RAINER CADETE, O CELSO DE ‘ÊTA MUNDO MELHOR’ APRONTANDO TODAS

Por Ivan Reis

Rainer Cadete é um dos atores da nova geração que tem protagonizado momentos únicos na televisão. No ar como o inescrupuloso Celso em ‘Êta Mundo Melhor’, o ator vive um novo capítulo de sua vida profissional e também celebra a intensa e transformadora experiência da paternidade. 

No folhetim de sucesso criado por Walcyr Carrasco e Mauro Wilson, continuação de ‘Êta Mundo Bom’, exibida pela rede Globo, o personagem fica frustrado pela herança não recebida por sua tia Anastácia (Eliane Giardini). No enredo, o vilão não poupa esforços para colocar em ação os seus planos cruéis motivados pela ganância.

Em entrevista exclusiva à MENSCH, Rainer Cadete falou sobre alguns momentos marcantes de sua carreira, a relação sincera com os colegas de elenco, além da paternidade afetuosa que inspirou o livro ‘Olhares que filtram’. O brasiliense de 38 anos também declarou a sua paixão pelo filho. “Eu decidi ser um pai presente, e isso mudou tudo: a vida dele e a minha. Nossa relação me instiga a ser melhor todos os dias. Descobri que meu coração podia bater fora do meu peito. Esse coração tem nome: Pietro”, disse o ator. Confira!

Você é ator desde a adolescência com atuação em peças de teatro, novelas e cinema. De onde vem a paixão pela dramaturgia? Quais são as suas referências nesse universo? Minha paixão pela dramaturgia nasce de uma inquietação antiga, a vontade de entender as pessoas. O palco, a câmera, a literatura, a música, a dança e as artes plásticas sempre foram meus territórios de investigação da alma humana. Do impacto de ‘O Navio Negreiro’, de Castro Alves, ao aprendizado com [Augusto] Boal, Nelson Rodrigues, Shakespeare, Fernanda Montenegro e Paulo Autran, entre tantos outros, descobri que a Arte é confissão, poesia, liberdade e também resistência. A dramaturgia é, para mim, um passaporte para viver muitas vidas em uma só. E, no fundo, é isso que me mantém apaixonado: a possibilidade de ser muitos sem deixar de ser eu.

Como é reviver seu personagem Celso em ‘Êta Mundo Melhor’? Quais sentimentos o personagem despertou em você novamente? Reencontrar o Celso é como rever aquele amigo que já me deu muita dor de cabeça, mas que sempre rende boas histórias. Ele é um sujeito cheio de contradições e, talvez, seja exatamente isso que me diverte nele. Nunca é previsível. Celso já cometeu erros muito sérios: foi machista, foi corrupto na fábrica com o Candinho e escondeu o filho dele por muitos anos. Também mandou os próprios filhos para o interior e não lhes deu a atenção que mereciam. E tudo isso depois de perder Maria, seu grande amor, e de ficar praticamente à margem do testamento, recebendo apenas um relógio parado, sem valor, enquanto até o Policarpo herdou alguma coisa. Isso o machucou profundamente, mas nada disso justifica as escolhas erradas que ele fez. Eu nunca me senti tão vilão como dessa vez. Ao mesmo tempo, esse personagem expõe comportamentos daquela época que ainda atravessam os dias de hoje. Onde eu vou, as pessoas me pedem para ele melhorar, para contar ao Candinho onde está o filho, para mudar e conquistar o amor da Estela. E é curioso porque, mesmo fazendo coisas horríveis, o Celso consegue ser um cara legal em algumas relações, como com a Estela e a Anabela. Revivê-lo agora, com a bagagem que tenho, foi como descobrir que ele ainda tinha segredos guardados. Seja estudando, gravando ou assistindo, eu me surpreendo. E percebo que o público também, porque cada um acaba torcendo por ele de um jeito ou de outro.

Falando em sentimentos, você interpretou uma cena emocionante em que Maria, personagem vivida pela atriz Bianca Bin, foi vítima de uma tragédia no enredo do folhetim global. Após a cena, você se emocionou ao relembrar o momento compartilhado em suas redes sociais. Você se considera um cara emotivo? É mais razão ou coração para tomar decisões? Eu me considero um cara emotivo, sim. Emoção, para mim, é um combustível poderoso para a arte e para a vida. Em alguns momentos, a razão entra para organizar o caos, mas, no meu caso, o coração sempre fala primeiro. Essa cena com a Bianca me atravessou profundamente, porque a perda da Maria toca um lugar muito íntimo. Em algum momento da vida de todos nós existe a dor de perder alguém ou algo que amamos, e é aí que público e ator se encontram – quando a ficção abre a ferida da vida real. A Bianca é minha melhor amiga, uma atriz que eu admiro imensamente e que fez uma Maria deslumbrante Era incrível o jogo que a gente tinha em cena. Nossa amizade foi celebrada lá atrás, com o casal de ‘Êta Mundo Bom’, e poder dividir novamente momentos tão intensos com ela em ‘Êta Mundo Melhor’ é uma alegria e um privilégio.

Um dos seus papéis de maior repercussão na televisão foi Visky, o agente de modelos da minissérie ‘Verdades Secretas’ exibida pela Rede Globo há alguns anos. Qual é a marca que o personagem deixou na sua carreira? O Visky foi um divisor de águas na minha carreira. Uma loucura deliciosa, um personagem que misturava sarcasmo, vulnerabilidade e uma liberdade rara de se ver na televisão. Ele foi um marco de representatividade em uma obra que conquistou projeção internacional e venceu o Emmy. O Visky trouxe para a teledramaturgia brasileira um corpo livre, desejante e cheio de camadas, sem se encaixar em rótulos fáceis. Talvez tenha sido justamente essa complexidade que fez com que ele marcasse tanto. A marca que ele me deixou é a sensação de que, às vezes, um personagem é maior que o ator porque passa a pertencer ao público. Até hoje, quase diariamente, as pessoas me param na rua para repetir falas dele ou para contar que riram e choraram comigo. Ganhei todos os prêmios para os quais fui indicado por esse personagem, e isso foi um reconhecimento muito especial. O Visky me deu a certeza de que eu posso surpreender e ser múltiplo.

Nas novelas em que atuou, você já contracenou com nomes de peso da televisão brasileira. Qual é o ator/atriz com quem você ainda deseja trabalhar? Eu já tive a sorte de contracenar com artistas que sempre admirei e sou fã até hoje. Mas sigo cheio de desejos. Gostaria muito de trabalhar com Seu Jorge, Taís Araújo, Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Andréa Beltrão, Renata Sorrah, Wagner Moura, Selton Mello, Rodrigo Santoro, Lázaro Ramos, entre tantos outros. Ao mesmo tempo, tenho muita vontade de dividir a cena com colegas da minha geração com quem ainda não cruzei, e também com as novas gerações que chegam cheias de frescor e ousadia. Acho que uma das maiores riquezas desse ofício é justamente essa: a cada encontro, você se transforma.

Neste ano, você lançou o livro ‘Olhares que filtram’, obra que fala sobre racismo, paternidade e amor com o seu filho Pietro. Quando surgiu a ideia de escrever a obra? Como tem sido a recepção do livro pelo público? A ideia nasceu das nossas conversas como pai e filho. Eu e o Pietro sempre falamos muito sobre identidade e sobre a experiência de ser uma família multirracial. Em algum momento, percebemos que essas conversas poderiam virar livro, não só para registrar a nossa história, mas para convidar outras pessoas à reflexão. ‘Olhares que filtram’ fala de racismo, de paternidade, de dor, de beleza e de amor. No fundo, a mensagem é simples e profunda: só somos iguais na diferença. A recepção tem sido emocionante. Lançamos na Bienal de São Paulo no ano passado, depois estivemos na Bienal do Rio este ano, com tardes de autógrafos que duraram cerca de três horas. Muita gente foi, comprou o livro, queria dar um abraço em nós. Escolas têm adotado a obra e os encontros com estudantes têm sido muito especiais. Outro dia, participamos de um bate-papo e ouvimos de jovens que foi o melhor livro que leram nos últimos anos; muita gente chorou contando como a leitura os atravessou. 

Sinto que é um livro para famílias, para educadores e para quem deseja olhar o outro com mais cuidado. Ver esse retorno tão intenso é um presente. Se ‘Olhares que Filtram’ acender uma conversa honesta na sua casa, já terá cumprido o seu papel.

A leitura e a escrita sempre fizeram parte da sua vida? Sim, desde muito cedo. A leitura é o meu primeiro passaporte para outros mundos, antes mesmo do palco e da câmera. Os livros me ensinaram a ouvir silêncios, a perceber nuances e a entrar em universos que não eram meus, e isso foi fundamental para a minha formação como ator e como pessoa. Minha escola foi o Teatro Experimental de Brasília, onde trabalhávamos em todas as frentes do fazer teatral, da escrita à direção, do figurino à caracterização, da produção à atuação. Foi ali que comecei a anotar em caderninhos meus pensamentos, rascunhos de cenas e letras de música. Mais tarde, com o Renato Luciano [músico e ator], pude transformar algumas dessas escritas em canções que hoje estão disponíveis no Spotify. Nosso duo se chama ‘Leves e Reflexivas’, com músicas autorais e clipes já lançados, e, em breve, vamos subir ao palco para o nosso primeiro show. Então, sim, a leitura e a escrita sempre estiveram comigo, não apenas como ferramentas, mas como formas de existir e de me reinventar.

Qual foi a maior transformação causada pela paternidade? Pietro me tornou pai e a paternidade me transformou por inteiro. Eu decidi ser um pai presente, e isso mudou tudo: a vida dele e a minha. Nossa relação me instiga a ser melhor todos os dias. Descobri que meu coração podia bater fora do meu peito. Esse coração tem nome: Pietro.

Como tem sido a sua rotina para encarar o dia a dia de gravações? Há algo de que não abre mão? Tem semana que eu trabalho de domingo a domingo: gravo a novela de segunda a sábado e filmo ‘Arcanjo Renegado’ [série da Globoplay] na folga. Todas as cenas eu estudo com o Wil Freitas, meu preparador corporal, e a Rose Gonçalves, minha fonoaudióloga. Tento dormir oito horas, fazer exercícios, me alimentar de forma saudável, beber bastante água e receber massagem. Na prática, passo muito tempo na Globo, e, quando estou em casa, quero descansar e me preparar para o dia seguinte.

Qual é o seu momento de respiro no cotidiano? Meu maior respiro é estar com o Pietro. Estar com ele me reorganiza por dentro. Também respiro nos silêncios da manhã, quando consigo ler, tocar música ou simplesmente ficar quieto. E a Arte é sempre o meu sopro de ar: um bom filme, uma canção, um texto, uma peça de teatro.

Após as gravações de ‘Êta Mundo Melhor’, o que podemos esperar de Rainer Cadete? Podem esperar muito movimento. Vêm aí as novas temporadas de ‘Arcanjo Renegado’, o show do meu duo musical, ‘Leves e Reflexivas’, e também um novo projeto musical que vou lançar em breve. No cinema, filmei ‘Dia Útil’, das Irmãs Diniz, um trabalho marcante que denuncia a violência contra mulheres e que realizei com uma equipe incrível de Brasília, minha cidade natal. Continuo também na estrada com o livro ‘Olhares Que Filtram’, levando-o para novos estados e participando de encontros em escolas, o que tem sido muito especial. E o que vem depois de tudo isso? Talvez férias. Mas, conhecendo a minha inquietação, é mais provável que eu invente outra arte antes mesmo de arrumar as malas.

Foto @linekerlenhard

Make @alice.makeup

Stylist @marciobanfi

Retouch @brusplitter

Look da capa @leandrocastrum

Costume @herchcovitchalexandre