ESTRELA: BEL LIMA DANDO O QUE FALAR EM “DONA DE MIM”

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Atriz premiada no teatro musical, Bel Lima conquista espaço na TV e assume protagonismo em narrativas que unem afeto, diversidade e transformação. Aos 30 anos, Bel Lima vive um momento decisivo em sua trajetória artística. Nascida em Portugal e criada entre diferentes países, a atriz encontrou no Brasil o território fértil para suas raízes pessoais e profissionais. Hoje, celebra sua estreia em novelas com a personagem Ayla em “Dona de Mim”, da TV Globo, onde contracena com Tony Ramos e dá vida a uma mulher homoafetiva que sonha em ser mãe por inseminação artificial. Formada pela Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), Bel consolidou seu talento nos palcos do teatro musical. Sua estreia no audiovisual veio como protagonista da série musical “Vicky e a Musa” (Globoplay), onde interpretou Euterpe, musa grega da música. Entre o palco e as telas, Bel Lima reafirma seu compromisso com a representatividade LGBTQIAPN+ e com a potência de narrativas afetivas. Em um cenário artístico cada vez mais aberto à diversidade, ela se coloca como voz de uma geração que deseja transformar a arte em espaço de cuidado, visibilidade e amor.

Por Nadezhda Bezerra

O que você carrega de positivo de ter nascido em Portugal e ser criada entre diferentes países? Isso ajudou a criar a sua alma de artista? Ter a oportunidade de conhecer várias culturas com certeza enriqueceu, e MUITO, a minha alma de artista. Mas, pessoalmente, acho que nada se compara à cultura brasileira. Sou completamente apaixonada!

Você tem formação musical, atuou em montagens como Pippin, Cole Porter e Alguma coisa podre, recebendo prêmios e indicações, inclusive. Em relação a isso qual o papel da música na sua vida e o valor de premiações como essas? Ano que vem faço 10 anos trabalhando como atriz profissionalmente e celebro cada trabalho ao longo desses anos! Posso estar como protagonista, como posso aparecer uma vez para dar uma única fala, como “o jantar está servido”; se a história da obra ressoar comigo e se eu estiver ao lado de pessoas que me inspiram, eu sou a pessoa mais feliz do mundo. Confesso que, imaturamente, já romantizei a profissão acreditando que minha trajetória de atriz seria uma crescente, que as oportunidades seriam cada vez maiores, e a realidade foi um balde de água fria. E sinceramente? Foi a melhor coisa que poderia acontecer para eu entender que trabalho é trabalho — e eu amo o que eu faço!

Hoje em dia entendo que essa profissão é instável, cíclica e exige muita resiliência, mas a verdade é que TODO trabalho tem algo (muita coisa!) para me ensinar, me proporciona a oportunidade de me reinventar e faz parte do meu crescimento como artista e pessoa.

O quanto você acha importante ou até fundamental a formação artísticas em escolas como a CAL, onde você se formou, ou outras tantas pelo país? Tenho muito orgulho de ser formada pela Faculdade CAL de Artes Cênicas, que foi minha grande base. Acredito, inclusive, que o teatro deveria ser uma atividade de formação disponível em todas as escolas, e não ser algo exclusivo de escolas de artes cênicas. A arte amplia nossa visão sobre o mundo, desenvolve a criatividade, ajuda na comunicação e na confiança… são tantos benefícios! A arte tem o poder de nos transformar!

O teatro é a base da atuação para diversas outras linguagens ou não necessariamente? Acredito que o teatro seja, sim, a base com técnicas fundamentais de consciência cênica para o ator. Mesmo depois de formado, acredito que o ator tem um estudo contínuo. O trabalho do ator nunca termina porque o material dele é ele mesmo. O tempo, a maturidade, o amor, as perdas e as mudanças ao longo da vida transformam o ator; portanto, seu trabalho também.

TV, cinema, teatro, streeming, telas verticais, podcast, alguma preferência de linguagem ou alguma que você nem pensa em experimentar ou o que mais vale é contar histórias não importa formato ou linguagem? Tenho vontade de me jogar em tudo quanto é experiência, desbravar todas as possibilidades que posso! Sinto que, a cada vez que encaro um novo desafio, vou aumentando minha bagagem! Quando faço uma linguagem específica por muito tempo, acabo me acostumando inconscientemente com aquele formato e criando alguns “vícios” e “manias” na minha interpretação. Ao encarar um novo desafio, como é o caso agora da minha primeira novela, saio da minha zona de conforto e encontro novas possibilidades na minha interpretação. No teatro, por exemplo, temos o exercício da repetição. Como o tempo de ensaios e apresentações daquele espetáculo é mais longo, você vai descobrindo liberdade DENTRO daquela repetição. Para mim, que tenho uma tendência muito forte a ser extremamente cartesiana, é ótimo. Mas, quando é um trabalho com um ritmo de gravações de 20 ou mais cenas por dia, percebo que não é a repetição e, sim, o jogo de cintura, a resposta rápida e a reação viva que são essenciais e podem me garantir maior liberdade em cena. Daí, quando eu volto para o teatro, volto com o olhar renovado. Eu seria a pessoa mais feliz do mundo se eu conseguisse transitar entre trabalhos com linguagens diferentes, explorando todos os caminhos possíveis! Sou louca para fazer mais e mais novelas, streamings, cinema, teatro, TUDO!

Sua estreia no audiovisual foi como protagonista da série musical “Vicky e a Musa” (Globoplay), onde interpretou Euterpe, musa grega da música, mas, nos corrija se estivermos errados, é na TV aberta, como Ayla, na novela Dona de Mim que o grande público te conhece. A TV aberta ainda é o sonho de todo ator ou atriz? Dona de Mim é minha primeira novela, minha estreia na TV aberta e um sonho realizado que emanei durante muitos anos! Novelas são um ritual nacional; nos integram, nos educam, nos refletem emocionalmente e socialmente. Meu sonho enquanto artista sempre foi contar histórias, então fazer parte de algo que tenha essa projeção nacional e essa capacidade de conexão é realmente muito especial para mim. E eu abraço a grandeza do rolê mesmo — não sei fingir costume, tô sempre com um sorriso bobo de orelha a orelha e gaguejo, sim, quando falo com quem eu sou fã (risos)!

Falando em Ayla, conta pra gente como foi tua preparação para fazer essa personagem tão cativante e tão bem resolvida. Sempre fui muito estudiosa — até ansiosa, eu diria — com relação à construção de personagens. Estudava cada detalhe da trajetória, os objetivos, e me entupia de referências. Na novela, a construção foi um pouco diferente. Numa obra aberta, você vai conhecendo e entendendo mais a personagem conforme vai recebendo os capítulos. Eu nunca tinha feito um processo assim e fiquei completamente apaixonada. Chegavam capítulos e cenas novas, e eu ia descobrindo mais sonhos, traumas, relações e objetivos da Ayla (e muitas coisas me surpreendiam muito), e a coisa vai assentando. No início, como eu ainda não conhecia bem a personagem, eu ia me baseando muito nos meus colegas, no que o outro me estimulava em cena. Fui estudando como os outros personagens falavam com a minha, o que eles diziam a ela, o jeito, as palavras escolhidas, o tom de voz, para, assim, entender um pouco mais sobre a Ayla.

A Bel Lima tem algo de Ayla ou vice-versa? A Ayla é uma personagem que me ensinou muito. Assim como ela, eu tenho muita tendência a evitar conflitos a qualquer custo, e até este trabalho eu acreditava que isso poderia ser até uma qualidade minha. De repente, eu me via pensando: “Poxa, mas por que a Ayla foge de posicionamentos?”, “Por que ela tem tanta dificuldade para falar não?”. E percebi que essas características dela que me geravam um incômodo são coisas que eu também faço em muitos momentos, e fiquei tipo: eita! Acredito muito no poder da identificação através da arte, e, se eu me enxerguei um pouco na Ayla, outras pessoas podem fazer o mesmo. A história da Ayla retrata a importância do diálogo nas relações e a ideia de que ser honesto consigo e com o outro causa menos mal-estar do que evitar o mal-estar em si.

Como você vê a Ayla para uma sociedade mais inclusiva e menos preconceituosa? Cada personagem LGBTQIAPN+ na teledramaturgia é uma conquista que temos que celebrar, mas ainda temos um longo caminho pela frente. Infelizmente, vivemos numa sociedade que ainda marginaliza tanto a comunidade, que não sinto que TODOS estejam prontos para receber personagens LGBTQIAPN+ com camadas, complexidades, erros e acertos. Torço muito para que possamos ter mais histórias com representatividade na teledramaturgia!

Dona de Mim é uma grande saga familiar onde as personagens femininas, cada um a seu modo, mostram muita garra e sobretudo muita sororidade e afetuosidade. Como é a relação de vocês atrizes com histórias de vida e idades tão diferentes? Me inspiro diariamente nas minhas colegas de trabalho. Esses dias, a Dona Suely trouxe seu currículo para o nosso camarim e fiquei completamente admirada com a quantidade de trabalhos e experiências. Daí eu vejo a Elis, que tem apenas 7 anos, está em seu primeiro trabalho e tem uma luz e uma vocação tão impressionantes. Vejo que, apesar de trajetórias diferentes, o amor delas pelo ofício é o mesmo. A autoconfiança, a irreverência e a vitalidade delas me inspiram muito! A oportunidade de conhecer tantas e tantos artistas maravilhosos é uma honra!

Você faz parte de uma nova geração de artistas em contextos artísticos cada vez mais abertos à diversidade, como se vê em meio a isso? Você é do tipo que fica mais na sua e faz seu trabalho ou sempre que tem oportunidade usa sua voz para fortalecer a diversidade social? Sempre vou reforçar meu desejo por uma sociedade mais inclusiva e respeitosa, e defender o amor acima de tudo. Estar num trabalho que permita que você represente a diversidade e aquilo em que acredita através da arte é um privilégio imenso! Acredito que a representatividade precisa da nossa voz e das nossas ações, e acredito que, às vezes, a nossa existência por si só seja representatividade também!

Que recado gostaria de deixar para nossos leitores e leitoras? Priorizem estar em ambientes e rodeados de pessoas que façam você se sentir sua melhor versão! A pergunta que sempre me faço é: eu gosto de MIM nessa situação, nesse ambiente ou nessa posição? Se a resposta não for um sonoro “sim”, não é o lugar para mim. Acho que essa foi uma das fichas mais legais que caiu nos últimos tempos.

Fotos Mari Patriota @maripatriotainsta

Styling Michelle Rabischoffsky @mirabi

Agradecimentos Legado Rio @legadorio

Mari Patriota é uma fotógrafa pernambucana radicada no Rio, nacionalmente conhecida pelo projeto “Provador”, que transforma editoriais em um espaço íntimo de autoestima e liberdade feminina. Com luz natural e zero retoque, ela cria retratos honestos que revelam a beleza real das mulheres.