
Atualmente no ar na pele de um jagunço gente boa, o Tatarana em Guerreiros do Sol, Rafa Sieg se vê sendo redescoberto novamente diante da repercussão de seu personagem. Antes, na TV, Rafael tinha participado de Pantanal com um personagem bem polêmico que deu o que falar, ele foi o matador Solano. Mas bem antes de tudo isso, lá por 2008, o ator formado em teatro na Universidade Federal de Santa Maria, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde cursou na Oficina de Atores da Globo. Depois, em 2015, participou do “Russian Extension Program”, curso de extensão promovido pela Escola-Estúdio do Teatro de Arte de Moscou, na Rússia. Nascido em Panambi, no Rio Grande do Sul, foi com seu trabalho em Guerreiros do Sol que ele mergulhou à fundo no sertão brasileiro e se desafiou como ator. Coisa que ele nos contou aqui nesta entrevista exclusiva para a MENSCH.
Rafa, quem está lhe vê atuar pela primeira vez agora por conta do sucesso de Tatarana em Guerreiros do Sol, não imagina que você já fez muita coisa na TV e no cinema. Como foi seu início como ator e como foi o início na TV? Fico muito feliz com esse sucesso e agradeço o convite para essa conversa com a MENSCH. Bom, é uma jornada que honro muito. Me formei em teatro em 2002 na Universidade Federal de Santa Maria e, antes disso, nunca havia feito teatro na vida. Foi um salto pra um voo no desconhecido. Para quem foi adolescente nos anos 90, a chegada da TV a cabo entregou um monte de making of das produções cinematográficas da época e penso que isso me afetou profundamente na paixão pelas artes coletivas como cinema, teatro e televisão. Desde 1999, trabalho em projetos ligados ao audiovisual. Em 2008, fui convidado para fazer a Oficina de Atores da TV Globo que, naquele ano, estava trabalhando com um grupo de atores experientes. Na TV Globo, meu primeiro personagem em novelas foi o Neto de Viver a Vida, dirigida pelo Jayme Monjardim. Fiz muitas participações em novelas, como Avenida Brasil, que foram importantes também. Em seguida, trabalhei em várias séries para a TV fechada como Mandrake – na HBO, Surtadas na Yoga – GNT, Cidade Invisível – Netflix e também em filmes como Simonal, Alemão 2 e outras produções fora do eixo RJ/SP onde protagonizei os longas Alaska e Disforia. E assim fui construindo meu caminho.


Em 2015, você participou do Russian Extension Progra, curso de extensão promovido pela Escola-Estúdio do Teatro de Arte de Moscou, na Rússia. Como surgiu a ideia de estudar teatro na Rússia? E o que ficou de positivo dessa experiência? Eu estava de passagem por Moscou no final de 2014, quando surgiu a oportunidade de fazer um curso que seria oferecido para atores estrangeiros na Escola-Estúdio do Teatro de Arte de Moscou, que forma exclusivamente atores russos e que foi criada por Stanislávski. É uma escola de excelência e referência no mundo todo. Foi um curso de dois meses com atividades diárias e intensas. Do lado de fora da sala, um inverno de -12 graus! Contava com colegas que eram americanos, ingleses, chineses e indianos. Eu já tinha 35 anos de idade e sentia uma necessidade grande de me provocar mais como ator e de repensar a minha forma de estar em cena. E tudo a que estava assistindo nos espetáculos lá, me inspiravam um sentimento de profunda liberdade em cena. Mesmo com tanta disciplina, a busca constate é por um estado de vida e presença que permitam exatamente esse pulsar livre em um personagem. E isso, a gente precisa buscar e alimentar constantemente.
Algumas pessoas podem não lembrar, mas você fez uma participação marcante no remake de Pantanal como o jagunço Solano. Como foi participar de uma obra tão importante para a TV brasileira? Sem dúvida foi um presente! E um susto também (risos). Eu estava terminando de filmar Nosso Lar 2 e o chamado era para viajar na semana seguinte. Voo sem data pra voltar rumo ao Pantanal, onde a novela estava gravando uma segunda viagem. Filmei minha ultima cena do filme às 08h da noite e às 04h da manhã, já estava num avião. A vida encaixa presentes lindamente. A primeira versão de Pantanal, eu lembrava de ter assistido junto com o meu avô materno, que era bem noveleiro, no início dos anos 90. Solano, meu personagem, chegou na reta final da novela, que já estava sendo um sucesso, e fui recebido de braços abertos pelo elenco, equipe e direção. Uma oportunidade incrível que me deu espaço para entregar um trabalho do qual me orgulho muito. A força da natureza está impressa em cada uma dessas pessoas que fizeram um dos trabalhos mais lindos da televisão brasileira, dos últimos tempos.

Na TV, depois de um matador em Pantanal, agora é um jagunço em Guerreiros do Sol. Você está se especializando em tipos mais brutos (risos). Como é dar vida a personagens tão distantes de quem você é? Onde você busca isso dentro de si, para compor um personagem? Eu quero muito falar de amor e dar risada em cena (risos). Sou um sujeito completamente avesso a qualquer tipo de violência, mas reconheço que isso faz parte da natureza humana. E como ator, é preciso buscar isso dentro de si também. De certa forma, penso que também é uma espécie de cura, ser atravessado por esse tipo de personagens. Agora, viver esse tipo de personagem em cena é uma oportunidade riquíssima pro ator. Solano e Tatarana são muito diferentes. Um era um sujeito cruel e violento (que também tem um caminho humano que leva ele para esse lugar) o outro é servil, fiel e afetivo dentro do seu próprio campo de batalha pela sobrevivência no sertão.
Falando em Tatarana (de Guerreiros), ele é um jagunço, quase sem expressão de sentimento, mas que no fundo se mostra um homem sensível. Acredita que ele é fruto do meio onde vive? Como você enxerga o personagem? Gosto de trazer para os meus personagens essa leitura não direta da dimensão dos seus sentimentos, dessa água que não sabemos exatamente a profundidade. Tatarana é um sujeito servil e honesto. Experiente da vida, ele compreende há tempos os mecanismos da luta pela sobrevivência no sertão. Ser jagunço e, depois, cangaceiro é a forma que ele encontra pra sobreviver às intempéries da vida, de todas as ordens. Penso que, os aspectos que humanizam Tatarana, são as grandes jóias dos personagens escritos pelo George Moura e o Sergio Goldenberg, nessa novela. É no olhar para o outro, vendo e sentindo a luta do outro, que compreendemos as camadas profundas de sujeitos embrutecidos. E isso me interessa. É uma luta de sol a sol, no presente, se resignificando a cada instante.


E como foi filmar Guerreiros do Sol em meio à caatinga e com recursos mais restritos por conta do local onde estavam? Há tempos, sentia um desejo de conhecer mais desse Brasil profundo. Fazia pouco tempo que eu havia assistido novamente Central do Brasil e dito para mim mesmo “preciso conhecer esse Brasil”. O chamado pra Guerreiros veio logo em seguida. Mas, com certeza, tem os seus desafios. Já havia filmado no Pantanal, Chapada dos Veadeiros, Amazônia Paraense e, sem dúvida, a natureza que brilha aos olhos no leito de um rio São Francisco é tão potente quanto os lugares mais áridos em que estivemos como o Raso da Catarina, em Canudos. Calor intenso, figurino pesado e ficar longe da família por longos tempos são compensados pela união dos companheiros de jornada e toda a beleza de um país tão grande. Havia momentos em que uma sequência de batalha onde era necessário correr por, pelo menos de 20 metros, sob forte calor, num terreno arenoso, carregando armamento e figurino pesado eram uma batalha à parte. Mas tudo isso ajuda a imprimir o brilho do que assistimos na tela. Sem contar que fomos acolhidos e abraçados em todos os lugares, por onde passamos.
A novela tem feito um grande sucesso. Tem assistido? A que se deve esse sucesso? Estou assistindo e adorando esse formato de cinco episódios por semana, na Globoplay! Mas também quero que chegue logo na TV aberta, porque isso multiplica o acesso a uma produção de excelente qualidade como é Guerreiros do Sol. O gosto por novela é cultural e muito nosso. Devemos nos orgulhar disso, desse tipo de narrativa e entregar com carinho e cuidado o melhor pro nosso público. A gente ama a nossa cultura e queremos nos reconhecer em nossas histórias. E, a televisão e o cinema brasileiros sabem muito bem como contar nossas histórias. Há muitas ainda, para serem contadas e recontadas. O Brasil é um país rico de cultura e sua memória não pode ser apagada. Penso que Guerreiros do Sol entrega o melhor dessas duas linguagens para o espectador. É o encontro de uma imagem cinematográfica potente, num cenário único e com atuações e um texto fortemente brasileiros, ‘temperados’ com romance e aventura! Tudo isso guiado por um maestro que é o Papinha, Rogério Gomes. Quer encontro melhor?

O cinema também é um ambiente que você conhece bem. Com diversos filmes no currículo, você atualmente segue gravando o longa Estrutura. O que pode nos adiantar desse novo projeto? O Rio de Janeiro é a minha casa, mas é sempre bom estar de volta ao Rio Grande do Sul. Exatamente agora, estou no meu dia de folga das filmagens, desse longa. De volta ao inverno gaúcho, havia me esquecido da sua intensidade depois de quase 20 anos morando no Rio (risos).Estrutura conta a história de Alexandre, meu personagem, que é um professor universitário de arquitetura de urbanismo, e Catharina (Cinandrea Guterres), sua orientanda de mestrado. Ela tem um projeto que prevê a transformação de uma antiga fábrica no novo Centro Cultural de uma comunidade, e o meu personagem encontra ali a oportunidade de construir algo que tenha algum impacto no mundo. E isso gera um conflito ‘autoral’ e de ‘gestão’ entre professor e aluna. Estrutura é escrito por Davi de Oliveira Pinheiro, Júlia Cazarré e Emiliano Cunha, sendo o segundo longa-metragem dirigido por Emiliano (Raia 4 – vencedor em Gramado 2019). O filme é uma produção da Ausgang, e tem o financiamento da Lei Paulo Gustavo, Sedac – RS. As produções aqui sempre me abraçam e me sinto honrado. Nos próximos meses, devo filmar mais outros dois projetos aqui: Rock do K7, uma série no estilo docudrama sobre a cena musical dos anos 80/90 e outro longa-metragem, chamado Porongos.
E falando em novos projetos, você também está envolvido no espetáculo solo Erico, a partir da autobiografia do conterrâneo Érico Verissimo. Como andam as expectativas e pra quando é a estreia? Érico Verissimo foi o maior autor gaúcho de todos os tempos. E profissionalmente, este será o meu primeiro espetáculo solo. Pretendo estrear até o final deste ano, quando se comemora os 120 anos de nascimento do Érico. Já negociei os direitos, iniciei o processo de ensaios e estou uma fase de captação de recursos. Voltar aos palcos com um projeto tão especial como este, era tudo que eu queria pra comemorar meus 25 anos de carreira. É um projeto muito pessoal e potente que eu estava buscando, há tempos, porque, sempre que alguém me perguntava de onde eu era, onde eu tinha nascido, dizia “Panambi, no interior do RS”. “Mas é perto de onde”? – perguntavam. “Perto de Cruz Alta, terra de Érico Verissimo”. Meu interlocutor poderia não conhecer Panambi, nem Cruz Alta, mas o Érico, sim. E nos últimos anos a inquietação por encontrar algo sobre o qual eu pudesse falar com entusiasmo. Afeto e potência artística foram me levando cada vez para mais perto da “minha aldeia”. Acima de tudo, o Érico se considerava um contador de histórias, e me reconheço como ator nessa mesma essência. Vai ser um espetáculo criado a partir das memórias do Érico, narradas num tom de romance confessional em seu Solo de Clarineta e que trazem toda a riqueza de sua capacidade de observar a própria vida desde muito cedo, entrelaçado com os dramas familiares que marcaram sua vida e a formação do artista-escritor-ser social que atingiu o auge em sua ‘redescoberta’ do Rio Grande do Sul com O Tempo e o Vento. E que, agora, diante desse espelho/espetáculo questiona a própria finitude sem jamais perder o tom espirituoso e bem humorado de suas narrativas.



Você parece ser um cara calmo e centrado. É isso aí ou disfarça bem (risos)? Ninguém é uma coisa só (risos). Minha aparente calma e estado de equilíbrio são frutos de um processo de luta interna, intenso e constante. Haja paciência pra quem está do nosso lado (risos). A vida apresenta desafios diários, a todos nós. Cada um à sua maneira. Nesse oceano que somos, se todas as forças internas estiverem encontrando espaço pra se manifestar, eu me sinto em paz. Nem sempre isso é possível (risos). Estou tentando respirar mais e melhor, que é o princípio de tudo na vida, para que possamos realmente estar no presente. Somos seres habitados por infinitas emoções. É preciso e precioso encontrar espaços pra cuidar de si e levar pro seu trabalho toda essa gama de sentimentos e cruzamentos de emoções, que é estar vivo. E assim, tornar o personagem humano. Humano.
Quando está com tempo livre o que procura? Onde recarrega as baterias? Gosto de estar junto à natureza, desde sempre. Ler bons livros, aliás, uma paixão que se fortaleceu mais depois dos 30. Tô tentando manter a disciplina de correr, depois dos 40. Ir ao cinema e sonhar, sempre que possível. Tudo o que inspira novos movimentos me interessa. Adoro cozinhar, preparar o café da manhã para minha namorada – Priscila Vergniaud, já é o começo de um bom dia pra mim. Tudo isso me reconecta comigo mesmo. E o ponto forte para um bom sagitariano é pegar a estrada, fazer uma boa viagem, subir a Serra ou voar para um destino desconhecido. Aí sim, todas as baterias se recarregam.
O que deseja daqui pra frente como homem e como ator? Há muita coisa pra se viver ainda. Muitos lugares para se descobrir nesse mundo. Axé! Quero estar mais na televisão. Pode parecer evidente, mas penso que demorei muito tempo para afirmar a mim mesmo o quanto quero estar lá. Mesmo trabalhando como ator há 25 anos, hoje compreendo melhor a linguagem da televisão e seu poder de comunicação. E continuo aprendendo. Essa força de encantar a vida das pessoas. Sou formado em teatro, atuo continuamente em projetos de cinema. Mas, hoje, quero me desenvolver mais como um ator na televisão. Pantanal e Guerreiros do Sol me mostraram muito onde eu quero estar. O pulsar da vida no teatro é única, e lá sempre estarei, mas busco dar sequência a bons projetos na televisão. E também estou me exercitando na escrita. Tenho um projeto para um longa-metragem que estou roteirizando com uma amiga e que pretendo dirigir. E então, penso que a ‘espiral’ da vida artística que se iniciou ainda adolescente nos anos 90 assistindo making of de filmes possa ganhar novos contornos e dar um novo giro.

Fotos Márcio Farias
Styling Samantha Szczerb
Assessoria @firstpress_comunicacao
Agradecimentos: Portinho RJ, Dois Maridos e Breda Uomo


