
Durante anos, Christiane Monnerat atuou na linha de frente da defesa ambiental no Ministério Público do Rio de Janeiro, sendo reconhecida pela firmeza técnica e pela sensibilidade rara com que tratava cada caso relacionado à proteção animal. Seu nome passou a circular não apenas entre juristas e ambientalistas, mas entre protetores, ONGs e estudiosos do tema, consolidando uma reputação que transcendeu fronteiras. Agora, promovida a Procuradora de Justiça, Christiane amplia o alcance desse compromisso por meio da literatura, canalizando sua vivência profissional e emocional em obras que dialogam profundamente com leitores que carregam o amor pelos animais como bandeira. Após o sucesso do seu primeiro livro Crime e Latido, em setembro, no Rio de Janeiro, a escritora irá promover o lançamento em São Paulo, na Livraria da Vila do Shopping Eldorado, reunindo admiradores, leitores, juristas e protetores em um evento que promete ser uma celebração da causa animal e de uma trajetória marcada pela coragem de transformar dor, memória e experiência em voz ativa. Na escrita, Christiane encontra uma forma de continuar sua missão de maneira ainda mais ampla, alcançando pessoas que talvez nunca tenham pisado em uma audiência, mas que reconhecem na empatia um poder capaz de gerar mudança social. Em conversa com a MENSCH sobre sua jornada, a procuradora fala de sua nova fase e da responsabilidade de defender vidas que não podem se defender. Confiram!
Dra. Christiane, o que despertou a paixão pela causa animal e o desejo de lutar pelos direitos dos animais dentro do Ministério Público? Desde a infância, a dor dos animais me atravessa de forma quase visceral. Mas foi no exercício do cargo que ocupo que essa compaixão se transformou em missão. Não foi uma escolha consciente no início, foi quase um chamado. A cada inquérito, a cada laudo, a cada imagem de um animal negligenciado ou torturado, fui compreendendo que aquela pauta não era periférica. Era essencial. Era sobre a dignidade dos animais.

Durante sua atuação na proteção do meio ambiente, especialmente no caso da Ilha de Paquetá, houve grande repercussão midiática. Como a senhora lidou com as críticas e com o apelido “maluca do au-au”? Lidei com ironia e resiliência. No início, confesso que o rótulo “maluca do au-au” me feriu profundamente. Parecia (e era) uma tentativa tosca e barata de ridicularizar um trabalho sério. A alcunha “A Maluca do Au-Au” foi criada com a intenção de desqualificar uma luta legítima e digna. Mas, com o passar do tempo, compreendi que a forma descortês com que tentaram me depreciar falava mais sobre o incômodo que eu causava em certos círculos. Se defender os animais é loucura, então eu assino embaixo. A “maluca” que invadiu a Ilha de Paquetá empunhando um fuzil e um celular não era uma caricatura. Era o retrato visceral de alguém que ainda detinha o mínimo de sanidade dentro de um sistema burocrático engessado e que se recusava a compactuar com o silêncio e a omissão velada. Eu me apropriei da alcunha, a ressignifiquei e segui adiante. A “maluca do au-au” tornou-se parte integrante da minha personalidade, uma entidade quase mística, quixotesca e parente distante das Bruxas de Salém. Aquela que desafia e não recua diante das causas perdidas e que entra na arena, principalmente e inclusive, sozinha. Hoje, não somente aceito a “maluca do au-au”, como a reverencio. Ela caminha ao meu lado com as patas sujas de barro e a alma repleta de compaixão. Ela me aconselha e escreve a sua trajetória através da minha mão. Habita meus silêncios, me recorda das quedas, não me julga e é a razão pela qual tantos cavalos caminham livres hoje. Essa outra faceta da minha alma representa a minha entrega: a coragem de seguir lutando, porque a vida dos cavalos não podia esperar pela burocracia.
Após o sucesso do lançamento do seu primeiro livro Crime e Latido no Rio de Janeiro, qual sua expectativa para o lançamento em São Paulo? Minha expectativa é muito positiva! Depois da recepção tão calorosa no Rio, acredito que o público de São Paulo também vai se conectar com o livro de uma forma especial. Tenho uma relação íntima com a cidade. Minha comadre e grande amiga Mônica Carvalho, que considero como família, é carioca, mas vive lá há mais de vinte anos, completamente adaptada. São Paulo é vibrante, acolhedora e repleta de excelentes shoppings e restaurantes; tenho certeza de que será uma experiência edificante reencontrar velhos amigos e viver novamente essa atmosfera cultural tão rica. Minha principal expectativa, no entanto, é que o lançamento seja um espaço de diálogo atento às causas que o livro propõe.

A senhora pretende continuar escrevendo no viés de defesa e proteção dos animais? Sim. Pretendo continuar escrevendo sob o viés da proteção e defesa dos animais, tema que sempre me acompanhou na vida e na carreira. Mas é importante lembrar que, antes disso, atuei por muitos anos na área da Infância e Juventude e, por incrível que pareça, as histórias desses dois universos se cruzam com frequência. Descobri, ao longo do tempo, que esses segmentos não são compartimentos isolados: eles se tocam, se refletem e, em alguma medida, se completam. Lembro-me de um caso real, marcante pela força simbólica que carrega: o de um cão de família que, mesmo treinado e dócil, desobedeceu a todos os comandos e mordeu uma mulher que se dizia integrante do grupo familiar. A narrativa reescrita, literária e simbólica, ganha seu ponto de virada na voz do próprio cão:
A menina saiu de casa com aproximadamente doze anos. Foi viver no chamado Beco da Lama, em Cabo Frio, um lugar de esquinas molhadas, promessas baratas e sonhos que não resistem ao amanhecer. Quando voltou, cerca de seis anos depois, a vida havia passado sobre ela como uma onda pesada, deixando marcas no rosto e um olhar distante. Tudo indicava que era a mesma menina, apenas transformada pelas escolhas que o desespero impõe: prostituição, drogas, sobrevivência.
A família, comovida, abriu novamente os braços. Todos a receberam, cada um a sua maneira, entre a culpa e a esperança. Todos, menos o cão. Ele, que havia sido testemunha silenciosa de sua partida, rosnava e latia vertiginosamente sempre que ela se aproximava, recusando o afeto ensaiado dos reencontros. Ninguém entendeu: tentaram acalmá-lo, repreendê-lo, até que um dia ele mordeu a visitante, rompendo o verniz da cordialidade. Foi então que o silêncio se instalou. Não por raiva, mas por espanto. O cão, ao que parecia, enxergava o que os humanos não ousavam admitir: aquela presença trazia algo de estranho, uma sombra, talvez algo que não pertencia à casa. Era a mesma menina, sim, mas também não era. E, naquela mordida, havia menos fúria e mais desespero. No fim, o cão tinha razão, o que foi ratificado pelo exame de DNA. O final da história deixo para o leitor descobrir no próximo livro.

A senhora foi promovida a procuradora e não atua mais na área do meio ambiente. Mas pretende, de maneira informal, continuar atuando em defesa dos animais? Sim. Embora hoje eu não atue mais formalmente na seara do Meio Ambiente, pretendo continuar, de maneira informal, na defesa e proteção dos animais, causa que ultrapassa o âmbito profissional e faz parte da minha trajetória de vida. Depois de tantos anos dedicados a essa área, é impossível desligar o olhar atento, o instinto de proteção e a sensibilidade jurídica que a experiência trouxe. Continuo colaborando em iniciativas, escrevendo sobre o tema e apoiando quem atua na linha de frente. Como exemplo concreto desse compromisso, destinei uma parte expressiva da venda dos meus livros à ONG da protetora Rosana Guerra, cuja atuação incansável em prol dos animais admiro profundamente. Acredito que a consciência sobre os direitos dos animais não se encerra com o exercício do cargo público. Ela se transforma em missão contínua, capaz de inspirar novas formas de cuidado e empatia.
Em seu livro, a senhora cita vários episódios ocorridos com famosos, inclusive um caso polêmico que envolveu a cantora Anitta, correto? Sim. No caso da Anitta, eu recebi os documentos que formaram o registro de ocorrência (RO) através de uma procuradora de Justiça. Na época, eu era promotora. Tenho todos os documentos do processo, que tratava de uma denúncia pelo fato de a cantora ter levado para um show uma cobra píton, considerada ameaçada de extinção. A artista dançava com o réptil no palco de uma conceituada casa de show carioca. O laudo do processo mencionava que ela estava visivelmente dopada. Refiro-me à cobra!

Há também menção a uma famosa apresentadora de um programa culinário de grande audiência na TV que praticava crueldade contra animais? Sim! A senhora em questão teve a “excelente” ideia de cozinhar crustáceos vivos, ao vivo na TV (não é pleonasmo). A cena acontecia na hora do “pãozinho na chapa”. A caixa de e-mails da promotoria começou a lotar com denúncias de todo o Brasil contra a senhora apresentadora, que não só cozinhava lagostas vivas como também caranguejos. Recebi inúmeras denúncias de “lagosticídio” e “caranguejicídio” na TV. Tive que mandar ofício para a emissora para evitar que a senhora prosseguisse com essa prática.
A senhora ficou muito conhecida quando comandou uma operação icônica na Ilha de Paquetá, de fuzil em punho, que culminou na proibição de tração animal na ilha. Como foi? De fato, este foi o maior desafio de toda a minha carreira no Ministério Público. Diante de todas as burocracias vigentes, fui obrigada a tomar uma decisão drástica em favor dos animais. A situação dos equinos da ilha era deplorável e não havia mais espaço para milhares de denúncias sobre maus-tratos e crueldade contra os animais. No meu livro conto minuciosamente todos os detalhes dessa operação, na qual cheguei a assistir à morte de um cavalo bem na minha frente. A notícia boa é que essa atitude de enfrentar o sistema culminou na retirada de todos os cavalos da ilha e no fim da tração animal em Paquetá.
De que forma nossos leitores podem acompanhar melhor seu trabalho na literatura? No Instagram @literaturadosautos, compartilho reflexões que aproximam literatura, ideias e vida cotidiana, e espero que esse encontro em São Paulo fortaleça ainda mais essa conexão entre leitura e experiência real.

Fotos Reginaldo Teixeira
Beleza Cinthia Silva
Styling Marcia Dornelles
Vestido Carmen Steffens Rio Sul Assessoria Marcia Dornelles Comunicação


