ESTRELA: RITA BATISTA E SUA ESTREIA EM “A NOBREZA DO AMOR”

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Rita Batista consolida mais um passo importante em sua trajetória artística. Após ganhar destaque como uma das apresentadoras do programa É de Casa e marcar presença no debate contemporâneo do Saia Justa (GNT), essa baiana “retada” (como ela mesma explica nesta entrevista) agora amplia seu repertório ao estrear na dramaturgia com a novela A Nobreza do Amor. Na trama, Rita dá vida à personagem Ladisa, do reino de Batanga, trazendo à cena sua presença marcante, autenticidade e sensibilidade — características já reconhecidas pelo público em sua atuação na televisão. “Ela é uma mulher com uma missão clara de defesa de seu território e de seu povo”, comenta Rita ao longo dessa entrevista exclusiva para a MENSCH. Sua transição para a teledramaturgia reforça sua versatilidade e evidencia uma artista em constante evolução, que transita com naturalidade entre informação, entretenimento e interpretação. Com carisma e personalidade, Rita Batista inaugura essa nova fase reafirmando seu lugar como um dos nomes mais interessantes da comunicação e das artes no cenário atual.

Você acaba de estrear na novela “A Nobreza do Amor” com a personagem Ladisa. Como foi o processo de construção dessa personagem e o que mais te desafiou nesse papel? O meu primeiro grande desafio é o fato de nunca ter interpretado uma personagem em uma novela. Embora eu tenha participado de três produções na TV Globo: Vai na Fé, Dona de Mim e Fuzuê. Ali eu estava como Rita Batista, apresentadora do É de Casa, fazendo pequenas participações ao lado de colegas como Thiago Oliveira, Talitha Moretti e Maria Beltrão. Agora, o cenário é outro: sou a Ladisa de Batanga. Ela é uma mulher com uma missão clara de defesa de seu território e de seu povo, integrando a Resistência de Batanga. Ladisa acaba de perder o marido e parte, literalmente, para a luta. Por conta disso, todo o meu corpo se movimenta de forma diferente, assim como o olhar; ela carrega um luto misturado com raiva, resultando em uma tristeza reivindicatória.

Tudo se modifica nessa construção: o jeito de falar, a voz e a própria prosódia da novela. Existe também o desafio de contracenar e estabelecer um contato com a câmera que é completamente distinto do vídeo ao qual eu estava acostumada. Na dramaturgia, não olhamos para a lente nem falamos o que queremos; seguimos um texto escrito que precisa refletir pensamentos, hesitações, desejos e anseios, sempre em harmonia com o diálogo estabelecido. São muitos desafios e, por isso, o estudo é intenso. O objetivo é convencer o público, entrar na produção, não atrapalhar os colegas e ajudar a contar essa história grandiosa que é a Nobreza do Amor. É uma obra de Duca Rachid, Elísio Lopes e Julio Fischer, uma trama pela qual o Brasil está aprendendo a se apaixonar.

Sua trajetória na televisão sempre foi marcada pela leveza e autenticidade. Como foi para você migrar para a dramaturgia e assumir uma personagem em novela? Tudo o que conquistei foi pela versatilidade, autenticidade e leveza com que sempre conduzi meu trabalho. Sou leve, mas sou contundente. Quando comecei a maturar o desejo de atuar, fui atrás dos meios, das pessoas e dos departamentos necessários. Fui humildemente pedir um teste, consegui um papel e agora o desempenho com essa mesma humildade. Sei que este é o meu primeiro trabalho e que ele é enorme!É uma história nunca antes contada na TV Globo, gerando uma grande expectativa. O elenco é primoroso, com protagonistas como Lázaro Ramos e Duda Santos, além de nomes como Érika Januza, Ronald Sotto, Hilton Cobra e Zezé Motta. Estar ali como aprendiz, entendendo essas dinâmicas ao lado de profissionais como Fabio Lago, Cyria Coentro, Emanuelle Araújo, Fabiana Karla, Samantha Jones e tantos outros, é um privilégio.

Nossa direção, liderada pelo mestre Gustavo Fernandez, é de uma competência ímpar. Essa migração para a dramaturgia está sendo feita com muito apuro, cuidado e responsabilidade. Não estou ali para brincar; é para valer. Estou em um produto de uma emissora com décadas de história, que é a TV Globo, entrando na casa dos brasileiros todos os dias às 18h20. O senso de responsabilidade é o mesmo do jornalismo ou do entretenimento. Só porque estou emprestando meu corpo e voz a uma personagem em uma fábula, não significa que seja menos sério; pelo contrário, a interpretação exige ainda mais de nós. Ver esse desejo de tanto tempo se tornar realidade hoje é simplesmente maravilhoso.

Ladisa traz alguma conexão com a Rita da vida real ou é um universo completamente novo para você? Eu e Ladisa temos uma interseção fundamental: a fome e a sanha por justiça. A personagem transforma um luto individual em uma luta coletiva; ela busca liberdade para o seu povo. Assim como eu, Rita Batista, cidadã, também desejo liberdade para os meus. Vivemos em um Estado Democrático de Direito, não é uma monarquia como em Batanga, mas sabemos que ainda não somos completamente livres. Ainda existem muitas amarras, especialmente para o povo preto, que é a base da pirâmide social do Brasil. Vivemos em um país com quatrocentos anos de escravidão, e sabemos que a nossa ascensão é atravessada por esse histórico. Nós nos encontramos nesse lugar de ideais. É muito gratificante quando acontece essa fusão, pois acredito que a Ladisa conseguirá alcançar seus objetivos, assim como nós, brasileiros e brasileiras, e eu me incluo nisso como cidadã, também conseguiremos.

Você também atua como apresentadora e esteve presente em programas como É de Casa e Saia Justa. Como é equilibrar o ao vivo, com sua espontaneidade, e a atuação, que exige outro tipo de entrega? É completamente diferente, não há um equilíbrio exato porque são duas dinâmicas televisivas distintas. Como alguém que vive a televisão intensamente, quero atuar em todas as frentes possíveis. Quando surgiu a oportunidade na teledramaturgia, eu mesma pedi um teste. O teste já era para “A Nobreza do Amor”, foi tudo muito rápido em relação a preparação e o mergulho intenso no estudo são experiências totalmente novas. Se a transição do ao vivo para o gravado nos programas já apresenta diferenças, imagine na teledramaturgia, onde você defende uma personagem que não é você. Não são os seus desejos nem as suas falas; você precisa sustentar a emoção de uma outra pessoa. O texto, embora saia da sua boca, não foi elaborado por você e traz elementos que muitas vezes não lhe pertencem, exigindo uma busca interna. Essa é a delícia de construir uma personagem.

Para mim, aos quase 50 anos, ter esse novo aprendizado e acessar outras áreas do cérebro é fantástico! Estou cercada por um elenco gigante que me apoia e conto com preparadores da TV Globo competentíssimos e premiados, que já passaram por inúmeras obras. Ter esse suporte e vivenciar essa experiência é extremamente rico. Acredito que, se todas as pessoas pudessem ter esse apoio em suas viradas ou complementos de carreira, seriam ainda mais encorajadas. Isso é o que me movimenta. Estou muito feliz e tive a oportunidade, no início deste ano, de me testar nos dois lugares simultaneamente: já estava gravando a novela enquanto apresentava o Glô Na Rua. Essa alternância entre Rita e Ladisa é sensacional; é um momento muito especial da minha vida.

Seu novo livro, “A Vida é um Presente 2”, chega com mantras, orações e exercícios de reconexão espiritual. O que te motivou a dar continuidade a esse projeto? Houve um forte apelo do público após o sucesso de A Vida é um Presente 1, que teve suas edições esgotadas. Foi então que a editora Planeta, através do selo Academia, me procurou e propôs o segundo volume. Aceitei na hora, mas com uma condição: desta vez, eu queria diminuir o número de mantras para aprofundar o estudo. A minha intenção é que quem já passou pelo primeiro livro encontre no segundo mais maturidade e envergadura para trabalhar as afirmações, os decretos, as orações, os mantras e os exercícios. A proposta é que este novo volume seja um complemento real; é como se você tivesse se graduado no primeiro livro e agora estivesse entrando na pós-graduação com A Vida é um Presente 2. A aceitação tem sido excelente! Embora minha agenda ainda não tenha permitido um lançamento oficial com evento, o livro já está disponível no mercado, nas livrarias e em todas as plataformas digitais. O retorno das pessoas tem sido muito positivo, e essa é a maior satisfação para uma autora.

A espiritualidade tem um papel cada vez mais presente na sua vida. Em que momento você percebeu essa virada de chave? Essa minha trajetória já tem tempo, é algo paulatino e gradual. Fui criada em um lar eclético: minha mãe é uma espiritualista convicta; ela é do Candomblé, mas também frequenta a missa e já passou pela Igreja Católica e pela Seicho-No-Ie. É uma vivência bem brasileira. Minha avó era católica, mas, como nasceu no dia 4 de setembro, fazia promessa de oferecer caruru de sete meninos todos os anos. Essa tradição passou para mim, e eu continuo fazendo o caruru de Cosme e Damião, dos Santos Gêmeos, os Ibejis no Candomblé, todo mês de setembro. Lembro que minha avó dizia para eu pedir a São Cosme ajuda nas provas de matemática quando eu estava em recuperação, e realmente acontecia. Hoje, sou do Candomblé há duas décadas. Embora não exerça uma função específica atualmente, tenho minha família de Axé.

Fui descobrindo muitas coisas através de pessoas que chegaram na minha vida, como minha mentora Heloísa Simão, que me apresentou a divindade do “Eu Sou” presente através do livro Um Curso em Milagres, ensinando-me sobre abundância e prosperidade. Tive também o Del Carvalho, meu cabeleireiro por muito tempo e um amigo querido, que me apresentou a Fraternidade Branca e aos Mestres Ascencionados. E a Soane Mattos, outra amiga querida que me apresentou aos Deuses Hindus, como Ganesha e Krishna, aos quais tenho total deferência e devoção, além dos mantras e do Om. Tem sido assim: um processo paulatino e gradual, e eu continuo aprendendo. É um caminho para a vida toda.

Entre televisão, atuação e escrita, você está vivendo uma fase bastante plural da carreira. Como você organiza sua energia para dar conta de tantos projetos diferentes? É uma organização de energia, mas acredito que seja feita com o mesmo tesão e a mesma vontade. Esse é o diferencial! Como estou fazendo novela agora, estou com toda a garra: aprendendo, entendendo, estudando, observando os meus colegas e adquirindo experiência nesse exercício, nessa profissão. Quando estou exercitando a escrita para o A Vida é um Presente, busco deixar o texto palatável e inteligível. Também é um tesão, sabe? É uma energia de vontade e desejo de fazer a coisa bem-feita, de realizar e de que as pessoas recebam o conteúdo da mesma forma que estou empenhada em fazê-lo. No ao vivo e na apresentação é a mesma coisa. Sinto que é uma movimentação de toda essa energia para um objetivo. Ela fica organizada com a mesma intensidade para que as coisas se realizem de diferentes formas, afinal, são diferentes áreas e atividades.

Qual foi o aprendizado mais transformador durante a criação de “A Vida é um Presente 2”? A Vida é um Presente 2 traz para o leitor o que eu considero mais importante no processo de autoconhecimento: o exercício através dos mantras, das afirmações e dos decretos. É o ato de exercitar e parar um tempo. Como há uma proposta de leituras mais aprofundadas, exercícios mais longos e dinâmicas, a pessoa precisa reservar um momento para fazê-los e, com isso, aprimorar esse autoconhecimento.

O aprendizado mais transformador é entender que não adianta se desassociar, porque tudo é energia. Isso independe da religião que você professe ou mesmo se você não tem uma religião, pois não passa por religiosidade, mas sim por espiritualidade. Isso é algo que qualquer pessoa pode desenvolver e exercitar em qualquer tempo da vida, em qualquer momento do dia. O maior aprendizado é este: se está funcionando para mim, vai funcionar para as outras pessoas. Independentemente das circunstâncias que você esteja vivendo, você pode sim reservar um tempo do seu dia para mergulhar na sua cabeça e nas suas vontades. É preciso entender que tudo o que você está sentindo, você está pedindo. Essa é a senha: Tudo que você está sentindo, você está pedindo.

Você estreou na TV há alguns anos e construiu uma trajetória sólida. Olhando para trás, o que diria para a Rita do início da carreira? Há 22 anos tudo era muito diferente e o mercado girava em outras bases, mas uma coisa que eu diria para ela é: se alinhe ao mercado publicitário logo. Não deixe somente o departamento comercial das emissoras agir e tratar de tudo. Entenda que você também é um produto. Ao compreender isso, você não está se vendendo ou burlando os manuais de ética profissional de maneira alguma. Pelo contrário: apresente-se como um produto comercial, pois é justamente essa visão que vai impulsionar a sua carreira.

Baiana arretada, você traz uma força e um alto astral que se tornaram sua marca registrada. Mas o que te  tira do sério? E o que coloca um sorriso no rosto? É retada! Em Pernambuco é “arretada”, mas na Bahia a gente não fala assim… Há várias coisas que me tiram do sério no macro, e a injustiça é uma delas; por isso, eu me meto nas situações. Me incomoda ver pessoas acharem que são melhores do que as outras por causa de sua posição social, da cor da pele ou do nível de instrução que tiveram. Vejo muito isso em repartições públicas. Quando as pessoas chegam sem conhecer aquele universo, surge o tal do “pequeno poder” de Michel Foucault: o atendente trata mal, fala alto e expõe o cidadão publicamente. Nesses momentos, eu interfiro.

Outra coisa que me irrita é alguém querer dar uma de esperto, achando que os outros são bestas ou ignorantes. Ou então, quando não fazem cumprir a lei em algo que é seu direito. Isso me deixa louca e é o motivo de eu me envolver em tantas brigas e tretas. Não tenho apenas um advogado, tenho um escritório inteiro que me representa, porque “escreveu, não leu”. Dura lex, sed lex: a lei é dura, mas é a lei. As flexibilizações existem, obviamente, mas é preciso que a pessoa chegue devagarinho, de mansinho. Não venha “na tora”, como dizemos em Salvador, porque não vai funcionar. Devemos exercer a civilidade; se quiser conversar ou mediar, a gente media. Agora, se vier com arrogância, eu não altero a voz: eu esfrego a lei. Um exemplo simples é estacionar na minha porta. É uma entrada e saída de veículos, uma garagem. Se a pessoa chegar, explicar que a rua está cheia e perguntar se pode deixar o carro ali rapidinho, beleza. Mas se vier de uma de esperta, largar o veículo e sair fora, quando voltar o carro já terá sido guinchado pela Transalvador, o órgão de trânsito da minha cidade.

Para quem acompanha seu trabalho e busca mais equilíbrio emocional e espiritual, qual mensagem você gostaria de deixar neste momento? É importante que as pessoas tenham mais certeza sobre si e achem menos sobre os outros. Vejo isso muito fomentado pelas redes sociais e pela internet; as pessoas passam horas rolando o feed procurando, talvez na vida alheia ou nos vídeos, o que está faltando nelas. A verdade é que somos uma obra inacabada. Sempre nos faltará um pedaço. É preciso que admiremos o processo de cada um e o nosso próprio, entendendo que há uma construção contínua. Devemos nos aplicar nisso e mergulhar em nosso universo. Essa é uma viagem para dentro, o tempo todo. O equilíbrio emocional e espiritual de que tanto se fala precisa ser buscado ao longo da vida e é algo muito particular; ninguém o fará por você. Se houver uma mensagem central, é esta: mergulhe em si. Faça essa viagem interior, pois as respostas estão todas aí. É assim que se consegue trazer harmonia, o equilíbrio, às vezes, está muito ligado à medida, mas essa harmonia para a sua alma, para o seu corpo, para o seu coração e para a sua cabeça.

Fotos @marciofariasfoto

Produção Executiva @annepinto

Figurino @lojamescklasalvador

Make e Cabelo @zilreis

Camareira @Henrietedamiani

Vídeo @leandro.fotografias