
A Odontologia perdeu um promissor profissional mas as artes cênicas ganhou um ator comprometido com seu ofício, dedicado, sensível e talentoso. Da breve trajetória como modelo ao sucesso nos trend tops da vida digital, o carioca Marcos Pitombo é um cara exemplar que tem construído uma carreira no audiovisual em meio a diversos personagens carismáticos e diversos. Prestes a completar 20 anos de carreira, atualmente ele esta nos palcos com a peça Clarice e Nelson, ele nos conta como foi seu início na TV, a temporada como modelo na China e seu envolvimento com a moda. E agora de volta a MENSCH sempre com um papo gostoso e a empolgação de sempre. Tanto que ele já começa mandando recadinho pra nós: “Fala pessoal da MENSCH, tudo bem? Marcos Pitombo aqui, bom, é sempre um prazer estar fazendo coisa com vocês. Eu adoro a MENSCH, adoro acompanhar as publicações. Sempre quando eu faço coisas com vocês, sai um editorial, uma matéria, uma entrevista bacana… Enfim, gosto demais e é um prazer estar aqui de novo, tá?”.
Idealizado pelo fotógrafo @demmacedo, esse ensaio com Marco Pitombo faz parte do projeto DESconstrução que visa criar conteúdo e imagens de moda e arte por meio da diversidade e beleza democrática, mostrando através de grandes personalidades da mídia que “todos estão na moda e a arte está em todos!”
Marcos, seu início de trajetória foi na moda como modelo. Hoje em dia você é muito requisitado por grifes de alta costura. Esse universo da moda sempre fez parte da sua vida. Como é isso pra você? Bom, eu comecei a minha carreira artística como modelo, mas eu estava fazendo faculdade de Odontologia na UFRJ. Tive que largar tudo já no terceiro ano, prestes a me formar, para fazer a oficina de atores da Rede Globo. Ali eu comecei a minha formação como ator, mas tive um hiato trabalhando como modelo no Rio de Janeiro e depois na Ásia. Foi um período muito bacana, muito interessante, e eu pude justamente estar junto com o segmento da moda. Eu adoro né.
Adoro todo aquele universo dos desfiles, dos lançamentos, de saber as tendências, do que está acontecendo, da troca de coleções. Hoje em dia, para mim, é muito gratificante poder ser a cara de campanhas e coleções de grandes marcas que eu admiro. Eu adoro o ambiente da moda, adoro as pessoas, é sempre um dia muito agradável, seja em um desfile, seja em um shooting, seja em um lançamento. Poder estar transitando com grandes marcas, grandes estilistas, grandes empresários do mundo da moda, para mim, é uma alegria muito grande.


Inclusive esse início como modelo foi pela China. Que recordações e ensinamentos você guarda dessa época? Pois é, foi supercurioso, porque eu estava finalizando meu cadastro na oficina de atores da Rede Globo, precisava de fotos, e pedi para uma pessoa próxima, que trabalhava na Mega Models do Rio de Janeiro, um contato de fotógrafo. E acabou que, por essas fotos que eu fiz, eu fui selecionado para ir para a China. Topei esse desafio meio que no impulso. Eu já não estava mais tão feliz com a faculdade de Odontologia, mas de qualquer forma era uma faculdade federal, não era tão fácil abrir mão de tudo. Mesmo assim, fui movido pelo desafio. Fiz uma temporada curta, de alguns meses, na China, porque logo que cheguei lá fiquei sabendo da notícia de que tinha sido selecionado para a oficina de atores da Rede Globo, que era o meu objetivo.
A viagem foi superinteressante, porque foi a primeira vez que eu morei fora do país, trabalhando todos os dias em testes, campanhas, e claro, em uma língua completamente diferente, em uma civilização de cultura oriental. Tive dificuldades para me locomover, me comunicar, comer… Foram muitos desafios, mas também muito aprendizado, muita coragem e, claro, muitas recordações e histórias.
Hoje em dia atores estão cada vez mais envolvidos com a moda em eventos, desfiles, campanhas e ativações de marca. Que critério você usa para selecionar o que vale para você? É, assim, a gente vê cada vez mais os atores envolvidos com campanhas e desfiles, não só aqui como fora do país, em semanas de moda em Milão, Paris. Eu acho muito bacana. Hoje em dia os atores e atrizes têm um canal direto com as pessoas através das suas redes sociais. Podem compartilhar um pouco das suas experiências, comunicar e falar sobre o que funciona para eles e, de certa forma, influenciar positivamente a sua audiência. Eu acho isso muito interessante.
A moda é uma conversa, né? Mas eu acho que moda é aquilo que funciona para você. Por mais que as estações venham e as tendências apareçam, a gente tem que entender o que funciona para o nosso corpo, para o nosso biotipo, às vezes até para o nosso tom de pele, para o nosso estilo. Essa é a grande sacada da moda: entender o que funciona para a gente e não ficar buscando sempre o que está no hype, porque senão a gente perde o que tem de mais importante, que é a nossa essência, a nossa identidade. Então eu acho que moda é isso: identidade. É como a gente se comunica com o nosso corpo. E, principalmente, estar bem na nossa pele, com a nossa autoestima, com como a gente se enxerga e como a gente quer ser visto.


Ainda falando em moda… Qual seu estilo? Bom, meu estilo… Eu me considero mais clássico-urbano, com uma pegada esportiva. Também gosto de tons mais neutros, algo talvez mais minimalista. Que peças não abre mão? Mas peças que eu não abro mão… Eu acho importante que, dentro de um look — seja casual, seja para um evento —, sempre tenha um ponto focal. Alguma peça que chame atenção: uma jaqueta de couro, um jeans com corte bacana, um acessório em roupas mais básicas, um moletom mais colorido ou um tênis estiloso. Vale a pena investir em um ponto de luz, um ponto focal para trazer personalidade ao look. Mas também é preciso dosar, não adianta pecar pelo excesso.
Eu sou mais básico. Não sou muito extravagante em estampas, colorações, misturas de texturas. Vou mais no que funciona no meu corpo. Hoje em dia eu prezo por conforto, por um bom corte, por um tecido agradável. Peças que fazem sentido para mim: uma boa jaqueta de couro, um relógio bacana, um acessório que complemente, um cordão, uma boa calça jeans. E, claro, camisa branca, camisa preta, t-shirt branca, t-shirt preta — que funcionam em diversas situações. Hoje também se usa muito alfaiataria, calças para ocasiões específicas, e eu acho que vale. Mas o mais importante é saber brincar com a ocasião. Chique e estiloso é se portar corretamente diante do que a situação pede. Entender o dress code, estar alinhado com a proposta, com o clima e com o que funciona para você.
Naturalmente você começou a fazer sucesso nas redes sociais muito graças às suas participações em novelas. E uma coisa termina puxando a outra. O quanto a popularidade nas redes ajuda a fechar um trabalho no audiovisual? Já percebeu isso? Sinceramente, eu custo a acreditar que um diretor ou um autor vá designar a responsabilidade de um personagem — seja numa novela, que é um trabalho longo, ou num filme, que é um trabalho de muita importância — a um ator ou atriz somente pelo fato dessa pessoa ter muitos seguidores em rede social. Eu prefiro não acreditar nisso, porque o trabalho do ator e da atriz é muito complexo, demanda muita responsabilidade, além de talento, claro. Então, prefiro acreditar que é sempre o talento que determina uma escalação e não outra coisa.
Mas é claro que muito se fala sobre essa necessidade comercial que o audiovisual vem enfrentando nos tempos atuais. Ainda assim, acredito que o fundamental é sempre o talento. E tem um ponto importante: a gente não pode ter preconceito em relação à origem das pessoas. Todo mundo vem de algum lugar, e é importante estar sempre estudando, se aprimorando como profissional. É muito louvável ver modelos, influenciadores, atores de teatro se aprimorando dentro da área. É muito bonito ver a evolução de alguém ao longo da trajetória. A profissão do ator não é fácil. É fundamental o estudo, a dedicação, o talento. São essas máximas que eu e grande parte da classe artística acreditamos.


Muito se comenta que desde que você surgiu na TV, em Malhação (2006), até hoje, com 43 anos, você quase não mudou. Alguma rotina de cuidados com pele e corpo? A que se deve isso? Bom, primeiro, obrigado pela gentileza, apesar de eu achar que mudei sim. (risos) Sempre tentei cuidar da minha saúde visando longevidade e qualidade de vida: hábitos saudáveis, boa alimentação, exercícios físicos, muita água. E claro, acompanhamento com profissionais da área médica — acreditando na ciência: dermatologistas, educadores físicos, nutricionistas. Sempre tentei cuidar do corpo de dentro para fora.
Hoje em dia, depois de certa idade, também comecei a usar alguns cremes para hidratar a pele, além do protetor solar, que é fundamental. Mas acho que ser jovem é isso: ter bons hábitos, descansar, estar com boas companhias, bons amigos, dar risada. É estar de bem com a vida, feliz no corpo que a gente tem e saber aproveitar o momento presente. Esse é o grande presente: viver o hoje de forma sábia, sem excessos. Essa é um pouco da minha receita.
E por incrível que pareça no próximo ano já se vão 20 anos de carreira. Que avaliação faz dessa trajetória até aqui? São 20 anos de carreira. Na verdade, comecei em 2002 no teatro, no templo Glauber Rocha, e profissionalmente em 2005, com participações. De lá pra cá foram muitos personagens, muitas trajetórias. Sempre fui movido pelo desafio, desde a mudança da Odontologia para a arte até cada personagem que veio depois. Foram dois anos em Malhação. Depois recebi o convite da Record para protagonizar Os Mutantes, que foi uma novela divertida, com elenco numeroso e bacana. Na Record, fiz muitos personagens de destaque. Optei por encerrar esse ciclo e me recolocar no mercado. Consegui entrar em novelas da Globo com personagens de repercussão, fiz trabalhos no cinema.

Hoje também tenho vontade de migrar para a produção de teatro. Lá fora é comum ver atores assumirem produção executiva, escolhendo os assuntos e rumos da carreira. Tenho feito cursos de roteiro, cinema, para ampliar opções e conhecimento. Sempre fui inquieto, sempre gostei de aprender mais, acompanhar de perto o set, não apenas atuar. Pretendo expandir meu campo de atuação, porque acredito que a arte é transformadora: é um espelho para a sociedade, provoca reflexão, empatia, amadurecimento. Esse é o grande barato da minha área, e a missão do artista.
Qual foi seu divisor de águas na carreira? Acho que o melhor personagem é sempre o próximo, o grande desafio é sempre o que está por vir. Mas claro, alguns marcam pelo momento em que acontecem. Um divisor foi o Felipe, de Haja Coração, um casal com a Sabrina Petraglia. Era um casal entre outros da novela, mas acabou tomando grande atenção do público. A história cresceu muito, houve uma demanda enorme.
Um dia emblemático foi a cena do primeiro beijo do casal. Coincidentemente, caiu no mesmo dia do impeachment da presidente Dilma. Enquanto o país estava voltado para a política, a cena virou o assunto mais comentado, foi top trending mundial no Twitter. Foi a maior audiência do dia na emissora, até mais que a os flashes do jornalismo e a cobertura política. Foi um momento marcante, de grande repercussão e reconhecimento, e sou muito grato a todos os envolvidos.


Quais os planos a curto e médio prazo? Agora estou com a peça Clarice e Nelson, um recorte biográfico a partir de entrevistas. Estamos indo para uma curta temporada em Porto Alegre, no Teatro do Santander. É um espetáculo delicioso: falar sobre Nelson Rodrigues, que retratava a sociedade pelo “buraco da fechadura”, e Clarice Lispector, que mergulhava nos sentimentos e nas sutilezas da alma humana. Queremos levar esse espetáculo para outras capitais no ano que vem. Também tenho outro projeto de teatro, com texto do Gabriel Chalita, autor que admiro muito. É um cara super estudioso e inteligente. Então, dentro dos palcos, meu foco tem sido buscar trabalhos que tenham significado e que valorizem nossa cultura e a palavra. Esse tem sido meu objetivo.
Onde mora sua vaidade (como homem e ator)? Como ator, minha vaidade é ter personagens que tenham significado. Dentro de uma história que possa tocar o coração de quem assiste, provocar reflexão, empatia. É muito gostoso quando termina um filme ou peça e as pessoas querem conversar sobre aquilo. Essa é a minha vaidade: que meu trabalho tenha significado e que a arte seja transformadora. Como homem, acho que talvez a vaidade física? Não vou ser hipócrita: gosto de hábitos saudáveis, beber bastante água, usar protetor solar, hidratante, manter a pele limpa e cuidada. Também gosto de estar com roupas confortáveis e adequadas para cada situação, que me deixem confiante para os desafios do dia a dia.
Para conquistar Marcos Pitombo basta… Acho que um bom papo. Simpatia e educação são fundamentais. É tão importante ser bem tratado e observar como as pessoas tratam os outros. Bom humor também é essencial. Gente bem-humorada, confiante, de bem com a vida… isso acaba sendo fundamental. Um bom papo é sempre importante. Acho que é isso.

Foto @demmacedo
Videomakers @romulo_albuquerq @olivervideomaker_
Beleza e cabelo @dariobion @g.make.hair
Styling @a.mariamamonteiro
Studio @nasulstudio
Backstage @gimonzaa
Parceria de moda @linovillaventura @domregisvieira @j.boggo @fruit.titus


