CARNAVAL: CAIRE AOAS – O EMPRESÁRIO QUE TRANSFORMOU O CAMAROTE BAR BRAHMA EM UM MANIFESTO CULTURAL

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Para entender o Camarote Bar Brahma em 2026, é preciso antes compreender a trajetória e a visão de Caire Aoas. Aos 42 anos, o empresário paulista deixou de ser apenas o nome por trás do maior camarote carnavalesco de São Paulo para se afirmar como um dos principais arquitetos da experiência cultural do Carnaval brasileiro – alguém que enxerga o entretenimento como narrativa, a cidade como palco e a festa como linguagem.

Na edição de 2026, essa visão se materializa na “República do Pagodinho”, conceito que homenageia Zeca Pagodinho e transforma o CBB em uma nação imaginária onde o samba governa e a alegria funciona como política pública. Mais do que um tema cenográfico, a proposta revela a maturidade criativa de Caire à frente do projeto e sua capacidade de traduzir cultura popular em experiência.

Na “República do Pagodinho”, até a camiseta deixa de ser uniforme para se tornar discurso. Nesta edição, o Camarote Bar Brahma leva sua peça mais emblemática para além da avenida e a apresentou, ainda em 2025, na passarela da São Paulo Fashion Week, em colaboração com a marca LED, responsável pelo conceito criativo do modelo. O gesto não é estético por acaso: ao revisitar um clássico da Brahma de 1998 e incorporar referências afetivas do Carnaval brasileiro, a camiseta materializa a visão de Caire Aoas de que cultura também se veste. 

Em um ano marcado pela Copa do Mundo, essa construção simbólica dialoga diretamente com o imaginário coletivo do país e se soma a outras ações inéditas do CBB, como a presença de Carlo Ancelotti em uma iniciativa especial dentro do camarote. Moda, futebol, samba e experiência se entrelaçam para reforçar o CBB como um verdadeiro ecossistema cultural – onde o Carnaval deixa de ser apenas evento e passa a ser linguagem, plataforma e território de pertencimento.

Sob a liderança de Caire, o Camarote Bar Brahma deixou de ser apenas um espaço VIP para se tornar um ecossistema de experiências, que começa antes do desfile e se estende muito além da música. Receptivo, hotelaria, gastronomia, bem-estar, curadoria artística e parcerias estratégicas integram uma engrenagem pensada para criar memória, e não apenas impacto visual. O luxo, nesse contexto, está menos no excesso e mais na fluidez, no cuidado e na coerência da experiência.

Essa lógica acompanha também sua atuação à frente da Fábrica de Bares, grupo responsável por operações icônicas da cidade, como Bar Brahma, Riviera, Café Girondino e Love Cabaret. Em comum, todos os projetos partem do mesmo princípio: criar lugares que dialoguem com o comportamento das pessoas e com a identidade urbana de São Paulo.

Assumir um conceito tão autoral em um evento dessa escala envolve risco – e Caire faz disso um diferencial competitivo. Em um cenário saturado de fórmulas repetidas, a identidade se torna ativo estratégico. A “República do Pagodinho” só faz sentido porque nasce de repertório cultural, afeto e verdade, valores que atravessam toda a construção do projeto. No line-up, essa visão se traduz em curadoria e não em volume. A abertura dedicada ao samba, os encontros entre gerações e o encerramento celebrando o axé reforçam a pluralidade como valor central do Camarote Bar Brahma e como reflexo do próprio Carnaval brasileiro.

Para Caire, o CBB ocupa hoje um lugar híbrido: é, ao mesmo tempo, case de negócios e agente cultural. O Carnaval, ainda frequentemente subestimado, revela-se como uma potente indústria criativa, capaz de gerar impacto econômico, fomentar o turismo, criar empregos e produzir construção simbólica.

Ao completar 26 anos, o Camarote Bar Brahma chega a 2026 como reflexo direto da trajetória de seu criador: mais autoral, mais consciente e profundamente conectado às raízes brasileiras. A festa termina, mas o que permanece é a sensação de pertencimento – o verdadeiro termômetro de sucesso para quem entende o Carnaval como experiência e memória.

Se a “República do Pagodinho” fosse real, qual seria a primeira lei aprovada por você e pelo Zeca? Folia liberada. Folia e chope como necessidades básicas da população, à vontade para todo mundo. A “República do Pagodinho” nasce dessa ideia de celebração sem culpa, de entender a alegria como direito coletivo. Carnaval é isso: um espaço onde as pessoas podem se permitir ser felizes.

Zeca Pagodinho representa um Brasil possível. Que Brasil você quer que o público encontre ao entrar no CBB em 2026? Um Brasil que se une em torno da celebração. Que aproxima opostos, diminui extremos e valoriza a convivência. O Zeca representa a celebração da vida, da amizade, de um jeito de viver que é puramente brasileiro. É esse espírito que eu quero que as pessoas sintam ao entrar no CBB.

Em que momento o Camarote Bar Brahma deixou de ser um evento para virar uma extensão do seu pensamento sobre cultura e cidade? Não teve um momento específico. Foi um amadurecimento natural, conforme o Camarote cresceu e foi se relacionando cada vez mais com a cidade, com a cultura e com o Carnaval. Ele foi se revelando como um palco de expressão, de criação e de experimentação. Onde mais a gente poderia criar um enredo como esse, transformar o Zeca em presidente simbólico e brincar com essa narrativa? Ao longo do tempo, o CBB foi se tornando esse espaço de possibilidades e acabou virando, sim, uma extensão da forma como eu enxergo cultura e cidade.

O Carnaval ainda é visto como excesso. Para você, onde ele vira linguagem, identidade e negócio sério? Mais do que excesso, o Carnaval é um lugar de expressão. As pessoas se permitem ser quem realmente são. Ele vira linguagem e identidade quando reúne as pessoas em torno da música, da dança, da alegoria, do enredo – e isso cria senso de comunidade. Existem muitos carnavais: o de rua, o de clube, o de bloco, o do Sambódromo e o Carnaval que acontece o ano inteiro dentro das comunidades. Quando você conhece esse Carnaval que vive o ano todo, entende que ali existe entrega, paixão e identidade. O negócio vem depois, como consequência. É sobre como as marcas podem potencializar esse momento e se conectar com as pessoas de forma verdadeira.

Existe mais risco em ousar criativamente ou em repetir fórmulas no Carnaval? Existe muito mais risco em repetir fórmulas. O Carnaval é, talvez, o espaço que mais permite ousadia criativa. Ele não tem limite, não tem regra nesse sentido. O risco é não criar, é não ousar. Claro que existem tradições, e elas precisam ser respeitadas, mas ousar também faz parte da tradição do Carnaval.

Em um ano de Copa do Mundo, você cruza moda, futebol e samba ao levar a camiseta do CBB para a SPFW e ao receber Carlo Ancelotti em uma ação inédita no camarote. O que essas conexões dizem sobre a sua visão de Carnaval como ecossistema cultural – e não apenas como evento? O Carnaval está no imaginário das pessoas o ano inteiro. Elas antecipam esse sentimento muito antes de ele acontecer. Participar da São Paulo Fashion Week, falar de Copa do Mundo, juntar moda, futebol e samba faz todo sentido no Brasil. Somos o país do futebol, do samba, do lifestyle, do design. Por que não expressar tudo isso através do Carnaval? E, neste ano, ainda poder receber o Ancelotti, que materializa essa esperança brasileira pelo título da Copa, só engrandece a festa. Tudo isso cria conexões e memórias que vão muito além do evento em si.

Para você, o que explica o fato de o Carnaval conseguir reunir, no mesmo território, samba, moda e futebol sem perder identidade – e ainda ganhar força simbólica com isso? Porque o Carnaval comporta tudo. Além do samba, da moda e do futebol, ele tem gastronomia, dança, arte, história, tradição. Ele é a expressão máxima da cultura brasileira, do nosso DNA e da nossa personalidade. Tudo o que a gente vive e tudo o que a gente é cabe dentro do Carnaval.

O que te dá mais orgulho hoje: a grandiosidade do CBB ou os detalhes invisíveis que ninguém vê, mas todo mundo sente? A grandiosidade só existe por causa dos detalhes invisíveis. Tenho muito orgulho das pessoas que trabalham comigo, de um time apaixonado pelo projeto, obcecado pelos detalhes e pela experiência que o público vai viver. É essa obsessão que tornou o Camarote grande. Uma coisa não vive sem a outra.

Depois de 26 anos de Camarote Bar Brahma, o que ainda te tira da zona de conforto? Eu nunca consegui entrar na zona de conforto. Esse foi o primeiro ano que consegui ousar tirar dez dias de férias no começo de janeiro, algo que sempre foi inimaginável pra mim. E isso só foi possível porque hoje existe um time extremamente qualificado, profissional e tão apaixonado pelo Camarote quanto eu. Mesmo assim, o frio na barriga continua. A responsabilidade é enorme: logística, montagem, marcas, pessoas, a tradição do Carnaval de São Paulo. Saber que tenho um time que cuida de tudo com esse nível de entrega me dá segurança, mas não tira o respeito nem a emoção de fazer esse projeto acontecer.

Quando a quarta-feira de cinzas chega, o que precisa ficar na memória do público para que você considere essa edição um sucesso – e em que momento essa lembrança começa a se transformar, para você, no primeiro esboço da próxima? A nossa meta é tentar criar um dos momentos mais legais da vida da pessoa. Se não da vida, do ano; se não do ano, do mês; se não do mês, do dia. Queremos que as pessoas saiam um pouco mais felizes, encantadas, quase como se tivessem vivido um universo de possibilidades ali dentro. O sucesso é quando isso vira memória afetiva. Quando as pessoas voltam, quando trazem família, amigos, quando se dizem CBB lovers, quando usam fotos do Camarote como imagem de perfil. Ali a gente entende que marcou o coração de alguém. E, sinceramente, o pensamento da próxima edição começa quase imediatamente.

Direção de Produção Ju Hirschmann

Fotos Renata Guimarães 

Tratamento de imagem Bruzzi

Styling Leandro Bernardes e Luciano Bortolotti 

Texto Fabiane Lima  Entrevista Fernando Luís Cardoso