A atriz Françoise Forton é do tempo em que os likes sobre um ator ou seu desempenho em uma novela vinham de forma bem mais discreta e com menos intensidade. Um ator para receber aplausos e ter o contato com seu público era algo mais orgânico, mais intenso. Não melhor ou pior que hoje em dia, mas sim diferente e marcante. Tanto que mais de 40 anos depois de sua primeira protagonista, a Maria Tereza de “Estúpido Cupido”, ela ainda é lembrada nas ruas por conta dela. Françoise sempre nos passou uma imagem de elegante e culta, e não é por acaso, a sua criação tem grande influência nisso e ao longo de sua vida ela foi aprimorando ainda mais esses aspectos. Recém encerrada mais uma personagem, a Emília de “Tempo de Amar”, Françoise segue com novos projetos e muitas ideias. Uma mulher admirável dentro e fora das telas e palcos.

Françoise como foi encerrar mais esse belo trabalho em “Tempo de Amar”? Realizada com o resultado? Fazer Emília ainda foi muito gostoso, foi um exercício muito prazeroso. Ela era muito dedicada, sensível, culta, carinhosa, generosa. Feliz em ter contracenado com grandes atores, em estar num trabalho muito bem feito com uma história muito bem rescrita onde todos tem seu espaço.

Independentemente do tempo que se tem de profissão sempre estamos aptos a aprender algo. O que esse trabalho te trouxe de aprendizado? Emília me deu a oportunidade de passar por discussões e situações que até hoje existem, infelizmente, o lugar da mulher, o respeito da mulher, questões da famosa frase não, “não quero, não permito”. Emília é uma mulher que tem uma cabeça à frente do seu tempo, naquela época já era empoderada, me fez ver outra faceta da mulher.

Muito se fala que depois de certa idade as mulheres perdem papéis de destaque nas tramas. Ao mesmo tempo vemos veteranas como você, Regina Duarte, Angela Vieira, Betty Faria e Vera Holtz, por exemplo, sempre na telinha. O que você acha disso? O que acontece é que se escreve menos papéis para mulheres maduras, isso eu acho que é real.

Você é de uma geração de atores que apenas o talento ela julgado pelo público. Hoje em dia o número de seguidores e likes posiciona atores e muitas vezes se tornam algo relevante para fazer um trabalho. O que pensa sobre isso? Sigo minha vida fazendo meu trabalho com muito esforço e dedicação, cada trabalho que faço, seja no cinema, teatro ou televisão, faço todos com a mesma intensão, pesquisa e dedicação. Acho que o resultado do seu trabalho que é visto pelo público e pode ser apreciado e curtido com likes, pois é totalmente normal é uma ferramenta da internet, da nova era da tecnologia. Mas acredito que o que acaba formando uma carreira longa, solida, com respeito e seriedade, tanto do público quanto do meio artístico, é a qualidade do seu trabalho, o ator não consegue mostrar um trabalho de qualidade se ele não estudar muito.

No seu caso a que se deve ter sempre um ótimo papel, seja na TV, cinema ou teatro, ao longo desses anos de carreira? Ou não foi tão fácil se manter em evidência assim como possa parecer? Além da oportunidade, uma das coisas que me faz sentir renovada, é que além de ser atriz de fazer cinema, teatro e televisão, eu também dou aula, tenho um curso o “Cena Aberta” que divido com Delson Antunes e nesse curso acontece uma renovação constante, pois somos cercados de jovens, essa troca de experiência de aprendizado e leitura me renovam.

No auge dos seus 60 anos você passa um ar jovial que dar inveja nos dias de hoje. Como cuida do corpo e da mente? Algum “segredo” ou dica para enfrentar o tempo se mantendo sempre bem? Procuro e tento estar atenta ao autoconhecimento, estar atenta ao meu eu interior, a meditar, concentrar; minha vaidade é muito voltada para que eu tenha um instrumento apto para ser usando no próximo trabalho ou no trabalho que estou realizando. Sempre que posso faço aulas de balé, tenho uma alimentação saudável, sempre que posso. Faço aulas de balé, dança e canto, estou sempre em busca de aprendizado, isso me fortalece, acho que isso deixa minha cabeça mais jovem.

Você sempre passou a imagem de mulher elegante e culta. Acredita que isso vem de forma natural ou a criação e o meio vão moldando? Acho que isso começa na formação, desde pequena fui criada vendo concerto, ouvindo música clássica, música popular, fazendo balé, indo ao teatro. Obviamente isto foi ficando em mim.

Em 1989, no auge da beleza na novela “Tieta”, você posou nua para a revista Playboy. Foi um ato de vaidade, autoestima ou apenas mais um trabalho. Como guarda esse momento? Já havia tempo que a revista me convidava, na época, e eu relutava muito, pois queria fazer quando tivesse uma personagem mais forte, mais densa e em “Tieta” fiz uma vilã, foi onde surgiu a oportunidade de fazer um trabalho de qualidade, de atriz com textos, onde pude indicar toda equipe para este trabalho que foi muito bem aceito. Mas passou, foi!

Muita gente ainda guarda a imagem da Maria Tereza em “Estúpido Cupido”, de 1976. Para você foi um marco? Sem dúvida, Maria Tereza foi minha primeira protagonista, meu primeiro grande sucesso, não conseguia andar na rua, até hoje as pessoas lembram de Estúpido Cupido, realmente foi um marco.

A Gigi de “Viver a Vida” trouxe um traço mais cômico de uma perua decadente. Se divertia muito com sua Gigi? A Gigi era maravilhosa, mostrava o retrato real de uma burguesinha que não tinha como se sustentar, vazia, apoiada somente nos bens materiais; a possibilidade de comédia foi muito boa, Gigi era uma delícia, me divertia muito, foi muito legal.

Que personagens guarda com carinho que você levaria para um passeio? Difícil, iria ser uma turma grande (risos), difícil dizer quais personagens…

O que os homens precisam aprender com as mulheres urgente? E o que inveja neles? Acho que a mulher pela própria necessidade, pela própria maternidade, ela consegue fazer mais de uma coisa na vida, no seu dia, isto é uma observação, apenas. Acho que nós (homens e mulheres) precisamos aprender uns com os outros, respeito, carinho, generosidade é algo que precisamos trocar. Acho que sou tão homem de mim mesma em decisões, em condutas de trabalho que não os invejo, acho que ser homem deve ser muito bacana, mas não abriria mão da maternidade.

Esperamos vê-la de volta em breve na telinha, telona ou palcos. Alguns planos que possa nos adiantar? Volto em abril com o espetáculo, “Estúpido Cupido O Musical”, que foi feito em comemoração de 50 anos de carreira, texto de Flávio Marinho e direção Gilberto Gawronski, onde teremos onze atores e três músicos e não contaremos a história da novela.

Fotógrafo Carolina Goetz

Make-up Alex Palmeira

Stylist Humberto Correia