ESTILO: RIOFW – O QUE A SEMANA DE MODA CARIOCA NOS ENSINA SOBRE ALFAIATARIA MASCULINA?

DESFILES REVELARAM NOVAS LEITURAS DE ELEGÂNCIA COM OUSADIA

Por Ivan Reis

Realizada entre 14 e 18 de abril, a primeira edição da Rio Fashion Week ocupou o Pier Mauá e pontos icônicos da cidade, como a Marquês da Sapucaí, o Museu do Amanhã e o Palácio da Cidade. O evento marcou um novo impulso para marcas, designers e coleções. Além das tendências, a alfaiataria de cortes precisos, clássicos e atemporais marcou presença em alguns momentos na semana de moda carioca. Estilizada e contemporânea, a moda masculina também se integrou ao lifestyle carioca. A MENSCH esteve no Rio de Janeiro para acompanhar como marcas e criadores traduziram novos códigos de elegância masculina na primeira edição da Rio Fashion Week. Selecionamos os melhores momentos da temporada. 

LUCAS LEÃO

No retorno do estilista às passarelas, a coleção trouxe uma dimensão sociopolítica à moda masculina. Nesse cenário, Lucas Leão resgatou a alma da ‘Capital Federal’, o centro da moda brasileira que se perdeu entre cliques e algoritmos no mundo de hoje. Natural de uma família de alfaiates, Lucas destrinchou boa parte dos códigos que regem a alfaiataria clássica e assinou peças tradicionais. A ênfase está no corte, na sobreposição e na formalidade do processo e do caimento. Em um mundo de informações e desejos rápidos, a marca propõe o luxo do tempo: a roupa pede prova, ajuste e paciência. Paletós de shape quadrado, golas altas, além de sobretudos e calças amplas enfatizaram o estilo tradicional. Nos detalhes, o designer trouxe novos olhares. As penas, que eram consideradas itens de luxo, ganham um ar contemporâneo em algumas peças e são usadas como acessório.

Lucas Leão trouxe de volta a elegância da alma carioca do passado sem perder o olhar para o futuro. O universo masculino do designer preza pela tradição sem esquecer do presente e, essencialmente, da construção do futuro. 

MISCI

Em um dos momentos mais impactantes da fashion week carioca, o diretor criativo Airon Martin apresentou a coleção ‘Escapismo Tropical’ no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Evocando as cores e os estilos da cultura brasileira dos anos 1970, o designer trouxe o olhar de dentro e de fora do Brasil. Camisas, paletós e calças ganharam edições em tecidos fluidos, estampas em tons terrosos, além de bordados e detalhes que firmaram a identidade da marca. Embaladas pela bateria da Beija-Flor, as produções contaram com acessórios que dialogavam entre o passado e o presente. Nesse movimento, o relógio Casio Vintage traz um legado de décadas. “Esse encontro propõe o relógio como parte ativa da estética, funcionando como um elemento de linguagem dentro do conceito do desfile”, destacou Fernando Fukuda, head de marketing da Casio Brasil. Entre os códigos da marca brasileira, a elegância do homem da Misci traz o corte formal misturado a dobras, amarrações, aplicações e detalhes cheios de personalidade.

APARTAMENTO 03

Partindo de referências literárias, como a sensibilidade de Macabéa, protagonista de ‘A hora da estrela’, de Clarice Lispector, e sua releitura em ‘Macabéa: flor de mulungu’, de Conceição Evaristo, a marca trouxe os códigos da alfaiataria revisitados de forma sofisticada. Cetim, renda e algodão compõem a experimentação de volumes e formas em uma paleta de cores pálida e marcante em momentos precisos do desfile. Nas produções masculinas da coleção do diretor criativo Luiz Cláudio, camisas, calças, golas e casacos têm pontos bem pensados. Flores na lapela, franjas, texturas e formas de styling compõem um estilo quase exuberante. A marca trouxe o guarda-roupa de um homem atento às tendências de novas silhuetas, perspicaz na combinação de peças e de olho na cena da moda contemporânea. 

DENDEZEIRO

Na nova coleção, a marca retornou às origens com um olhar criativo. Em ‘House of Dendezeiro’, os diretores criativos Hisan Silva e Pedro Batalha partiram da cultura negra como espaço de construção, identidade e pertencimento. A alfaiataria é combinada com o streetwear, um dos códigos mais característicos da marca em estampas, mistura de peças e acessórios. As intervenções artísticas chamaram a atenção nos casacos alongados, jaquetas, conjuntos estampados e acessórios. Mais uma vez, a cultura de rua tem espaço garantido na coleção. O homem da Dendezeiro sabe buscar referências, gosta de misturar códigos tradicionais e ousados e, nesse movimento, não abre mão da elegância e de peças que expressem a sua personalidade. 

HANDRED

Partindo de uma composição artística, a Handred trouxe uma leitura inusitada de estilos para o guarda-roupa masculino. Com a apresentação da Companhia de Ópera da Lapa, regida pelo maestro do Theatro Municipal, o desfile trouxe peças tradicionais – incluindo camisas, casacos, calças e sobretudos – pelos olhos dramáticos do diretor criativo André Namitala. Camisas ganham laços, casacos são usados com coletes, lenços são amarrados no cós de calças amplas e estilizadas. As camadas de texturas e volumes atualizam o corte formal, propõem novas formas que contornam a silhueta de um novo homem. Nas peças, há desenhos granulados, corroídos pelo tempo que remontam aos afrescos. Historicamente, há referências aos tetos lúdicos, cúpulas e abóbadas decoradas, pintadas e envelhecidas que são reinterpretadas em intervenções manuais para produções únicas ao longo da apresentação. Sensível e cênica, a elegância ganhou forma artística, dramática e com uma boa dose de ousadia na reinterpretação da alfaiataria masculina.