ensinado, a abrir várias abas enquanto você está interpretando. É muito legal e está sendo muito divertido, ele tem que ser divertido, leve.

E que importância tem tido (e percebido) trazer para o horário nobre um casal gay maduro e sem estereótipos? Como percebe a aceitação do público?  O público tem aceitado muito bem, porque é um casal de verdade, sem estereótipos. E aí, quando é um casal que você enxerga no seu bairro, na sua rua, no seu prédio, causa um reconhecimento imediato e isso vira afeto, cuidado. Acho muito importante você ver um casal maduro, casado há mais de 25 anos, com uma filha adotiva já adulta, mostrando que essas não são as questões deles, mas sim as questões cotidianas, como as de qualquer família. Essa representatividade, que é uma palavra que está tão machucada, tão em voga e tão maltratada ultimamente, ela é muito importante e necessária. A gente precisa ver casais normalizados, casais gays normalizados, pais adotivos normalizados, pais e mães solos, filhos adotivos, uma família das mais diversas formas que existem no mundo representadas de uma forma leve, doce e cotidiana, como é a vida de todos nós. Eu estou muito feliz com essa representatividade.

Você é movido a que? O que te impulsiona? A própria vida me impulsiona, eu sou autocarregável, sabe? Eu adoro viver, adoro estar aqui. Acho que a alegria de poder estar vivo, de poder fazer tudo que eu quero, me recarrega, me faz querer mais. Eu sou movido à própria vida.

E para finalizar… onde irá recarregar as baterias após a folia? No estúdio, gravando, porque vou gravar até maio e não tenho muito como fazer. Mas, se eu tiver ao menos um final de semana, dois, três, quatro dias de folga, com certeza vou me recolher, porque eu estou muito exausto, precisando me recolher e me guardar um pouquinho. Mas daí eu não vou poder dizer para onde vou. Quando eu voltar, vocês vão saber aonde fui.

Fotos @marciofariasfoto

Styling @carlagaran

Beleza @ewertonpacheco

Video @danielbraile