A pandemia alterou a rotina de milhões de pessoas e fez com que elas fossem obrigadas a lidar consigo mesmas. Foi pensando nisso que Homero Ligere, ator e idealizador da série “Última Coisa que Diria a Você”, resolveu criar algo que falasse sobre o despertar de uma nova consciência em tempos de pandemia. A ideia surgiu quando, na quarentena, o ator se pegou pensando nas pendências emocionais que deixou pelo caminho e nas coisas que deixou de falar e de viver. 

A trama, dividida em 11 episódios e que estreia hoje em várias plataformas de streaming, irá falar sobre querer viver intensamente nesse curto período e, principalmente, sobre caminhar pela vida de forma mais leve, sem o peso daquilo que postergamos. Na série, que será exibida ao mesmo tempo no Now, Vivo, Looke e, em breve, também na latino-americana Klic, Homero dará vida ao protagonista Pedro, um advogado solitário na quarentena que, durante um happy hour virtual com suas colegas de trabalho, se dá conta de que é uma pessoa solitária e com dificuldades de se abrir para o mundo. A partir daí, ele repensa as suas relações e busca a redenção junto aos seus familiares, amigos e antigos amores através de conversas por chamadas de vídeo. 

“Última Coisa que Diria a Você”, dirigida por Gabriel Manso e roteirizada por Ana Carolina, foi realizada pelo Anexo Criativo, um coletivo artístico criado na quarentena com o objetivo de fomentar a arte. No elenco, composto por 11 atores, além de Homero, estão nomes como Rafael Primot, Tuna Dwek, Lilian Blanc e Lisandra Cortez. Homero, que atualmente pode ser visto na reprise de “Chiquititas”, também se prepara para novos projetos no cinema e no teatro. 

Depois de fazer uma participação em “Mulheres Alteradas”, de Luis Pinheiro, e de integrar o elenco de produções como “Histórias de Gavetas”, dirigida por Marina Galdieri, e “Libertos- o preço da vida”, de Jefferson Nali (disponível na Amazon Prime EUA e Reino Unido), o ator se preparar para rodar, ainda em 2021, o longa “Ciao”, de Gui Dantas e Cristiano Calegari, onde vive um empresário de classe média alta, ambicioso e preconceituoso. Em 2022, o ator também irá estrear nos palcos sua primeira peça autoral ao lado de Mayara Lepre. O espetáculo, intitulado “Revés”, irá abordar um futuro próximo no qual as pessoas são identificadas e controladas por um chip.

Você integra o longa “Libertos – O preço da vida” em cartaz na Amazon do Reino Unido e EUA. O filme chegou a entrar em cartaz no Brasil ou estreou direto nas plataformas internacionais? Como foi esse processo? O filme estreou no YouTube e, em seguida, foi para as plataformas internacionais. Quando soube do teste, percebi que ele tinha uma certa vilania e isso me instigou por ser um registro totalmente diferente do que eu já havia feito. Na trama, meu personagem é um aliciador e está envolvido em um esquema de tráfico de mulheres. O processo foi em cima de pesquisas, filmes e estudos comportamentais, pois ele usava a sua sedução para ganhar a confiança de suas vítimas.

Hoje, dia 7 de julho, você estreia em várias plataformas a série “Última Coisa que Diria a Você”. O que te motivou a criar esse projeto? Fale um pouco sobre ele. Falar desse projeto é falar sobre redenção. A ideia surgiu no início da pandemia, onde eu me deparei com um abismo de incertezas que me colocaram em questionamentos sobre as minha pendências, relações e, principalmente, sobre o que eu deixei de falar e viver. O fato de estarmos isolados me fez ter essa percepção e urgência em despertar para uma nova consciência, seguir a vida mais leve e sem peso. E todas essas reflexões resultaram na série. A criação (idealização) é minha e o roteiro foi escrito pela Ana Carolina. Ela conseguiu, de forma brilhante, distribuir toda a minha ideia em 11 episódios muito bem escritos.

Além de criador, você também irá protagonizar a série que fala justamente desse período de isolamento na pandemia. Você acha que rever as relações, como acontece no caso do seu personagem, também é uma forma de se reinventar, de ver as coisas dentro de um outro ponto de vista? Esse período de isolamento nos deu a oportunidade de nos escutar e entender como estamos lidando com alguns aspectos da nossa vida. A série te conduz para um mergulho interno e te faz perceber que rever as relações é um ato de coragem. Ela mostra que é preciso se enxergar primeiro e que outro só pode oferecer aquilo que tem.Como foi o processo de fazer uma série toda filmada remotamente e com um elenco de 11 pessoas? Quanto tempo levou para ser finalizada? Foi desafiador, pois estávamos pisando em um terreno desconhecido e entendendo as limitações que o isolamento nos trouxe. Todo o processo foi conduzido via zoom, desde a visita técnica, até as gravações. Tudo foi feito remotamente em 11 dias de gravação.

“Última Coisa que Diria a Você” foi realizada pelo Anexo Criativo, um coletivo artístico criado na quarentena com o objetivo de fomentar a arte. Você acha que falta mais engajamento da classe artística nesse sentido, de fomento às artes de um modo geral? O Anexo Criativo foi criado porque, desde o início, houve um senso comum de como enxergamos a arte e de como nós, artistas, queremos nos expressar através dela. Ele é um coletivo artístico composto por mim, Isabele Brum, Pedro Lucas Castro, Gabriel Manso, Bruna Mascarenhas, Henrique Hideki, Nathália Artemenko, entre outros colaboradores nossos. O que não falta é engajamento artístico, ainda mais nesse período de quarentena onde tivemos que nos reinventar e nos adaptar a uma nova realidade para continuarmos nos expressando. Muitos artistas, assim como nós, se uniram com esse propósito.

Atualmente você está no ar na reprise de “Chiquititas” que foi um grande sucesso em 2015. Como está sendo a recepção do público depois de 6 anos? O que representou esse trabalho na sua carreira? Esse público cresceu, mas continua fiel a essa história depois de 6 anos. Foi meu primeiro trabalho de grande exposição, por isso, tenho um carinho enorme por essa oportunidade e sobre o que essa história representa na vida das pessoas.

Você também está se preparando para rodar o longa “Ciao”, de Gui Dantas e Cristiano Calegari, onde vive um empresário de classe média alta, ambicioso e preconceituoso. Na vida real, você acha que as pessoas tem se sentido mais a vontade para mostrarem os seus preconceitos? Como foi seu processo de preparação para esse personagem? O preconceito sempre existiu. Tudo que destoa e sai do padrão estabelecido vai gerar um “pré-conceito”, ainda mais vivendo em um país onde somos geridos em cima de um discurso de ódio. Mas acredito que, aos poucos, estamos caminhando para um processo de conscientização onde o preconceito se torna, a cada dia, mais intolerável e inadmissível. O começo da mudança está em revermos nossos próprios preconceitos e desconstruí-los. Sobre a preparação, já tivemos alguns encontros online com leituras do roteiro onde abordamos e discutimos as camadas mais profundas dos personagens para entender os reais motivos que os levaram a ter esse preconceito latente.

A peça “Revés”, projeto de sua autoria junto com Mayara Lepre, irá abordar um futuro próximo no qual as pessoas são identificadas e controladas por um chip. Como será isso? Qual a previsão de estreia? A peça se passa em um futuro próximo onde todas as pessoas são identificadas por nano chip. A sociedade se reorganizou e a polícia não tem mais o papel de investigar. Todo e qualquer comportamento das pessoas é monitorado por esse nano chip. O poder da polícia serve apenas para julgar e punir os infratores. Nossa história começa nessa “prisão” e com a chegada de quatro personagens que ali permanecerão dividindo tudo. No decorrer da história, alianças se formam, parcerias são desfeitas, e a liderança e a opressão acontecem nessa reorganização social. Em meio a tudo isso, eles descobrem que estão sendo vigiados por câmeras e avaliados por uma comissão técnica (plateia). A estreia está prevista para 2022.

De um modo geral, o que você aprendeu durante esse período de isolamento. O que a pandemia te trouxe de bom e de ruim? Aprendi a me reinventar diante dessa situação. Respeitei meu tempo de escuta, tive que lidar com as minhas incertezas e as ressignifiquei transformando em arte.

O Homero Ligere artista é muito diferente do Homero pessoa física, do dia a dia? Não existe essa diferença. É algo que faz parte de mim, não tem como distinguir um do outro.

Que mensagem você deixaria para os nossos leitores? A vida é, de fato, um sopro. Se permita viver o hoje e aproveite cada segundo.