Nossa bela da capa, a atriz Bárbara Reis, desde que surgiu na TV passa a imagem de mulher forte, batalhadora. Não por coincidência suas personagens são mulheres com esse perfil, guerreiras e cheias de atitude. Não foi à toa que ela interpretou uma gladiadora na novela “Jesus”, na Record, e uma militante política na série “Os Dias Eram Assim”, na Globo. Sua mais recente personagem foi Shirley, no remake de “Éramos Seis”, e não deu outra, deu o que falar. Durante essa quarentena Bárbara está na ativa, ativa nas redes sociais, se descobrindo em outras frentes e sabendo se adaptar as suas limitações. E o melhor, conseguimos flagrar nossa estrela na intimidade em casa nesse ensaio feito por vídeo chamada. O resultado foi barbado, sem trocadilho, mas é real.

Bárbara que análise faz da sua trajetória até esse momento? Até aqui foi uma trajetória simples, apesar das dificuldades. Digo simples pois nenhum percalço fez com que eu desistisse ou baqueasse do meu propósito. Eu sempre encarei os meus nãos ou dificuldades como parte do processo, da minha história, e não como algo a ser negativado. Mas como aprendizado. Eu tenho muito orgulho de todos personagens que fiz e nenhum foi a quem do meu merecimento. E daqui pra frente, tenho certeza, que será mais um caminho que me sentirei muito orgulhosa de trilhar.

Seu último trabalho na TV foi a Shirley do remake de “Éramos Seis”. Como foi fazer parte dessa novela? É sempre uma grande responsabilidade fazer uma novela que foi sucesso, e sempre será toda vez que for remontada. Não é à toa que eu fiz parte do quinto remake. Logo, todo o processo foi de muito amor envolvido por toda a equipe, no intuito de entregar a melhor versão. E na minha opinião, realmente entregamos.

Seu desempenho foi muito elogiado pela imprensa e pelo público, que odiava as atitudes de Shirley. Acredita que essa personagem é um divisor de águas da sua carreira? Todo trabalho que faço eu acabo considerando isso. Ator de verdade, se entrega a cada papel, independente do seu tamanho ou importância. Eu sempre ajo desta forma. Eu estudo muito cada nuance daquele ser humano, pois ela está me dando a oportunidade de viver a vida dela. É um presente mas a Shirley teve um papel fundamental nesse divisor de águas, pois creio que me alavancou em um lugar de amadurecimento enquanto atriz.

O que aprendeu com Shirley, que fez ser “apedrejada” pelo público? Que agora tem consequências. Eu já sabia disso, mas reafirmou. Que não se insiste em algo já encerrado. Me ensinou resiliência, me ensinou também determinação. Só que ela era determinada pro lado negativo.

 

Aliás, hoje, com as redes sociais, os fãs cada vez mais palpitam nas tramas e no trabalho dos atores. Como é sua relação com os fãs? Costuma “ouvir” as manifestações nas redes? Eu adoro interagir com eles, principalmente no Twitter. As opiniões são muito sinceras tanto pra bem quando pro ruim. Mas é só filtrar o que te for construtivo. E eu também brinco muito, deixo eles se sentirem meus amigos. Creio que eles sentem isso de verdade.

Você agora pode ser vista na reprise de “Jesus”. O que pode falar desse trabalho bíblico onde interpretou uma gladiadora? Foi fantástico. E estou muito feliz de estar reprisando, pois é um trabalho que já foi entregue, então não tenho mais uma responsabilidade sobre ele, uma cobrança em melhorar, pois já deu certo. E fazer a Susana me deu várias novas habilidades, como andar a cavalo e sentir essa liberdade, o contato com um animal tão lindo, e também a luta de espadas. Aprendi a manusear duas ao mesmo tempo.

Observando seus trabalhos na TV, é possível perceber que você só deu vida a mulheres fortes, empoderadas, independentemente de época onde a trama foi ambientada, como em “Velho Chico”, “Os Dias Eram Assim”, “Jesus” e “Éramos Seis”. O que aprendeu com elas? Eu acho isso um privilégio. Pois é exatamente assim que me vejo na minha vida: uma mulher forte, mas também tenho a beleza e a humildade de também ser vulnerável. É um equilíbrio. Mas elas só me ensinaram que estou no caminho certo, que devo continuar seguindo essa linha pensante e fortalecida nos meus ideais.

Você é uma mulher feminista? Acha que mulheres como as suas personagens assustam os homens na vida? Eu aprendi muito com o movimento e estou em constante aprendizado. É desafiador quando você está inserida em um sistema patriarcal, mas não impossível. Eu mudei muito meu pensamento.  Eu, por experiência própria, nunca assustei homens (risos) pois acredito na lei da atração, aonde energias afins de atraem. E quando se atraem é essa a experiência que tenho. Mas sim, quanto mais posicionada a mulher, independente e dona de si, mas autonomia ela tem E isso costuma acender uma bandeira de atenção aos homens.

Como tem sido esse período de quarentena? Tem sido um período de muito autoconhecimento e experiências vivenciadas comigo mesma. Muitas descobertas a nível quântico. Aprendi a relevar coisas pois não se pode mudar na marra. A mudança é interior. Mas com relação ao isolamento, estou lidando super bem, me habituei. O ser humano é adaptável e eu sou muito adaptável. Sempre procuro o bom nas experiências por mais negativas que elas pareçam ser.

Em suas redes, você tem contado que se tornou vegetariana. Como e por que decidiu fazer essa mudança? Sempre pensei no assunto, mas nunca foi uma vontade interior, da alma, sabe? Sempre externa por experiências dos outros. A mudança só ocorre quando vem de dentro. Porém, eu fui desafiada a ficar uma semana e foi muito tranquilo. Rapidamente, percebi mudanças que a dieta vegetariana trouxe, então resolvi, estender mais uma semana, e mais uma. Estou há 6 meses. Mas ainda como ovos e derivados do leite. Mas o intuito é parar de consumi-los também.

De um tempo para cá, vemos que você tem assumido sua beleza natural dos cachos assim como muitas famosas. Como isso impactou na sua vida, na sua rotina? Isso mexeu com sua autoestima? É verdade, desde 2010 eu tenho meus cabelos cacheados e sem química. De fato é uma liberdade mas não menos trabalho. É muito mais desafiador cuidar de um cabelo cacheado. Cada dia ele acorda de um jeito, não pode pentear seco. Se secar natural é assim, se for com difusor é assado. Apesar dos desafios diários, a leveza e a jovialidade que um cacho traz é única. Eu me sinto muito empoderada com meu cabelo, linda e sexy.

Nas suas redes também percebemos que você é bem reservada sobre sua vida pessoal. Como consegue fazer esse equilíbrio do que mostra pro público? É natural pra mim, pois acredito que quando se é feliz, completa, interferências de terceiros acabam afetando de forma não intencional. Mas estou mais flexível com isso hoje em dia. Tenho mostrado mais o meu dia a dia, em casa, com meus bichos, com minha alimentação.

Você já sofreu ataque racista nas suas redes sociais? Não. Mas já vieram na minha página dizer que eu não sou preta e que não deveria me aproveitar disso.

Estamos num momento em que o mundo tem se mobilizado fortemente contra o racismo. Como personalidades de destaque na mídia, como você, podem usar seus espaços nesse sentido? Denunciando. Mas isso não é só pra nós. Denúncia pode ser feita por todos. O movimento tem que ser diário e não só a partir de um movimento que ocorreu um dia. Todo ato racista tem que ser divulgado para a conscientização.

Você está com 30 anos. O que a idade te trouxe como mulher e profissional? Eu me aceito mais como eu sou e não como eu deveria ser, me projetando em alguém. Cada um é um ser único e por mais que nos espelhamos não seremos eles. Parei de me cobrar em muitos sentidos. Aceito o meu corpo como ele é por mais que muitas coisas eu queria que fosse diferente por questão estética, como meus quadris. Tenho ouvido mais o meu coração, sempre ouvi, mas agora muito mais. E, como profissional, tenho ouvido mais que falado em ambientes de trabalho. Apesar do meu trabalho ser uma diversão, é o meu trabalho. E tenho olhado pra ele com olhar além do profissionalismo.

Tem medo de envelhecer? Acha que existe uma cobrança para a mulher se manter bonita? Eu vou confiar na minha genética. Mas não sei dizer se tenho medo. Tenho medo do esforço que terei que fazer pra evitar isso. Como praticar cada vez mais exercícios (risos). Essa cobrança é muito particular. Eu, por exemplo, tem dias que acordo e quero estar bonita, tem dias que não.

Fotos Lukas Alencar