CARREIRA: TRÊS SÓCIOS, IA + EDUCAÇÃO: UMA REVOLUÇÃO MADE IN BRASIL

Em um cenário onde o ensino tradicional precisa se reinventar, a MIIA Tech (@miia.tech) surge como uma das edtechs mais promissoras do país. Fundada por Vitor Considera (Diretor de Conteúdo), Alex Ferrari (CEO) e Leonardo Duarte (Diretor de Tecnologia), a startup carioca conquistou, em menos de dois anos, 50 instituições de ensino — da educação básica à pós-graduação — ao desenvolver soluções plugáveis de inteligência artificial, personalizadas e adaptáveis à metodologia de cada parceiro. Com uma proposta que une excelência técnica, visão pedagógica e modelo de negócios escalável, o trio de sócios revela como transformou uma deficiência do setor educacional numa empresa que fornece um hub de soluções práticas de inteligência artificial, com forte impacto no mercado. Nesta entrevista à MENSCH, os fundadores falam sobre inovação, cultura interna, regulação da IA e o futuro da educação.

Antes da MIIA Tech nascer como um hub de soluções educacionais, havia uma visão empreendedora por trás. Como surgiu a ideia original da empresa e o que motivou vocês, como trio, a apostar nesse modelo de negócio? Houve algum insight ou experiência marcante que impulsionou essa decisão? VITOR: A ideia da MIIA surgiu muito da minha vivência como professor. Sempre estive à frente do cursinho que mais aprovava alunos em Medicina na UERJ, e, ao lidar com tantos estudantes diferentes, percebia na prática a dificuldade de personalizar o ensino para cada um. A vontade era simples: levar o impacto do acompanhamento próximo — que funcionava tão bem no presencial — para muito mais gente, inclusive quem não tinha acesso àquele ambiente. A virada aconteceu quando percebi que a inteligência artificial poderia ser essa ponte, permitindo aplicar a metodologia que já dava certo, mas em escala, de forma individualizada e alinhada à proposta pedagógica de cada instituição. O insight veio da escuta ativa dos alunos e da percepção real do que eles precisavam para evoluir de verdade. A gente apostou nesse modelo porque acreditamos que era possível democratizar o acesso, apoiar o aluno fora da sala e promover uma evolução contínua com tecnologia pensada de educador para educador.

Como foi o processo de união entre vocês três para fundar a MIIA Tech? Já se conheciam de outras jornadas ou foi uma conexão estratégica? E além da MIIA, vocês possuem outros investimentos ou participações em projetos do ecossistema de inovação? ALEX: A conexão entre nós foi bastante orgânica. Eu sempre trabalhei com mercado financeiro e já era amigo pessoal do Vitor. Quando ele compartilhou a ideia da MIIA, sugeri reformular o modelo de negócios para atingir um mercado maior — não só escolas e pré-vestibulares, mas também ensino superior, preparatórios para concursos, OAB, residência médica, entre outros. Propus uma reconfiguração estratégica: sair do modelo direto ao aluno (B2C) e focar no atendimento a grandes instituições (B2B). Para criar toda a tecnologia, convidamos o Leonardo, que tem PhD em Ciência da Computação e chegou a usar o Blue Waters, maior supercomputador do mundo na época, para sua tese de doutorado.

Em menos de dois anos, a MIIA Tech já conquistou 50 clientes B2B. A que vocês atribuem esse crescimento tão expressivo em tão pouco tempo? Foi sorte, estratégia, demanda reprimida ou uma combinação de fatores? ALEX: Atribuímos esse crescimento a uma combinação de visão estratégica, execução técnica e escuta ativa do mercado — sempre com o protagonismo das instituições de ensino. Muitas delas enfrentam desafios urgentes, mas não têm estrutura para investir em pesquisa aplicada com IA. Por isso, reunimos cientistas de dados, matemáticos, engenheiros de software e outros profissionais de excelência para criar soluções que estão na fronteira do desenvolvimento em inteligência artificial. Atuamos como um copiloto educacional: não substituímos a instituição, mas potencializamos seus métodos e fortalecemos sua proposta pedagógica. Nosso compromisso com inovação nos permitiu estar, em pouco tempo, entre os maiores grupos educacionais do país.

Como funciona o modelo de negócios da MIIA na prática e quais são os diferenciais frente a outros players do mercado? LEONARDO: A MIIA funciona como um hub de soluções de IA plugáveis e personalizadas para instituições de ensino. Nossas soluções são construídas com base na metodologia, nos critérios de avaliação e no conteúdo de cada parceiro. Um grande diferencial é o plano de estudos vivo e individualizado. Nossa IA aprende o conteúdo programático e, com base no perfil de cada aluno, histórico de desempenho, tipo de atividade preferida e rotina, seleciona as atividades ideais — atualizando-as diariamente. Outro diferencial é a correção automatizada de textos, com agentes de IA treinados por nicho: do ensino fundamental à medicina. Eles corrigem com base em estrutura, coesão, coerência, conteúdo e norma culta, respeitando o nível de exigência de cada instituição. Essa combinação técnica e pedagógica tem ajudado nossos clientes a reduzirem custos, aliviarem a carga dos professores e melhorarem significativamente os resultados dos alunos.

Cada um de vocês tem uma trajetória distinta. Como essas experiências se complementam na gestão e nas decisões estratégicas da empresa? VITOR: Nosso time se equilibra bem. Eu trago a visão pedagógica e a vivência de sala de aula. O Alex tem sensibilidade de mercado e conhecimento para escalar negócios. O Leonardo domina a parte técnica com excelência em produto. Todas as decisões passam por essas três lentes, o que traz equilíbrio entre inovação, execução e propósito.

Como é a convivência entre os sócios no dia a dia? Existe uma divisão clara de funções ou o trabalho é mais colaborativo? Algum episódio curioso que represente essa dinâmica? LEONARDO: Nossa convivência é baseada em confiança e autonomia. Cada um tem áreas bem definidas, mas colaboramos o tempo todo. As conversas são muito abertas. Muitas vezes, começamos uma reunião para resolver um ponto técnico e acabamos repensando toda a estratégia do produto. Isso mostra como gostamos de construir tudo juntos, ouvindo diferentes perspectivas.

Como vocês definem a cultura interna da MIIA e de que forma ela dialoga com os valores dos investidores? ALEX: Nossa filosofia é simples: trabalhamos com sócios ou com futuros sócios. Procuramos pessoas com senso de responsabilidade e criamos mecanismos reais de alinhamento, como planos de stock option. Isso gera um ambiente de alta performance, autonomia e senso coletivo. Como consequência, atraímos pessoas apaixonadas por inovação e comprometidas com o uso ético e transparente da IA.

O mercado de edtechs tem atraído muitos investimentos. Na visão de vocês, o que os investidores buscam hoje e como a MIIA se posiciona nesse contexto? ALEX: Investidores querem startups que cresçam rápido, gerem impacto real e tragam inovação onde ainda há espaço. A MIIA atua justamente nesse ponto: em um setor em transformação e com enorme potencial. Nosso diferencial é a escalabilidade com uma base tecnológica sólida e comprovada em diferentes contextos. Nossas soluções são realmente plugáveis, o que nos torna atrativos para instituições e investidores.

Já receberam aportes? Como foi o processo de escolher com quem se associar? ALEX: Sim, recebemos investimento da M3, que entrou via equity para apoiar nossa expansão. Hoje, não buscamos novos aportes, a não ser para oportunidades pontuais. Somos muito criteriosos: buscamos investidores que tragam capital, mas também conexões, visão estratégica e conhecimento — o famoso “smart money”.

Com o avanço do novo Marco Legal da EAD, como vocês avaliam o impacto dessas regulamentações para startups de tecnologia educacional? A MIIA já está se adaptando? LEONARDO: O Marco Legal da EAD exige mais das instituições, especialmente em estrutura e participação docente. Por isso, desenvolvemos soluções alinhadas a essas diretrizes: correção automatizada, monitor virtual, planos de estudo inteligentes. Nossos produtos já ajudam muitas instituições a se adaptarem, otimizando o tempo do professor sem perder qualidade.

A regulação da inteligência artificial está em debate no Congresso. Como a MIIA acompanha essa movimentação e quais ajustes já foram implementados? LEONARDO: Estamos atentos à regulamentação e já adaptamos nossos produtos com foco em ética, transparência e segurança. Nossas soluções são auditáveis e deixam claro quem é responsável por cada entrega. Atuamos de forma preventiva, para que nossos clientes estejam prontos juridicamente e tecnicamente quando a legislação entrar em vigor.

Para encerrar, que conselhos dariam a outros empreendedores que desejam atuar no segmento de edtechs com visão de impacto e escalabilidade? VITOR: Só entre nesse mercado se for realmente apaixonado por educação. É um setor desafiador, cheio de particularidades, e não dá para tratar como um negócio qualquer. É preciso escutar o cliente, ter consistência e buscar impacto genuíno. Para quem acredita na causa, vale muito a pena.