
Bruno Saggiorato é designer industrial, com especialização em Innovation Leadership pelo MIT Professional Education. Após quase duas décadas como executivo no mercado de luxo, hoje é diretor criativo e sócio-proprietário da Saggiorato & Benites, Prêt Design e Studio Saggiorato — empresas que traduzem sua visão de sofisticação e exclusividade. Mais do que empresário, Bruno é um amante da alta relojoaria. Para ele, cada relógio vai muito além de um acessório: são símbolos de identidade, história e conquistas.
Bruno, indo para o início… como surgiu a paixão por relógios? Minha paixão por relógios nasceu de forma bem natural. Desde criança eu já curtia desenhar, criar coisas, inventar. Por isso acabei me formando em Desenho Industrial — sempre tive essa ligação forte com design. Passei boa parte da minha vida como executivo no mercado de luxo, e isso me fez respirar estética, proporção e permanência todos os dias. Aguçou meu olhar, meu senso estético e minha forma de enxergar o detalhe. Aos poucos, os relógios foram entrando nessa história. Não só pela beleza, mas pela trajetória: como surgiram, a função que tinham como ferramentas de sobrevivência, e o quanto carregam de identidade, herança e conquista. Pra mim, nunca foram só “objetos”. Sempre representaram muito mais.
Que modelo foi um marco para você? Aquele que fez a diferença na sua coleção? O primeiro Rolex sempre tem um peso especial. No meu caso, foi um Datejust Blue Dial, que trouxe aquele sentimento único de ter um verdadeiro ícone da relojoaria mundial. Mas o relógio que realmente fez a diferença na minha coleção foi o Panerai PAM 00578, Luminor Tourbillon Lo Scienziato, criado em homenagem a Galileu Galilei. Uma peça raríssima, de design incrível e movimento impressionante. Esse relógio abriu portas, despertou o interesse de grandes colecionadores de alta relojoaria e me rendeu conexões valiosas. Sem dúvida, é o modelo que mais marcou a minha coleção.
Que marca era sua referência e quais descobriu ser tão especiais hoje em dia? Por incrível que pareça, minha referência e meu grande desejo sempre foi ter um Panerai! Porém, assim como a maioria dos apaixonados por relógios, fui subindo degrau a degrau: comecei com um TAG Heuer, depois passei por um Breitling, segui para um Omega, até chegar ao modelo que eu sempre sonhei — o meu primeiro Panerai Luminor Marina. A partir dessa conquista, veio o desejo natural de alcançar a coroa, a Rolex, óbvio! E realmente ter um Rolex é algo muito especial: seja numa roda de amigos ou numa reunião de negócios, a presença da coroa faz diferença. Depois que conquistei meu primeiro Rolex, o objetivo naturalmente mudou… de novo! (risos)! Você começa a olhar para marcas ainda mais especiais. No meu caso, tive a oportunidade de ter um Audemars Piguet Royal Oak, uma peça fantástica. Além disso, admiro muito Patek Philippe e Vacheron Constantin, especialmente os modelos desenhados por Gérald Genta. Hoje em dia a marca que mais admiro é a F.P. Journe, criada por François-Paul Journe, que produz pouquíssimas peças por ano! Cada relógio é uma verdadeira obra-prima. Gosto muito da frase que guia a marca: ‘Invenit et Fecit’ — ‘imaginou e fez’.
Você já adquiriu modelos exclusivos e edições limitadas, como o recente IWC F1. Como é isso? Ter modelos exclusivos é sempre um prazer! Nunca fui muito ligado em IWC (não sei por que…), mas tenho que reconhecer: os relógios estão maravilhosos e essa marca vem acertando demais! A IWC vem crescendo muito internacionalmente e o trabalho que eles vêm fazendo aqui no Brasil está sensacional! O filme da F1 é a prova desse crescimento! Quantas vezes o relógio toma a cena? Várias! O Ingenieur IWC feito para o personagem do filme (Sonny Hayes) é um relógio incrível, uma peça que com certeza vai ser lembrada por muito tempo.
Além de atrair colecionadores, os relógios atraem um público que investe em relógios como um grande negócio. Como você enxerga esse mercado hoje em dia? O mercado mudou. Antes, relógio era coisa de apaixonado, colecionador e etc. Hoje também virou investimento — e isso é fato. Marcas como Rolex, Patek, Audemars Piguet e etc, têm modelos que batem recorde atrás de recorde no mercado secundário. Na minha opinião o que mudou foi a informação! A internet e redes sociais permitem que as pessoas saibam quais referências valorizam, quais são raras e quais tendem a subir. Isso colocou a relojoaria no centro das atenções. Hoje todos os grandes empresários, executivos e profissionais de alto nível querem ter um bom relógio. E, no fim, eu acho ótimo! Quem compra por paixão sai ganhando, e quem compra por investimento também. A relojoaria nunca esteve tão em alta quanto agora.

Você tem uma relação mais próxima com a Panerai. Como surgiu? O que mais te atrai no estilo Panerai? A Panerai sempre me chamou atenção por ser diferente! O design do Luminor Marina, com a proteção da coroa, é algo único na relojoaria. A marca se mantém fiel ao seu design até hoje, com poucas intervenções, e acho isso muito legal: ela carrega história, mas continua atual. A Panerai nasceu como ferramenta da Marinha Italiana e só começou a ser vendida para o público civil na década de 90. Como toda a minha família é italiana, esse vínculo acabou resgatando minhas próprias raízes. O que mais me atrai na Panerai é justamente essa soma: robustez, design atemporal e italianidade autêntica. Um Panerai não é só um relógio para marcar o tempo — é uma peça que carrega história, um legado!
A Rolex ainda é uma referência em alta relojoaria mundial. A que se deve isso? A Rolex ainda é a maior referência da relojoaria no mundo. É a marca que mais vende no planeta, mas continua sendo sinônimo de luxo e sofisticação. A questão da exclusividade é absurda: você não tem acesso fácil, e justamente por isso ela se mantém no topo. Rolex é Rolex, a coroa é diferente. Claro, existem casas até mais sofisticadas, mas nenhuma conseguiu esse equilíbrio entre desejo e reconhecimento. E o mais impressionante: o bilionário vai ter Rolex, o milionário vai ter Rolex, e o cara que tá batalhando pra chegar lá no topo também sonha com Rolex. É universal, não tem o que falar, é simplesmente impressionante.
De colecionador a entusiasta e empresário, você terminou lançando sua coleção de cases, que tem feito muito sucesso. Foi um desejo pessoal que virou negócio? Quando eu saí da vida executiva, já estava mergulhado no universo da relojoaria. Meus amigos, minhas conversas, tudo já girava em torno disso. Então, naturalmente, comecei a pensar: “O que ainda não existe nesse mercado?” “Como incluir design em um mercado tão maduro e sofisticado?” Conversei com o KB, que hoje é meu sócio, e a resposta veio rápido: acessórios para guardar e transportar relógios! Hoje a Saggiorato & Benites é um negócio sólido. Fazemos produtos de alto padrão — cases em couro, caixas de madeira especiais, cofres, closets e etc — sempre feitos à mão, em tiragens limitadas, com a melhor matéria prima e com muita seriedade.

O que um bom relógio precisa ter para chamar sua atenção? Pra chamar a minha atenção, não adianta ser só bonito ou só técnico — tem que ter história, propósito e identidade. Eu gosto de peças que unem estética e conteúdo, se for só design vazio, não me atrai, e se for só técnica sem presença, também não. Um bom relógio precisa equilibrar, estética, técnica e conteúdo! Ter aquela sensação de que vai atravessar o tempo sem perder relevância. E no fim das contas, precisa ser uma ferramenta para o que eu busco naquele momento.
Que dicas você daria para quem pretende comprar um bom relógio? Primeiro de tudo: entenda o momento e a intenção. Nunca esqueça que o relógio é, antes de qualquer coisa, uma ferramenta — sempre foi e sempre será! Nasceu para a guerra, para sobreviver, para cumprir uma função, portanto, pergunte-se: qual será essa função? Você quer esse relógio para quê? Para investimento? Para uso pessoal? Para realização de um sonho? Isso muda tudo. Se a ideia for investimento, vá no seguro: Rolex, Audemars Piguet, Patek Philippe etc… são peças que se valorizam, têm liquidez e estabilidade no mercado. Se for paixão, e você já está consolidado, aí não tem regra: compre o que te emociona. O ponto é: relógio não pode ser só bonito no pulso, ele tem que servir ao propósito que você espera dele, seja fechar negócio, carregar história ou simplesmente realizar um sonho.


