CAPA: O INCRÍVEL DIOGO VILELA EM AÇÃO

As gerações mais novas talvez não conheçam. Não vivenciaram a época áurea do humor inteligente da TV Pirata. Ou se divertiram com o Leozinho de Sassaricando ou se divertiram com os atrapalhados Eurico, do Auto da Compadecida, e Heitor de Irma Vap. Mais recentemente ele brilhou nos palcos como Cauby e atualmente faz o público vibrar com sua atual peça O Bem Amado. Diogo Vilela é sucesso por onde vá e sem dúvida tem um lugar cativo no coração de várias pessoas que acompanham sua trajetória de personagens inesquecíveis até hoje. Ao longo de mais de 50 anos de carreira, foram diversos programas, novelas, peças e filmes, que renderam a Diogo indicações e muitos prêmios. “A carreira de ator é muito difícil e graças a muita persistência consegui vencer os obstáculos”, comentou Diogo em entrevista para a MENSCH que você confere logo abaixo.

Diogo, a pergunta que mais ouvimos quando comentamos que você sairia na MENSCH foi por onde anda Diogo Vilela e o que ele tem feito. A ideia é que essa entrevista faça com que os leitores matem essa curiosidade. Ai te perguntamos… Por onde anda Diogo Vilela? O que tem feito de bom? Estou por aqui pelo Rio, no intervalo de um trabalho maravilhoso que foi para mim que é O Bem Amado. Estamos viajando pelo país com muito sucesso. Esse personagem Odorico Paraguaçu, que faço nesta peça que foi dirigida por Marcus Alvisi e escrita por Dia Gomes tem uma grande empatia com o público que lota todas às apresentações que fizemos desde janeiro desse ano. Agora, no segundo semestre, pretendemos continuar com a nossa viagem, dessa vez por Brasília e todo o nordeste.

Sua trajetória é repleta de personagens marcantes, muito humor e dramas nos palcos e TV. Foi um caminho natural ou planejava mesclar tudo isso? No princípio da minha carreira, trabalhando com personagens cômicos, percebi que tinha verve para a comédia, pois nunca fiz força para ser engraçado e mesmo assim quando atuava no gênero, havia muita repercussão do meu trabalho. Com o tempo, percebi que eu, fazendo teatro seguidamente como sempre fiz, também gostava dos dramas do Teatro Clássico e por isso talvez não tenha me deixado ficar marcado pela comédia, embora esse reconhecimento tenha me aberto caminhos e eu tenha visto que se continuasse isso renderia bons frutos! Resolvi me arriscar seguindo minha intuição de ator e fiz Hamlet, que era meu sonho de infância, no Teatro. O resultado desse trabalho me deu o respaldo necessário para seguir em frente com minha paixão pelo Teatro. Dai fiz dramas como Tio Vânia de Anton Tchekhov, e também O Diário de um Louco de Gogol, assim como Otelo de Shakespeare, onde também fiz direção, e outros. Isso me trouxe alguma identidade junto ao público que aceitou essa escolha comparecendo em massa em todos os meus espetáculos que fiz até agora.

Ao longo dessa trajetória você já interpretou alguns personagens mais sérios. Mas em geral os cômicos são sua marca registrada. Isso foi escolha ou foi um percurso natural? Talvez de forma inconsciente, eu não tenha me deixado levar pela forma mais fácil da minha natureza de comediante e tenha me arriscado em outros gêneros incluindo o musical. Fiz isso por que sentia em mim possibilidades e como sou produtor de Teatro realizando minhas peças junto a Marília Milanez, também produtora, fui realizando os meus sonhos em cena. Sempre honrando meus compromissos com o Teatro.

O desafio como ator é maior quando você se depara com um papel mais dramático? Alguma regra de composição na hora de criar esses personagens? Sim. Quando nos deparamos com uma personagem do drama, precisamos nos valer de alta concentração. A cena nos pede isso. Não dá para usar apenas o instinto de ator, ao qual nos apegamos quando fazemos comédia. Não que a comédia não exija concentração, mas percebemos que o drama carece de verossimilhança quando lançamos os sentimentos em cena que são de origem universal como o ódio ou mesmo o desespero. A concentração no drama é exigida para que possamos estar presentes e intensos em nossas falas acompanhando às circunstâncias da peça e isso não é fácil, requer muito treinamento e alguma técnica.

Todo esse talento revelado ao longo de mais de 50 anos de carreira já te trouxe muito reconhecimento e prêmios como os da APCA, Shell e Mambembe. Olhando para trás se sente realizado? Eu na verdade sinto alívio. A carreira de ator é muito difícil e graças a muita persistência consegui vencer os obstáculos. Acho que sou tomado de uma força que me dá o foco, e que me leva a ter a resiliência necessária para dar continuidade a algo que amo muito, mas que cobra um preço muito grande para ser correspondido.

Sem dúvida um dos pontos altos da sua carreira foi o TV Pirata. Tanto que se tornou referência em programas de humor na TV até hoje. Que lembranças guarda desse momento? O que mais te marcou? A TV pirata tinha um tom na criação, muito parecida com o que o teatro nos exige. Foi um período de muita criatividade e ótimas experiências. Havia um grupo de atores que vinham do Teatro e autores de muito talento que representavam uma geração. Ela inaugurou um ponto de vista crítico na TV, fazendo com que suas esquetes, que eram contemporâneas mostrassem o que o público queria ver. Mas isso foi uma conquista de todos, por que no começo foi muito difícil que essa percepção aparecesse. Havia um tom de novidade nas críticas. Só talvez no segundo ano isso tenha se concretizado e através de sua ideologia sendo absorvida pelo público, virado um grande sucesso!

Sua parceria com Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães foi uma das grandes heranças deixadas pelo programa até hoje? O que de fato aproximou vocês e que eles significam para você? Não só eles, mas todos os meus colegas acabaram sendo uma família para mim. Talvez pela convivência e admiração mútuas, isso tenha se estendido até hoje!

Nos palcos e nas telas você já interpretou Cauby Peixoto algumas vezes. Você já era fã de Cauby ou se tornou após esses trabalhos? Confesso que eu admirava a voz de Cauby desde sempre, mas não tinha me tornado ainda um fã incondicional como sou hoje! Até conhecê-lo e também seu vastíssimo repertório, o que me comoveu ao ponto de querer vive-lo em cena. Lembro-me bem quando o conheci a primeira vez, e precisava dizer lhe que pretendia ser ele como personagem no Teatro! Ele como sempre foi elegante e muito carinhoso comigo e com Flávio Marinho que iria escrever à peça que teria cunho biográfico. Eu e Flávio fomos até ele em São Paulo, em uma noite chuvosa, para tentar conseguir sua aprovação e também os direitos para o musical que mais tarde viríamos fazer, e que já tinha estreia marcada no Rio de Janeiro. Ele confiou em mim, e permitiu que esse fosse um dos maiores sucessos de minha carreira. Mais tarde anos depois fui visitá-lo em seu show em São Paulo, no bar Brahma e ouvimos dele um pedido para que fizéssemos novamente a peça. Eu e minha produtora Marília Milanez então, resolvemos remontar a peça que foi novamente sucesso, mas infelizmente dessa vez ele não pode estar presente assistindo por que faleceu no meio da realização dessa montagem.

Como você vê o humor atualmente? Acha que programas como a TV Pirata teria tanto sucesso hoje em dia como na época em que esteve no ar? Hoje percebo que A Porta dos Fundos tem semelhança na crítica de seus programas que segundo eles disseram tem inspiração na TV Pirata. O humor muda de acordo com a contemporaneidade, o senso comum elege quem eles se sentem representados. Vejo uma diferença grande na maneira de fazer humor hoje, mas acho ótimo haver mudanças e julgo isso necessário. 

Como esse retorno de atores veteranos à TV como Miguel Falabella e Heloísa Perricè, ainda tem disposição para fazer novela hoje em dia? O que seria um bom motivo para uma possível volta? Acho que a novela para atores é muito bom porque é um premio de popularidade quando da certo. O público gosta de ver seus artistas contando histórias das quais eles se identificam. Sim, acho totalmente possível que um dia, tenha um bom personagem com quem eu possa ser brindado.

Com a experiência e a idade o que se torna mais importante (falando em trabalho)? Quais as prioridades? No teatro as personagens podem ser feitas com os atores mais velhos, isso dá uma grande liberdade de escolha de repertório para os atores. Desde Shakespeare vemos diversos personagens a serem feitos por atores mais velhos, incluindo clássicos de Mollière e outros autores inclusive. Como no teatro a experiência conta muito, a questão do etarismo perde sua razão de ser. Talvez só no que se refira à imagem isso tenha que ser seguido à risca limitando assim essa escolha.

Quais os planos daqui pra frente? Tenho muitos sonhos como ator, um deles é fazer um vilão na TV! Outros são interpretar Nelson Rodrigues no teatro, coisa que ainda não fiz, mas que em breve farei. Basta aguardar o primeiro sonho acontecer.

Fotos Priscila Nicheli

Produção executiva e styling Samantha Szczerb

Beleza Laís Regia

Agradecimentos Amil Confecções, Oficina e Democrata