Fazendo drama ou fazendo humor, Renata Gaspar é diversão certa. “Do Saturday Night Live Brasil” ao “Tá no Ar: a TV” na TV até sua atual personagem Stephany na novela das 21h (Globo), “Um Lugar ao Sol”, Renata comprova que talento é algo que não lhe falta. Se você não está a reconhecendo é que a danada muda de visual constantemente. Aqui na MENSCH loira, de cabelo curtinho. Em um ensaio bem humorado como tinha de ser, Renata conversou conosco sobre início de carreira, papos sérios e claro, o seu jeito leve de ser (dentro e fora dos projetos).

Renata, mesmo com um histórico de personagens mais sérias e densas, como Liliana de Sob Pressão e a Stephany de Um Lugar ao Sol, você é muito vista e reconhecida como humorista. É bom mostrar que você também é uma atriz séria, mas o humor realmente é a sua casa? A verdade é que sempre fui atriz de todos os gêneros, nunca parei de fazer drama no teatro e no cinema e estou feliz que agora na TV aberta, as pessoas possam conhecer mais do meu trabalho que foi pouco visto nessa plataforma.

Como o humor entrou na sua vida? Como ele te completa como pessoa e artista? Sempre fiz trabalhos de todos os tipos, mas o humor entrou mesmo na minha vida, foi mais explorado vamos dizer assim, na época que fiz o Saturday Night Live Brasil em 2012, e dali em diante me formei em Improviso e entrei na Globo com o Tá no Ar. O humor tá na minha vida quase como um ar, sempre fui a imitadora da classe e essas coisas e acho que tenho uma característica de fazer tudo com muito bom humor e diversão. Acho que minha função no mundo, como Renata mesmo, é levar leveza e alegria para as pessoas.

Você já foi de Saturday Night Life a Rafinha Bastos, Mister Brau, Tá no Ar: a TV na TV (adorávamos!) e Pais de Primeira Viagem. Quais momentos foram impagáveis e que lhe renderam mais gargalhadas? Nossa, todos! Cada trabalho é uma trupe diferente de pessoas que se formam e isso é único! Eu sempre me divirto muito nos bastidores. Até na novela, eu e Fernanda de Freitas tivemos duas crises de riso pesadas no set. Acho que vai de química e a minha sorte é que todas, até hoje, deram match!

Aliás, trabalhar ao lado de Paulo Vieira e George Sauma não deve ser fácil! São duas peças que só no olhar, a piada está pronta. Como foi e é contracenar com talentos assim? Difícil segurar o riso? Sempre é delicioso trabalhar com pessoas talentosas, você fica ali admirando e admirando e aprendendo também. No Fora de Hora, o que não faltava eram minhas risadas frouxas, acho que pelo formato do programa estava tudo bem também mas normalmente eu fico bem concentrada, difícil rir em cena quando é cena mesmo. Mas quando dá bobeira de cansaço aí fica difícil voltar, (risos).

E como começou tudo isso Renata? Conta um pouco do seu início de carreira para nós. Eu era aquela criança que ficava imitando e fazendo cenas. Então, todo mundo dizia pra minha mãe me colocar no teatro. Fiz uma primeira peça amadora com 11 anos e me apaixonei e aos 13, fiz um curso básico e aos 14, já estava num curso profissionalizante. Me formei com 17 anos e já trabalhava numa companhia de teatro. Fazia publicidade, teatro e curtas pra faculdades. Numa época desisti de atuar, estava trabalhando de garçonete num restaurante mas um produtor de elenco me resgatou e fui parar na primeira série profissional como protagonista, o Descolados em 2009. Dali em diante, um trabalho levou ao outro.

Para algumas pessoas, passar de humorista para ser reconhecida como atriz existe uma diferença. Sofreu algum preconceito com relação a isso? Nenhum. Acho que as pessoas que acompanham a minha carreira, de trabalhos anteriores, no cinema e o que faço no teatro, na minha cia e fora dela, sabem que não venho só do humor. Então, acho que sempre fui os dois juntos.

Agora você está no ar com a Stephany de Um Lugar ao Sol, uma personagem mais dramática e que, inclusive, sofre com violência doméstica. Como surgiu o convite e como foi sua preparação para encarar uma personagem assim tão diferente do que já tinha feito? Eu fui chamada às pressas pelo diretor Maurício Farias para substituir a Maria Flor, que ficou grávida, e por conta dos protocolos não poderia mais gravar. Foi uma correria louca, mas muito gratificante explorar esse universo. Fui entrar em contato com relações abusivas, violência doméstica, entender o que faz uma mulher ficar num relacionamento desses, o que a faz não conseguir sair e etc. É um assunto delicado e não pode ser banalizado, tentei ir ao máximo nas minhas pesquisas.

Falar da violência doméstica é um tema bem atual e recorrente. Como tem te tocado? E como tem sido a receptividade do público e crítica? Me tocou muito durante as gravações, sabia que mulheres estavam sofrendo violência seja psicológica, física, sexual, etc. naquele exato instante, porque os números são esses, e isso me motivava muito a compreendê-la. Eu encontrava a saída para a Stephany de um lugar consciente, olhando de fora, e daí, sim, eu podia mergulhar lá onde ela habitava. O que ainda me comove hoje são as mensagens que recebo de histórias parecidas, de muitas que conseguiram sair e outras que ainda estão num relacionamento desse tipo, mas que conseguimos conversar e trocar ideias, de alguma forma, pelas redes sociais. O importante para as mulheres nesse contexto é saber que não estão sozinhas, para terem força pra resgatar a autoestima. Lindo ver como a arte é importante!

Dá vontade de falar “tá vendo eu sei fazer drama também?!”? (risos) Não sinto isso porque não acho o drama melhor que o humor. Isso é um grande preconceito social. Pra mim, eles têm a mesma proporção e a mesma importância e não acho nenhum mais difícil que o outro.

Quando e onde se sente mais desafiada como atriz? Quando a mentalidade daquela personagem é muito diferente da minha e até quando eu discordo de tudo nela. Acho legal tirar todo o julgamento, se despir de tudo o que eu acredito para ir olhar o que tem ali. Todos os personagens tem uma justificativa, todos. Não posso interpretar Hitler achando que ele é um cara escroto. Eu tenho que interpretar uma pessoa que pensa assim e assim e logo, age assim e assim. Acho isso lindo!

Do cabelão cacheado ao loiro curto aqui da capa. Loira ou morena. Mil faces de Renata Gastar. Como é isso para você? São várias Renatas em momentos diferentes? Nossa, já tive tantos cabelos diferentes! Até quando não era pra personagem eu gostava de mudar, mas isso só começou em 2014 quando tive que cortar o cabelo bem curto para o filme Amores Urbanos da Vera Egito. Antes disso, eu era loira de cabelo liso e não me imaginava ser diferente disso. O bom é que os personagens vão abrindo a sua cabeça, né? (risos). Hoje, me sinto mais livre pra expressar aquela que sou eu em determinados momentos, apesar de, quase sempre, é o personagem quem dita o próximo visual.

Qual o poder do humor? Humor é algo muito poderoso! Além de conscientizar o outro, questionar, criticar e atravessar quem talvez seja “inatravessavel” (acho que inventei essa palavra), acredito que rir te lembra que você está vivo! De que o natural da vida é isso. Rir junto é algo tão prazeroso que nos lembra que no fundo somos todos iguais.

O que te faz rir e o que te tira do sério? Meu tipo favorito de humor é aquele bobo e o nonsense, estranho. Cresci vendo muito desenho animado e amo o timing deles, carrego muito disso no meu humor físico. O que me tira do sério é assistir às barbaridades do Bolsonaro e de sua família e nada acontecer. Tempos melhores, virão.

Você sofre daquele mal de humoristas que todo mundo acha que você vive sorrindo e contando piada o tempo todo? Dependendo do local, sim. Até em entrevistas, quando é sobre uma série de comédia e quando não é, muda muito o tipo de perguntas ou o entrevistador muda a postura, parece que comediante não sabe e não pode falar sério. Mas isso é uma bobagem. Aliás, sério pra mim significa consistente e isso não precisa ser carrancudo, ser sério e alegre.

Para relaxar, o que procura? Gosto muito de dançar, meditar, ver filme, ler, observar as pessoas… Quando estou muito pilhada, fritando, faço um exercício de olhar pra fora. Observar pessoas, as coisas, entrar em contato com qualquer coisa que exista me acalma, me faz sair da turbulência dos pensamentos. Um jeito de meditar dentro do caos, (risos).

Quais os planos e desejos para este novo ano? Já começo o ano nos palcos. Então, isso já me deixa muito feliz. Escrevi projetos ano passado, dirigi peça e estou escrevendo um longa. Quero muito concretizar meus projetos esse ano, quero só entrar no fluxo 🙂

Fotos Carmen Campos

Assessoria Stratosfera