Desde sua estreia na TV em 1998, como dançarina em programas como “Fantasia” e “Domingo Legal”, Fernanda Vasconcellos, paulista de 34 anos, se permitiu a fazer de tudo um pouco. Da sua estreia como atriz, em “Malhação” como Betina, em 2005, até hoje com seu mais recente sucesso, a série “Coisa mais linda”, Fernando já foi de mocinha à vilã, da sofredora à ambiciosa. Essa mudança de formato de trabalho na TV trouxe a Fernanda novos horizontes sobre sua profissão e desafios. “Estamos em uma fase de transição, mudando a plataforma de consumo de entretenimento”, comentou nossa estrela em entrevista para a MENSCH. Atenta a tudo isso, hoje Fernanda se sente mais livre para alçar voos maiores por terras mais distantes. Livre e mais bela do que nunca, Fernanda segue sua jornada.

Começando por seu trabalho mais recente, a série “Coisa Mais Linda” (Netflix)… esperava esse sucesso todo? Como foi para você participar desse trabalho? Foram meses de testes, e algo me dizia que estava trabalhando para fazer parte de um projeto de grande repercussão, por um personagem que valeria a pena. Associo o sucesso à qualidade, consequência de esforço e trabalho duro. Participar de Coisa Mais Linda, foi um encontro de parcerias criativas onde as portas estavam sempre abertas para discutir e explorar o roteiro. Como artista e ser humano, discutir toda e qualquer forma de desrespeito, opressão, violência ou preconceito não é só importante, é uma necessidade básica.

Pelo jeito a série caiu no gosto do público e crítica, tanto que já foi divulgada a possibilidade de uma segunda temporada. O que você acha que foi o grande diferencial dessa série? Além de personagens bem desenhadas e dirigidas, a série tem requinte técnico. Os cenários, figurinos e arte foram feitos com dedicação e cuidado. Retratam o final da década de 1950, sem exageros. A trilha sonora original é condizente com o que a trama aborda, conta com uma fotografia colorida, quente e aconchegante. Em Coisa mais Linda, tudo é muito lindo mesmo.

Contar a história de 4 mulheres que lutam para sobreviver e vencer num mundo dominado pelo machismo parece ser algo ainda muito atual. Você percebe isso? Que comparação faz desse período em que se passa a série e os dias de hoje? Para mim, esse é o ponto. A série não traz respostas, ela é um convite para a reflexão “até que ponto evoluímos? Estamos construindo uma civilização que valha a pena existir onde as vidas tenham mais propósito e valor?” Acredito que sim.

Esse discurso de empoderamento feminino ainda se faz muito necessário, em que aspectos, segundo seu ponto de vista? Nenhum país no mundo pode afirmar que alcançou a igualdade entre os sexos.       Portanto, o discurso de empoderamento ainda se faz necessário porque acredito que todo ser humano deve ter, socialmente, os mesmo direitos.

Sua primeira aparição na TV, no programa Fantasia (SBT), trazia muita sensualidade, garotas de biquíni e um apelo bem focado no público masculino. Acredita que um formato de programa como aquele está totalmente fora do que se espera da TV, hoje em dia? Ficamos mais caretas, moralistas ou evoluímos nesse sentido da posição da mulher na sociedade? Minha primeira aparição na TV foi aos seis anos no programa do Bozo. Insisti para meu pai me levar, queria torcer para o Malhado na corrida dos cavalinhos. Graças ao esforço de meu pai, realizei este desejo e ganhei com o Malhado dois pares de ingressos para o Playcenter. Mas sua pergunta mostra algo interessante, que é – cada um de nós tem um jeito diferente de enxergar as coisas. Participei sim do game show, que era apresentado diariamente ás 16h. Dessa experiência, lembro da sensação de encantamento quando entrei no estúdio com os refletores desligados o que se transformava em um forte sentimento de alegria e vida que aquele mesmo lugar ganhava quando as luzes, o som e as 70 mulheres estavam no comando de um programa ao vivo por duas horas. Lá criei laços de amizade, elas me ajudavam com as lições de casa, éramos unidas, muitas eram mães. Cada uma com a sua história, dificuldades, batalhando por um espaço, um emprego e uma vida melhor. Me recordo da ansiedade que senti, esperando em casa, o contrato ser liberado pelo juizado de menores. Na temporada que participei, nunca vesti biquíni e a sensualidade nunca foi pré-requisito. Talvez os jovens de hoje não estejam mais na frente de TV e sim com o foco voltado para a internet. Estamos em uma fase de transição, mudando a plataforma de consumo de entretenimento.

Falando em moralismo e TV, você acha que a sociedade está mais puritana na TV e mais sem limites na vida real? Acha que ainda existe um reflexo da vida real na TV ou a própria TV não exerce mais essa influência no público, como se dizia? Vejo sim uma onda grande de conservadorismo, mas em contrapartida, estamos caminhando a passos largos para a liberdade de escolha, somos nós – cada vez mais – que decidimos o que, quando e onde assistir nossos programas preferidos.

Plataformas de streaming como Netflix, HBO, Globoplay… se tornaram uma ótima opção para atores, diretores e roteiristas ampliarem seu mercado de trabalho? Um formato mais livre do que a TV aberta. Particularmente, acho ótimo as séries que se inspiram em novelas e novelas que também pegam influências das séries porque são formatos muito distintos. Essa troca é um exercício e tanto.

Hoje em dia a internet e as redes sociais ditam tendências, criam ídolos e apontam caminhos que nem sempre são algo de qualidade. Ao mesmo tempo tem revelado muita gente de diversas áreas. Como você lida com redes sociais e o que acha disso? Lido com cautela. Gosto da comunicação instantânea que as redes sociais oferecem. Lá, podemos compartilhar informações muito rapidamente, os acontecimentos do mundo podem ser acompanhados e divulgados em tempo real. Mas também existe uma guerra permanente de todos contra todos para ver quem ganha a guerra das versões, ali se destrói reputações e nomeiam heróis sem nenhum filtro, não existe mediação nesse vozerio. É uma espécie de tribunal onde se debate pouco a verdade, a coerência, o bom senso, os princípios, a lógica e o direito.

 

Recentemente, foi anunciada sua saída como contratada da Globo. Não ter um contrato fixo, dá mais liberdade ou insegurança? Procuro bons projetos e personagens onde quer que eles estejam. A chegada de canais de streaming está movimentando o mercado e trazendo mais oportunidades para atores, produtores, roteiristas, diretores, etc. que antes ficavam mais restritos às novelas. Hoje em dia, as produtoras estão movimentando séries dentro da TV e também nos canais de streaming. Ótimo para o entretenimento e a cultura do país.

Falando em trabalhos na TV, lembramos de seus trabalhos no cinema, que, por sinal, nesse ano teremos dois filmes seus – Volume Morto e Boca de Ouro. O que podemos esperar desses novos trabalhos e quando chegam às telonas? Podem esperar por personagens bem diferentes dos que já fiz na TV.

Fernanda, o que você quer como atriz? Chegou lá? O que ainda falta e te move? Chegar lá é um status que não me emociona. Gosto mesmo é de lapidar a qualidade de meu trabalho, ultrapassar meus limites, explorar um leque de possibilidades. Ser curiosa, aprender algo novo, passar por caminhos diversos e diferentes projetos, me movem.

E fora esse universo de atriz, o que te move como mulher, como cidadã? Ser curiosa, aprender algo novo, passar por caminhos diversos e diferentes projetos, conhecer pessoas, aprender algo novo… isso tudo me move.

Aos 34 anos o que mais mudou naquela jovem atriz de 20 anos que estreava em Malhação em 2005? O que ficou daquela idade e o que mais foi se moldando? Mudou meu jeito de ver o mercado de trabalho em que habito. Ganhei mais autonomia nas minhas escolhas, mas mantenho viva a ousadia da menina que não tinha nada a perder.

Se fosse apontar um defeito, um pecado e uma virtude seus quais seriam? Fico tímida quando falo em público. Gula seria meu pecado, com certeza! Tenho uma personalidade flexível.

Além da simpatia e do talento, sua beleza sempre chamou atenção. O que mais admira em você e como lida com o espelho? Se acha sexy? Adoro minhas costas, meus seios, minha boca, tenho amor pelo meu corpo mas não me atraio sexualmente por mim mesma, minha atração física é o outro. Não dá para te responder se me acho sexy ou não, porque, por definição, “ser sexy” é ser aquela pessoa que seduz outra por seus atributos físicos, mas está aí uma boa pergunta – você me acha sexy?

Em algum momento foi julgada pela imagem, apenas? Como contornar isso? Sim, já perdi trabalho por conta do “tal perfil”, mas esse tipo de julgamento, tende a se dissipar quando apresentamos um bom trabalho.

O que homens e mulheres precisam aprender juntos? O que ainda falta evoluir? Devemos aprender juntos a não reproduzir machismo, a não propagar violência e comentários preconceituosos. Se entendermos juntos as particularidades de diferentes grupos de pessoas e nos adaptarmos a elas, podemos ajudar a construir um mundo mais igualitário, com equiparação de direitos e oportunidades.

O que te faz relaxar e onde procura inspiração? Parar e respirar. Busco situações confortáveis, pessoas e lugares que despertam isso em mim – geralmente, alguém da minha família ou um telefonema, minha casa. Aprender algo completamente novo, também desperta minha criatividade e me inspira.

Para conquistar Fernanda basta… Um chopp gelado! (risos)

FOTOS MÚCIO RICARDO

BELEZA MAX WEBER

STYLING BRUNO PIMENTEL

PRODUÇÃO EXECUTIVA MÁRCIA DORNELLES