
Esse final de ano está sendo surpreendente para Felipe Hintze desde que recebeu o prêmio de Melhor Ator no SCREAM Fest em New Orleans (EUA) por conta da sua atuação no filme “Consequências Paralelas”. Para o garoto de Campinas (SP) que torcia pelo Guarani Futebol Clube e sonhava em subir nos palcos da vida e representar os mais diversos personagens, isso é uma conquista sem tamanho. Da sua estreia na TV na série Dupla Identidade (Globo) aos 21 anos, até hoje Felipe não parou. Participou de séries como Verdades Secretas e Vade Retro, até novelas recentes como Família é Tudo (Globo), Felipe tem mostrado uma versatilidade sem tamanho com personagens dos mais diversos. No teatro tem soltado a voz em musicais e em 2026 estreia peça nova já em janeiro e fica na espera da chegada de mais dois longas. Talento não lhe falta e agora depois desse prêmio internacional ninguém lhe segura mais.
Felipe, encerramos o ano com a ótima notícia do prêmio de melhor ator que você recebeu no SCREAM FEST de New Orleans. Esperava por isso ou foi pego de surpresa? Como esse prêmio te tocou? Não esperava, foi uma surpresa muito reconfortante. Quando eu recebi a noticia eu fiquei parado em choque. Não acredito em prêmio como uma validação do trabalho, mas sim como um carinho na alma e um reconhecimento de um trabalho árduo. Minha atuação no longa “Consequências Paralelas” até agora teve três indicações como melhor ator, duas em festivais aqui no Brasil e outra na Argentina mas fui premiado mesmo nos EUA, nesse festival tão icônico. Eu já estava realizado quando comecei a notar os comentários do público depois de ver as sessões nos festivais elogiando a performance e também com o reconhecimento dos festivais com as indicações, mas realmente não esperava o prêmio, ainda mais no SCREAM Fest que é o maior e mais antigo festival de cinema de gênero dos EUA. Eu estava concorrendo com atores do mundo todo e com filmes gigantescos, é uma conquista que eu me orgulho muito que invadiu minhas incertezas.

Aliás, o filme “Consequências Paralelas” tem recebido muitos prêmios ao redor do mundo, acumulando ao todo 18 premiações. A que se deve esse sucesso? Temos uma boa história contada por pessoas extremamente talentosas e movidas a paixão. Paixão pela arte, pelo cinema e pela física quântica. A junção da genialidade do roteiro, mais a sensibilidade das atuações, mais a condução criativa da direção, mais uma equipe poderosa, resultou em uma obra muito potente. Gabriel França e CD Vallada são os diretores e roteiristas do filme que conduziram tudo brilhantemente somando a João Fenerich que não só atua no longa, mas também é um dos produtores. Até agora a obra teve 19 prêmios e 27 indicações, isso é surreal! Nossos esforços agora estão voltados para o lançamento do filme, que em 2026 deve chegar nos cinemas, queremos que o filme atinja o máximo de público que puder, temos o termômetro dos festivais e dos prêmios que nos mostra que a recepção é muito positiva.
O filme fala de temas complexos dentre eles viagem no tempo e a consequência de nossas ações no futuro. Como isso é tratado no filme? Se trata de uma ficção científica com drama? Tenho receio de soltar muito spoilers e estragar a experiência que o filme provoca no espectador, mas a premissa é que os três personagens principais feitos por mim, Carol Macedo e João Fenerich, acham uma poltrona que se releva uma máquina do tempo que volta minutos antes, ao testá-la os personagens voltam de realidades paralelas e o quebra -cabeça é tentar descobrir o que aconteceu na viagem de cada um. O filme mostra a perspectiva do Max, personagem que eu faço, o público mergulha junto comigo nas consequências dos seus atos. Mas obviamente tem muito drama, por que os personagens tem relações complexas e profundas, há segredos e paixões. Um combo perfeito pra causar o caos.

Olhando para trás o que você faria diferente para ter uma consequência melhor nos dias de hoje? Difícil dizer, por que todas as escolhas que fiz, até aquelas que eu me arrependo, elas formaram quem eu sou e o meu caráter. Se eu não tivesse agido daquela forma, eu não teria aprendido. Fiz muito coisa que eu me arrependo, mas isso faz parte do meu crescimento. Espero continuar errando pra agir correntemente quando eu acerto.
Você se considera um cara mais impulsivo ou bem racional em relação a tomar decisões? Depende do que tipo de decisões estamos falando. Na vida profissional sempre fui muito racional e estratégico, sei bem que tipo de artista sou e com o que e com quem quero trabalhar, já na vida pessoal eu já fui muito mais emocional deixando meus sentimentos me guiarem. Mas sem arrependimentos, não sou duro comigo mesmo. Aprendi a amar meus defeitos e a evoluir com meus erros. Eu já fui muito mais impulsivo e deixei minhas vulnerabilidades tomar conta das minhas atitudes, com o tempo você entende que ser racional muitas vezes é forma mais inteligente de lidar com as coisas. Terapia ajuda muito, viu?
Esse é o primeiro prêmio internacional da sua carreira? Já dá para começar a sonhar com quem sabe um Globo de Ouro ou quem sabe um Oscar? Esse é o primeiro prêmio da minha carreira e já foi internacional e com uma grande repercussão. Globo de Ouro e Oscar, por mais que eu noto a potência e qualidade do nosso cinema brasileiro chegando nesses lugares com possibilidades reais, eu ainda sou aquele menino do interior que acha tudo isso muito grandioso e distante, mas se um dia acontecer, estarei lá.


O cinema brasileiro vive um momento bem especial o que termina estimulando novas produções. Tanto que você ainda participa de mais dois longas, “No Jardim do Ogro” com Alice Braga e “A Cuidadora” com Débora Falabella. Como está a expectativa para esses lançamentos? O que podemos esperar desses dois trabalhos? O cinema vem acontecendo na minha carreira de uma forma que me orgulha muito. Sempre fui apaixonado por cinema e sempre tive vontade de ser ator de cinema. Comecei fazendo muita televisão e sempre estando em cartaz no teatro. Mas foi no cinema em que eu ganhei protagonismo, onde grandes oportunidades vem surgindo. Agora que essa vertente da minha carreira se abriu, quero continuar fazendo cinema. Em 2025 eu filmei participações pontuais em dois longas, que eu não posso falar muito sobre, mas tenho certeza da força e da potência dos projetos.
E agora no início do ano você já começa com estreia nos palcos com “Dois Patrões” que estreia no Teatro Itália. Do que se trata e como é seu personagem? Dois Patrões é uma adaptação da comédia icônica “Arlequim e o Servidor de Dois Patrões”, essa peça mudou a história das comédias dell arte quando as apresentações não haviam falas e sim eram todas improvisadas, foi ali que o Carlo Goldoni resolveu roteirizar e assim eternizar essa obra. A direção é da Neyde Veneziano e do Giovani Tozi, e temos um elenco grande de 10 atores extremamente engraçados e talentosos. Eu faço o Arlequim, personagem principal que já foi feito por grandes atores como Sérgio Cardoso, na nossa montagem agora temos outros contornos e alcançamos outras camadas por ser feito por mim um ator fora dos padrões estéticos, já que sempre ele foi feito por atores magrinhos. Algo inspirado pela montagem recente da Broadway protagonizada pelo James Corden. É uma grande comédia com muita confusão e caos, mas com uma mensagem importante como pano de fundo. Nesse o mundo onde a pejotização está cada vez mais dizimando nossos direitos trabalhistas, uma realidade onde exaltamos a possibilidade de trabalhar pra dois patrões ao mesmo tempo é crítica absurdamente contemporânea.


Cinema, teatro e TV, em algum desses ambientes você se sente mais à vontade? Eles trazem desafios diferentes para você? Me sinto realizado exercendo meu trabalho como ator independente do veículo. Eu venho conseguindo conciliar meus trabalhos e isso me deixa muito feliz. 2025 foi um ano que tive várias semanas em que lancei um projeto na TV, enquanto filmava um longa e apresentava minha peça. Tudo ao mesmo tempo. Graças ao ambiente de trabalho saudável e pessoas compenetradas a fazer dar certo. Meus desafios sao encarar a complexidade das personagens. Eu gosto de encarar universos completamente diferentes do meu, isso me engrandece como pessoa também, vou descobrindo talentos e habilidades que eu não sabia que eu dominava.
Ao longo da sua trajetória você terminou virando um militante contra a gordofobia. Como você percebe isso no audiovisual? Sente alguma mudança de mentalidade? Temos um avanço perceptível na inserção de minorias no audiovisual. Ainda acredito que temos muito a avançar na questão do protagonismo, ainda vemos essas minorias alcançar personagens secundários com arco dramático reduzido a ser uma minoria. Por isso acho importante a luta, quero ver mais protagonismo preto, amarelo, gordo, etário. Estamos avançando, mas quero ver mais.

Voltando aos palcos… você já participou de algumas peças onde além de atuar você precisou cantar. E mandou muito bem! Esse sempre foi um desejo antigo? Faz aulas de canto com frequência? Como investe nisso? O musical entrou recentemente na minha vida. Fiz dois musicais em 2025 “Canções que eu Guardei pra você” uma comédia romântica musical embaladas com músicas de cantoras LGBTs e “Aqui Jazz”, um musical intimista com músicas em Jazz. Eu me preparei muito para esses dois trabalhos, fiz muita aula de canto e me preparava diariamente para aguentar o ritmo e a intensidade do musical. Eu entendi que não é pra qualquer um. Você tem que se preparar muito, se dedicar e ter muita disciplina. Acho um erro em produções que insistem em colocar não atores e danificar toda a qualidade do projeto. Acredito que a arte é democrática, mas pra você permanecer precisar ter dedicação e empenho.
Fora a peça e os filmes, algum outro projeto profissional para 2026? E pessoal, o que vem por aí? 2026 já esta acontecendo há um tempo, muitos projetos que vão se concretizar nesse ano foram iniciados em 2025 e 2024. Estou muito animado, feliz e orgulhoso da trajetória que eu estou criando, mas ainda é necessário segredo pra esses projetos e pra imprevisibilidade do destino. E continuo estudando, sempre estudando, por que eu aprendi que as oportunidades que aparecem do acaso só favorece a mente preparada.


Fotos Caio Oviedo


