LÍDER: LINCOLN FRACARI, O EMPRESÁRIO QUE FEZ DA CHINA UMA PLATAFORMA DE NEGÓCIOS

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DE OPERADOR DE CALL CENTER A FUNDADOR DE UM GRUPO COM FATURAMENTO PROJETADO DE R$ 116 MILHÕES

Por Luciana Torreão

Entre a disciplina de quem é workaholic assumido e trabalha até 14 horas por dia e a visão de quem construiu um negócio que atravessa continentes, o empresário paulista Lincoln Fracari consolidou seu nome como uma das vozes mais influentes quando o assunto é importação e gestão no Brasil. Fundador da China Link, empresa que conecta o mercado brasileiro ao ecossistema produtivo chinês, ele construiu uma operação que ultrapassou a consultoria e se transformou em um grupo de negócios, posicionando-se como uma das principais referências em relações comerciais com a Ásia.

Foi em Shenzhen, considerado o Vale do Silício chinês, que deu forma a esse projeto. Há quase duas décadas, viveu no país onde fundou empresas, intermediou negociações entre autoridades e executivos e aprofundou sua compreensão sobre a cultura de negócios local. Domínio que hoje sustenta sua atuação como consultor, investidor e também como criador de conteúdo sobre a China para o público brasileiro.

Nascido e criado na Vila Marieta, na periferia da Zona Norte de São Paulo, começou a trabalhar cedo, vendendo geladinhos na rua aos 11 anos. Aos 16, já estava no McDonald’s, onde aproveitava o trajeto de ônibus para estudar manuais de atendimento. Aos 20, tornou-se supervisor de call center, liderando equipes mais experientes, até chegar ao cargo de gerente de operações na Huawei, quando teve seu primeiro contato mais direto com a cultura chinesa e foi incentivado a aprender mandarim.

Mesmo com a carreira em ascensão, decidiu mudar completamente de rota. Em 2009, pediu demissão e partiu para a China com menos de R$ 15 mil na conta, uma passagem só de ida, parcelada, e conhecimento básico do idioma. Lá, enfrentou uma sequência de desafios que ajudariam a moldar sua trajetória. Entre 2009 e 2013, fundou a China Link em um escritório pequeno, estruturou a primeira equipe, conquistou clientes e trouxe sócios internacionais, consolidando as bases de um ecossistema de importação que hoje atende milhares de empresários brasileiros.

Atualmente, movimenta milhões em mercadorias e se posiciona como referência no setor. Seu portfólio inclui participação em mais de 20 empresas, com faturamento projetado de R$ 116 milhões em 2025, mais de 500 colaboradores e crescimento médio superior a 130%. Após mais de 15 anos de carreira, consolidou seu conhecimento nos best-sellers Importador Profissional (2022), em que apresenta sua trajetória e o conceito de empresários que escalam negócios por meio da China, e Cabeça de Líder, Mentalidade de CEO (2024), um guia prático de gestão voltado à construção de empresas estruturadas, com foco em cultura, processos, pessoas e performance.

Fora do ambiente corporativo, mantém uma rotina igualmente intensa: pratica musculação, treina jiu-jitsu com regularidade e, mesmo nas horas livres, segue consumindo conteúdo nas redes sociais, analisando tendências e buscando referências para novos projetos. Aos 40 anos, sua trajetória é marcada por risco, resiliência e visão estratégica, sintetizada em uma de suas frases mais emblemáticas: “Quem não tem coragem de arriscar não tem o direito de reclamar”. Em entrevista à MENSCH, ele fala sobre negócios, liderança e as decisões que moldaram sua trajetória.

Existe algo na mentalidade empresarial chinesa que o Brasil deveria aprender? A China trabalha muito assim: evita criar tudo do zero e busca modelar o que já funciona. Existe até um termo um pouco mais pejorativo, mas real, que é “copiar”, mas não é uma cópia simples. Eles modificam o que não é tão eficiente. Então pegam um processo ou um produto, fazem uma reengenharia em alguns pontos e, no final, conseguem melhorar e deixar aquilo melhor do que o original.

Muitos empresários constroem uma empresa. Você construiu um ecossistema empresarial. Quando percebeu que o modelo de negócios precisava ir além de uma consultoria de importação? Eu ouvi a história de um empresário que, quando percebia que gastava muito dinheiro no final do ano com um determinado custo ou com uma empresa específica, fazia uma proposta de compra para ela. E essa compra não era para tirar o cara do jogo, porque ele não teria como administrar tudo sozinho, mas sim para ter uma sociedade naquele negócio com esse parceiro. Eu segui muito esse padrão. Percebi que tinha muitos consumíveis dentro do meu negócio que poderiam agregar valor, e era o mesmo cliente que compraria. Então comecei com parcerias, depois comissões, depois abrindo uma nova empresa com uma porcentagem menor. Com o tempo, passei a ter uma participação maior, porque aumentei meu poder de influência sobre o processo, até chegar ao ponto de verticalizar tudo, comprar e ter serviços que se complementam. Porque, quando você usa esse sistema de parceria ou se conecta com alguém que já tem o know-how para entregar, não precisa de investimento inicial, desde que já tenha o lead trazendo algum tipo de receita.

Hoje você lidera um grupo com centenas de colaboradores e participação em dezenas de empresas. Qual foi o maior aprendizado sobre liderança ao escalar um negócio desse tamanho? O maior aprendizado é você aprender a ser generoso. Isso é algo que, apesar de ser possível desenvolver, eu acredito que ou você nasce com esse pontinho de doar mais, ou fica muito difícil entender que esse jogo, para crescer com muita gente, exige que você abdique, às vezes, de ganhar no presente para ganhar no futuro. Eu lembro de várias situações em que vendedores, ao baterem as metas, ganhavam mais dinheiro do que eu. Muitas vezes, no final, eles recebiam mais do que eu como dono. Trabalhar esse ego e entender isso, colocando as pessoas até na sua frente, faz toda a diferença quando você tem um grupo grande ou quer escalar.

Depois de ganhar visibilidade em veículos internacionais como a Forbes, qual passa a ser o próximo nível de ambição para você e para o Grupo China Link? Uma das nossas principais metas é atingir meio bilhão de faturamento em quatro anos. Ainda temos alguns anos de caminhada para nos tornarmos um grupo ainda maior, com o dobro de pessoas, escalar em outros serviços e avançar em outras BUs (business units) e frentes de negócio nas quais vamos atuar.

Se o Lincoln de hoje pudesse conversar com o garoto que vendia geladinhos na rua, qual conselho ele daria? “Fica tranquilo que tudo que está por vir você vai tirar de letra, e tem um motivo maior para acontecer. Tudo que você sonha vai se tornar uma realidade.”