
Por Dulce Rodrigues
A poeta americana Maya Angelou em sua autobiografia escrita em 1969, usa seu poema Pássaro Engaiolado — um pássaro preso em uma “gaiola com mobilidade limitada, capaz apenas de cantar sobre a liberdade que nunca pode alcançar”. Este pássaro engaiolado é uma metáfora de sua experiência de uma mulher pobre e negra, mas que também nos diz da agonia e da crueldade avassaladoras da opressão de comunidades marginalizadas, relacionando-as ao sofrimento emocional do pássaro engaiolado. Os limites impostos pela gaiola com o impacto emocional, transforma o pássaro e, ao fazê-lo, rouba-lhe a própria identidade.
Assim, Angelou, através da representação de dois pássaros – um enjaulado. E com seus sonhos, idealiza o que é ser livre e, a escravidão, através do pássaro enjaulado. O ‘pássaro livre’ desfruta de todas as autonomias que vêm com essa libertação, enquanto, o pássaro enjaulado é privado da liberdade, vivendo no túmulo de seus sonhos. Maya Angelou justapõe as duas ideias, contrastando as condições de vida dos brancos e negros, especialmente, da mulher negra pobre que deveriam desfrutar da liberdade, um dos direitos fundamentais que todo ser humano tem direito a desfrutar.
Dentre esses direitos básicos, está, principalmente, o direito à vida que é o direito básico dos básicos. Assim, como a sociedade poderia garantir este direito a seus cidadãos, principalmente aos mais vulneráveis, como é o caso da mulher – seja esta negra, branca, pobre ou rica?
No que toca ao direito da mulher à vida, no Brasil, a cada 6 horas uma mulher morre vítima de feminicídio, isto é uma mulher é assassinada pelo simples fato de ser mulher. É o que aponta o novo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Este número deveria ser chocante, mas o que é ainda mais alarmante é que o número real é provavelmente muito maior, devido à subnotificação.
O feminicídio — o assassinato de mulheres em razão de seu gênero é uma manifestação extrema de violência contra mulheres e meninas, enraizada na misoginia e não tem tido respostas suficientes. O feminicídio é uma questão de saúde pública e direitos humanos e que, para instituições tais como a Global Citizen e as Nações Unidas, é uma questão universal concernente a qualquer ato violento cometido contra uma pessoa com base em seu gênero e exige ação. Para a ONU, a definição para esta é “Qualquer ato de violência de gênero que resulte, ou possa resultar, em dano ou sofrimento físico ou sexual para as mulheres, incluindo ameaças de tais atos, coerção ou privação arbitrária de liberdade, ocorrendo na vida pública ou privada”.
Esta violência pode ser física – muito comum em casos de violência doméstica com lesão corporal, complicações de saúde ou até mesmo com morte, também pode ser sexual, o que envolve qualquer ato sexual praticado contra uma pessoa sem o seu consentimento e que pode variar de assédio sexual a estupro. E, por fim, a violência de gênero pode ocorrer de forma psicológica – efetivada através de comportamentos e ações que fazem com que uma mulher se sinta insegura, vivendo sob controle rigoroso das ações, coerção, chantagem, controle monetário e relacionamento nocivo forçado entre parceiros íntimos. Esta seria a forma mais perniciosa forma de violência contra mulheres, depois da física. “É ser morta apenas por ser mulher” como o jornalista e escritor Klester Cavalcanti falou para o Podcast MENSCH, no último dia 11 de outubro.

MATOU UMA, MATOU TODAS
Com este título, o jornalista e escritor Klester Cavalcanti, depois de dedicar seis anos a pesquisas sobre feminicídio, desenvolveu essa obra “Como contribuição no sentido de que o homem seja semeador da conscientização, embora que, nós homens, não saibamos ouvir” – palavras do autor para a MENSCH também por ocasião da gravação do Podcast MENSCH.

Essa obra nos traz casos de vários estados do Brasil que tratam dessa terrível realidade seguidos de análises, leis, instituições e ações desenvolvidas no sentido de se prevenir, tratar e punir perpetradores desse tipo de crime. Nessa obra, o autor chama à atenção a importância crucial de que se estabeleça conexões entre assassinatos de mulheres e diferentes formas de violência fatal cometidas por homens contra mulheres ao longo do tempo, através de múltiplas fronteiras culturais e geográficas. Em Matou Uma, Matou Todas, Klester expõe não apenas situações verídicas com os nomes das vítimas e de seus assassinos, como também a luta de famílias e de autoridades no sentido de buscar justiça para as vítimas que, por vezes, são mulheres invisíveis, trazendo à tona a violência contra mulheres de diferentes classes sociais e de origem.
Para tanto, Klester Cavalcanti buscou, como parte de seu propósito de desvendar, de certa forma, o porquê de certos homens assassinarem aquelas que um dia representaram tanto em suas vidas e, até onde as três formas de violência de gênero acontecem em um relacionamento íntimo – da violência física à sexual e à psicológica.
Em sua Nota do Autor, na obra, Klester chama a atenção para o papel da sociedade, das religiões e fatos históricos na construção do ser humano masculino – o de sempre e o de hoje. Dessa forma, vê-se até que ponto esses aspectos podem levar a comportamentos motivados por questões de gênero, o que estaria fundamentado na cultura, da desigualdade generalizada entre mulheres e homens e nos papéis que o patriarcado atribuiu e ainda atribui a homens e mulheres que ainda seguem essas referências culturais – mulheres são construídas no patriarcado como propriedade dos homens, e os homens têm permissão para exercer poder e controle sobre elas.
Em seu trabalho, o escritor nos faz sentir no centro de acontecimentos fatais. Na construção de sua obra Matou Uma, Matou Todas, Klester Cavalcanti não apenas expõe casosda violência contra a mulher de forma especial – ele não apenas narra suas histórias de forma jornalística, mas vai além e trabalha o texto de forma criativa, fazendo de sua narrativa um excelente exemplo do que é jornalismo literário.

Uma obra dessa natureza, traz histórias reais que se lê como um texto literário que expressa sentimentos e experiências, transmitindo a realidade social, trazendo o jornalismo como forma de retratar a sociedade contemporânea. Assim, como seus companheiros de profissão Euclides da Cunha – que é conhecido como o pai do jornalismo literário brasileiro com sua obra Os Sertões, o jornalista e escritor inglês Daniel Defoe e o jornalista e escritor americano Truman Capote,. Klester Cavalcanti nos presenteia com uma obra que, além de ser comovente, esta faz uma grande diferença com seu texto retratando a sociedade contemporânea, ao tratar de um dos mais terríveis problemas dessa sociedade nos dias atuais – o feminicídio.
Klester Cavalcanti é um jornalista e escritor pernambucano de Recife que tem atuado como jornalista desde 1994, em grandes veículos de comunicação do país tais como Veja, Estadão, Rede Globo e IstoÉ. Klester já conquistou vários prêmios internacionais – Melhor Reportagem Ambiental da América do Sul, conferido pela agência Reuters e pela ICUN (União Mundial para a Natureza) e o Natali Prize, o mais importante prêmio de Jornalismo de Direitos Humanos do mundo. Entre suas conquistas nessa área, lhe foi concedido o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. Klester é autor de cinco livros e já conquistou o Prêmio Jabuti de Literatura, com as obras Viúvas da Terra (2005), O Nome da Morte (2007) e Dias de Inferno na Síria (2013). O autor teve a obra O Nome da Morte adaptado para o cinema com grandes astros nacionais no elenco, tendo sido lançado em mais de 20 países, em oito idiomas, fazendo de Klester Cavalcanti o escritor brasileiro de jornalismo literário mais traduzido no mundo.
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