
Uma das atrizes de destaque na dramaturgia brasileira vem ganhando espaço e reconhecimento pelo público. Alinne Moraes é um daqueles rostos que se tornaram assíduos dos espectadores na televisão, no teatro e no cinema. Ainda na adolescência, quando era modelo, ela já interpretava personagens em cada clique das câmeras. Hoje, aos 42 anos, a atriz se sente mais conectada com sua essência, buscando projetos que ressoem com a sua visão de mundo e que tragam propósito a sua arte. Na carreira, a versatilidade foi a sua marca registrada desde sempre. Personagens de diferentes matizes e profundidades, como a Sílvia de Duas Caras (2007) e a Lívia de Além do Tempo (2015), expuseram o seu talento para criar figuras complexas e memoráveis. Em Guerreiros do Sol (2025), na interpretação visceral de Jânia, Alinne deu voz a uma mulher à frente de seu tempo, guerreira, radical e profundamente humana. Hoje, a artista se prepara para novos papéis nos palcos e no streaming. Em conversa exclusiva à MENSCH, Alinne Moraes revela os bastidores de seu ofício, fala sobre as transformações que a maternidade trouxe à sua vida e discute a importância de manter sua privacidade na era das redes sociais. “Eu entrego uma personagem, um trabalho, e saio de cena, até que as cortinas se abram de novo. Ser reservada me traz uma liberdade que valorizo muito”, refletiu a atriz sobre sua relação com o trabalho e o universo digital.
Vamos começar por seu trabalho mais recente… Você interpretou Jânia, uma mulher à frente de seu tempo, com ideais revolucionários para a época representada em Guerreiros do Sol. O que ficou de mais marcante dessa personagem após o fim das gravações? Acho que, de mais marcante, foram a força e a coragem dela. A Jânia foi a voz daquelas sertanejas. Uma mulher que ousasse da maneira que ela ousava, brigando por suas ideias, poderia ser morta a qualquer momento. E ela ainda sofreu um atentado, e enfrentou todas as suas guerras ali no sertão. Ela ensina as mulheres a lutarem por seus ideais, mesmo quando esses ideais são desafiadores. Jânia é uma personagem muito atual.
Na trama, sua personagem tinha um relacionamento homoafetivo com a personagem Otília, algo puro e muito sensível. Como foi viver isso e como foi a troca entre você e Alice Carvalho? Jânia se conhecia, sabia o tamanho de sua potência como mulher e tinha entendimentos sobre liberdade e amor. Ela enfrentou tudo para viver esse relacionamento com a Otília, algo que foi muito especial durante toda a trajetória da série. Essa história foi muito bem dirigida, muito bem contada, e a troca com a Alice Carvalho foi linda, cheia de sensibilidade e generosidade. Estávamos muito abertas, com a escuta ativa uma para a outra. Conduzimos muitas das cenas, conversamos e estudamos antes. Formamos um casal bonito, sensível e com muito respeito- o que trouxe uma profundidade incrível para a história. É, sem dúvida, o meu casal favorito da série.

Seu último trabalho para a TV foi em 2022 (Um Lugar ao Sol). Foi uma pausa necessária ou falta de bons convites? Quais são os seus critérios para trabalho hoje? Hoje, busco projetos que tenham um propósito e que ressoem com o que acredito. Um Lugar ao Sol terminou no começo de 2022 e eu entrei de férias após um longo período de gravação devido à pandemia. Foi uma pausa importante para entender tudo. Em 2023 comecei a filmar Guerreiros do Sol que só estreou neste ano. No momento, neguei alguns convites sim. Acho importante respirar, estudar e descansar. Meu filho está com 11 anos, se despedindo da última infância e entrando na adolescência. É um momento único que quero vivenciar ao lado dele. Ainda fico de férias até início de 2026, quando inicio os ensaios de uma peça e, depois, começo a filmar uma série para a Disney+. Enquanto isso, aproveito a família.
Desde a adolescência, você está na frente dos holofotes na carreira artística. O que mais conquistou nesse tempo? De uma certa maneira, como modelo na adolescência, eu também interpretava vários personagens quando me caracterizava. E, mesmo sem ter falas, a foto expressa história e emoção. Sempre gostei muito disso. Depois, aos 17 anos, quando fiz meu primeiro trabalho como atriz, encontrei o meu lugar, minha casa, onde todos os colegas falavam a mesma língua que eu. Me reconheci em cada um deles e me encantei pelo ofício de ser atriz, pela responsabilidade que isso implica. Acho que isso me trouxe um entendimento da grandiosidade de meu trabalho e como ele transforma vidas. A arte, realmente nos salva e nos mostra um caminho e isso, para mim, é o ar que eu respiro, o meu trabalho. E ao longo dos anos de trabalho, também conquistei a liberdade de escolher meus papéis e a confiança de estar sempre em busca de novas histórias, principalmente as que me tocam.

Sua passagem pelo mundo da moda foi o início de uma trajetória de sucesso. Hoje, na maturidade, como é a sua relação com a beleza? Bom, eu acho que a minha relação com a beleza evoluiu ainda mais. Hoje, eu me aceito e já entendi que não dá para correr atrás de coisas superficiais. Valorizo muito mais a autenticidade e o cuidado com a saúde, priorizando a minha essência e o que me faz sentir bem por dentro e por fora. Lembro que, muito novinha, numa entrevista no início da minha carreira de atriz, disse que sempre acreditei que a verdadeira beleza vem de dentro. E não é clichê! Tem pessoas que, pelo padrão de beleza, poderiam ser vistas como lindas, mas ao conhecê-las, percebo que são feias, apáticas, tristes e sem luz. Por isso, acredito que vem de dentro e precisamos entender o que nos faz bem pra que essa beleza exista.
Na televisão, você já interpretou personagens marcantes, como a estudante Clara, de Mulheres apaixonadas (2003), a vilã Sílvia, de Duas caras (2007), a modelo Luciana, de Viver a vida (2009) e Lívia, de Além do tempo (2015). Como você percebe o posicionamento dos papéis femininos no audiovisual ao longo do tempo? Eu tive a sorte de dar vida a personagens maravilhosas na televisão, que traziam várias questões sociais e me fizeram crescer muito como mulher e atriz. Fiz personagens polêmicas e tive a oportunidade de conversar sobre temas delicados por meio delas. Hoje, percebo que os papéis femininos estão se diversificando, mas ainda há um longo caminho a percorrer para que as mulheres sejam representadas de forma mais completa e realista. As mulheres precisam ocupar espaço em tudo, em todos os lugares, para que sejamos representadas de verdade. No cinema, por exemplo, acho que há personagens femininas incríveis que merecem ser mostradas.


Você está envolvida na produção da peça Deus da carnificina, texto que trata da fragilidade e da superficialidade nas relações humanas. Como foi a preparação do tema para hoje? Os ensaios começam no primeiro semestre de 2026. Quem vai dirigir é o Rodrigo Portela, com quem sempre quis trabalhar. É uma peça que tem um tema muito atual, que me faz refletir sobre a fragilidade das relações humanas, ou seja, algo que gosto de explorar. O enredo gira em torno de dois casais que se encontram para discutir uma briga dos filhos de 11 anos na escola. É nesse encontro que a peça se inicia. A partir daí, a conversa rapidamente evolui para tensões e conflitos entre os adultos.
Além disso, você está envolvida numa série de ficção para o Disney Plus. O que podemos esperar desse projeto para o streaming? Sim, estou envolvida em uma série de ficção para a Disney+. É uma história muito interessante, que fala sobre uma família nada convencional que mora no Rio de Janeiro. O projeto está em finalização. Serão oito episódios e começamos a rodar no inicio do ano. Estou muito animada pra ver como o público irá reagir e se conectar com essa história.
E para o cinema, você estará em Cemitério de Aviões, um thriller psicológico, dirigido por Mauro Lima. É a primeira vez que vocês trabalham juntos? Como é ser dirigida pelo maridão? Trabalhamos juntos no filme Tim Maia e no filme João, o Maestro. Foi incrível! Eu sou suspeita, amo trabalhar com ele. Cemitério de Aviões é um thriller psicológico sobre uma mulher que mergulha numa realidade paralela quando precisa se confrontar com a memorabilia do pai morto. Será bem diferente de tudo que já fiz.



Em se tratando de teledramaturgia, o ritmo das gravações costuma ser intenso e desafiador. Quando é preciso dar uma pausa? Em uma novela, a carga horária é puxada, com gravações que podem chegar de 12 a 14 horas por dia. E não para por aí. Você chega em casa no final do dia e ainda passa mais 2 horas decorando as cenas para o dia seguinte. Em novelas, é como se gravássemos meio filme por dia – considerando que uma novela das nove tem 50 minutos no ar. É um trabalho intenso. Por isso, sou a favor das pausas. Elas são essenciais quando a carga emocional e física se torna intensa, especialmente em uma novela que dura um ano gravando de segunda a sábado. Muitas vezes, me sobram apenas seis horas livres para viver a minha vida. Quando os personagens são grandes e gravam muito, essas horas praticamente se vão em sono. É muito importante cuidar da saúde mental e do bem-estar. Além disso, para um artista, essas pausas são um respiro, onde consigo zerar e me nutrir de vida para poder gerar uma nova personagem. Mas sei que pra cada ator funciona de uma maneira.
Você costuma não expor tanto a sua vida pessoal nas redes sociais. Como é a sua relação com o universo digital? Assim como minha amiga Ana Beatriz Nogueira, eu me acho uma dinossaura da Internet. A minha relação com o universo digital é cautelosa. Realmente, prefiro manter a minha vida pessoal reservada e usar as redes para compartilhar o meu trabalho, mensagens que considero importantes e pautas que acredito. Também utilizo o Instagram, por exemplo, como se fosse um diário de fotos.



Recentemente você comentou “Estar em evidência não me realiza. Não quero ser falada ou lembrada, deixo isso para as personagens”. O quanto o excesso de exposição lhe incomoda? Qual o doce sabor de se ser discreto? Então, o excesso de exposição me incomoda, pois eu prefiro que o meu trabalho fale por mim. Sou discreta com a minha vida e sempre fui. Eu entrego uma personagem, um trabalho, e saio de cena, até que as cortinas se abram de novo. Ser reservada me traz uma liberdade que valorizo muito. Mas que fique claro, eu adoro ser abordada por quem assiste meu trabalho e por tantas personagens que fiz. Acho esse reconhecimento e essa troca muito importantes. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
O que mais mudou em sua vida com a chegada de seu filho Pedro? Quais são os desafios ao formar uma família hoje? O Pedro me trouxe uma nova perspectiva à minha vida. O que mais mudou foi a forma como eu vejo o tempo e as prioridades. Se tornar mãe muda tudo, e, criar um homem, é de grande responsabilidade. Falo muito com o Pedro sobre ser empático, respeitoso e consciente das questões sociais que nos cercam. Conversamos sobre o feminismo, sobre muitas coisas. Mostro a ele que ser homem não significa ser forte e insensível, mas sim ser gentil, ouvir os outros e ter coragem para se posicionar contra injustiças. Ele sabe que pode expressar seus sentimentos e que vulnerabilidade não é fraqueza.
Aos 42 anos, você se sente uma mulher realizada? Olha, aos 42 anos, eu sinto que estou em um bom lugar, realizada, mas sempre buscando mais realizações, crescimento e novas experiências. Acredito que meu próximo trabalho será o melhor, e isso me faz sonhar e ter a esperança de que vou contar muitas boas histórias até os meus 100 anos (risos). É essa paixão pela arte que me move e me inspira.


Considerada uma referência de beleza, para você onde mora a real beleza? A beleza está na maneira como tratamos os outros, na nossa empatia, no nosso jeito de amar e de nos conectar. Acredito que a verdadeira beleza vem de dentro. É o brilho nos olhos de alguém que está apaixonado pela vida, a alegria que vem de um sorriso e a força que vem de enfrentar desafios com coragem. Essa beleza vai além de padrões superficiais. É o que realmente importa.
Em sua rotina, do que você não abre mão? Eu não abro mão de uma boa noite de sono, da minha terapia, das minhas aulas de expressão corporal, dos meus treinos com eletroestimulação, da dança, dos meus estudos, do meu ukulele e das minhas aulas de francês. Estou sempre envolvida nos meus trabalhos, mas valorizo esses momentos de autocuidado. Eles são fundamentais para manter meu equilíbrio e felicidade.
Estamos no final de 2025 e o que foi importante para você neste ano? O que podemos esperar de Alinne Moraes para os próximos tempos? Em 2025, o que considero mais importante foi o crescimento pessoal e profissional que vivi. E para os próximos tempos, espero continuar explorando novos desafios e tendo a oportunidade de contar histórias que realmente impactem as pessoas. É isso que me motiva e me inspira a seguir.

Assista o making of:
Texto Ivan Reis
Fotos André Schiliró
Assistente de fotografia e tratamento de imagens Tiago Rocha
Stylist Schiavelli
Assist. de Styling Patrick Ferreira
Produção executiva Márcia Dornelles
Beauty Wilson Eliodorio
Assist de beauty Leandro Alves
Camareira Vera Castelo Agradecimento Nasul Studio


