CARREIRA: OS NOVOS DESAFIOS DE DIÓGENES CARVALHO

Advogado, professor universitário, ator e psicanalista em formação, Diógenes Carvalho estampa pela terceira vez a capa da MENSCH e vive um momento de travessia artística. Entre o palco e o cinema, ele se prepara para estrear a peça Entre uma rajada de emojis no segundo semestre, uma comédia sobre as formas de contar um encontro amoroso, e para filmar o longa-metragem Diário dos Ventos, sob a direção de Bia Szvat, uma jornada sensorial que atravessa o Brasil até o Jalapão. Em conversa com a MENSCH, ele fala sobre teatro, amor, psicanálise, cinema e sobre como a vida pessoal sempre acaba escrevendo parte dos personagens que interpretamos.

Diógenes Carvalho acredita que o teatro continua sendo um dos lugares mais vivos da experiência humana. Talvez porque nele tudo aconteça no presente: a respiração, o silêncio, o encontro. Ao mesmo tempo em que prepara a estreia de uma nova peça para o segundo semestre, o ator também mergulha no cinema em um projeto que mistura viagem, natureza e transformação interior. Entre reflexões sobre amor, narrativa e tempo, ele compartilha como suas experiências pessoais e seus estudos em psicanálise atravessam sua maneira de criar personagens e contar histórias.

Em conversa com a MENSCH, Diógenes Carvalho fala sobre teatro, amor, psicanálise e cinema, refletindo sobre como a vida pessoal frequentemente atravessa os personagens que interpreta.

Pesquisador e professor da Universidade Federal de Goiás, possui três pós-doutorados (em Direito do Consumidor, Psicologia e Direito Internacional) e desenvolve uma trajetória que conecta pensamento acadêmico e criação artística. Atuou na Diretoria Jurídica do CONAR e na Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça, além de levar suas pesquisas a universidades de diversos países.

Autor de livros e artigos no Brasil e no exterior, assina uma coluna mensal sobre psicanálise, cultura e comportamento, enquanto realiza sua formação psicanalítica no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Entre novos livros, projetos e trabalhos no teatro e no cinema, Diógenes reafirma-se como um dos intelectuais mais plurais e instigantes de sua geração, pois ocupa com solidez espaços que raramente se encontram na mesma trajetória.

Você está prestes a estrear a peça Entre Uma Rajada de Emojis. Como nasceu esse projeto? A peça nasceu de uma curiosidade simples: como as histórias de amor são contadas hoje. Muito disso também vem das dificuldades e ambiguidades dos relacionamentos virtuais contemporâneos, onde encontros começam por mensagens, emojis e interpretações que nem sempre correspondem exatamente ao que o outro quis dizer. Quando duas pessoas se conhecem, existe sempre uma versão do encontro, mas essa versão nunca é única. Ela muda conforme quem narra, conforme o tempo passa e conforme a memória reorganiza os fatos.

Entre Uma Rajada de Emojis parte justamente desse jogo. Dois personagens, Jayne e Paco, se encontram por acaso em uma tarde chuvosa em São Paulo, sob a marquise de uma loja de bolos. A partir desse instante aparentemente banal, quatro atores passam a reconstruir essa história sob diferentes perspectivas. É quase como se o encontro se transformasse em um laboratório teatral sobre o amor e sobre as formas contemporâneas de narrar e interpretar um vínculo.

O que o público pode esperar da peça? Muito humor e leveza. Apesar de tocar em temas profundos — como a expectativa, a projeção e as contradições do amor — a peça tem um espírito lúdico. Os atores alternam personagens, narradores e pontos de vista, comentam as próprias cenas, lembram, imaginam e até contradizem o que foi dito antes. É como observar a memória funcionando ao vivo. Ao invés das grandes tragédias românticas, a peça pergunta algo mais contemporâneo: talvez amar não seja cair em abismos, mas aprender a ficar.

A estrutura da peça parece dialogar com narrativas contemporâneas. Isso foi intencional? Sim. Hoje nós contamos nossas histórias de maneiras muito fragmentadas — mensagens, áudios, imagens, emojis. A peça brinca com essa multiplicidade de registros. Ao mesmo tempo, ela mantém algo muito essencial do teatro: o encontro ao vivo entre atores e público. Existe um prazer muito grande em ver uma história sendo construída diante dos nossos olhos, com improvisação, comentários e mudanças de perspectiva.

Você também vai gravar o longa-metragem Diário dos Ventos. Como é esse projeto? É um filme muito bonito, sensorial. A história acompanha três jovens mulheres que vivem em São Paulo e que, por causa de um acontecimento inesperado e de um caderno misterioso deixado por uma avó, acabam atravessando o país rumo ao Jalapão, no Tocantins. Esse caderno tem desenhos, símbolos e frases que parecem indicar um caminho — mas ninguém sabe exatamente qual.

E qual é o seu personagem na história? Eu interpreto Arão, um preservacionista ambiental que vive na região do Jalapão. Ele acaba se tornando um guia inesperado para essas jovens durante a viagem. Arão ajuda a decifrar os símbolos presentes no diário da avó e revela conexões entre os registros do caderno, a história do território e os saberes da natureza local. É um personagem muito ligado à escuta e à observação.

O Jalapão aparece quase como um personagem do filme, não? Exatamente. O filme tem uma estética muito contemplativa. As dunas douradas, os rios cristalinos, os fervedouros, os ventos constantes não são apenas cenário. Elas transformam as personagens. Existe um contraste forte entre a velocidade da vida urbana e a experiência de presença que surge quando você entra em contato com um território como aquele.

Teatro e cinema pedem preparações muito diferentes para um ator? Sim, completamente. No teatro você trabalha muito com o corpo e com o tempo contínuo da cena. No cinema existe uma fragmentação maior. Às vezes você grava o final da história antes do começo. Isso exige um tipo diferente de construção emocional. Ao mesmo tempo, as duas linguagens se alimentam muito. Talvez o cinema seja muito mais do diretor do que do ator.

Você também tem um interesse profundo pela psicanálise. Isso influencia seu trabalho como ator? Muito. A psicanálise atravessa profundamente minha forma de olhar para os personagens e para a vida. Estou há cerca de dez anos em análise, e isso me ensinou a perceber que tanto as pessoas quanto os personagens são movidos por desejos, conflitos e histórias que nem sempre aparecem de forma explícita. Muitas vezes existe um subtexto, uma camada invisível por trás do que é dito. Esse olhar ajuda muito na construção de cena. Ao mesmo tempo, minha trajetória profissional também contribui para essa maturidade. São 25 anos de formado em Direito, com muita experiência acumulada. Tive a oportunidade de seguir o sonho de ser ator e construir um caminho sólido nas duas áreas. Hoje me sinto muito bem, profissional e emocionalmente, e essa estabilidade me dá mais liberdade e profundidade no trabalho artístico.

O amor é um tema central tanto na peça quanto em muitas reflexões contemporâneas. O que mais te interessa nesse assunto? Talvez o que mais me interesse no amor seja justamente o fato de que ele nunca corresponde exatamente ao que imaginamos. Amar envolve projeções, fantasias e expectativas, mas também envolve o encontro com a alteridade, com aquilo que o outro tem de diferente e inesperado. A psicanálise ajuda muito a pensar isso. Amar, de certo modo, é ocupar uma posição de falta. O amante acredita que o outro possui algo que lhe interessa, algo que o toca profundamente. Por isso o amor exige reconhecer a própria incompletude. Quando alguém não consegue admitir sua falta, fica muito difícil sustentar uma relação. E o amor também pede movimento. Não basta sentir em silêncio é preciso dizer, arriscar, se implicar. Por isso amar é sempre um trabalho. Nada leve, como todo mundo almeja, pois não tem quase nada de confortável no amor, embora ele dê tanta cor à vida e tanto amparo à existência.

Entre teatro, cinema e estudos, como você encontra equilíbrio na vida pessoal? Como está a vida amorosa? Acho que o equilíbrio não é algo fixo, é quase uma coreografia que vamos aprendendo a dançar ao longo do tempo. Há momentos em que o trabalho ocupa mais espaço, outros em que a vida pessoal pede mais presença. O importante é não perder a curiosidade pela arte, pelas pessoas e pela própria vida. Com o tempo também aprendemos a respeitar os ritmos. E a vida amorosa, posso dizer com um certo sorriso, vai muito bem, obrigado. Apesar das dificuldades do nosso tempo, da vida movimentada e das complexidades das relações contemporâneas, continuo acreditando que o amor é um dos lugares mais bonitos da experiência humana. Hoje, inclusive, no momento desta entrevista, posso dizer que me encontro apaixonado. Existe uma história que parece estar se organizando e encontrando um espaço muito interessante na minha vida. E talvez seja isso que torna tudo mais bonito: perceber que, mesmo com todas as imperfeições e incertezas, ainda é possível se surpreender com os encontros que a vida nos oferece.

O que você espera que o público leve dessas duas histórias — a da peça e a do filme? Talvez uma vontade de escutar melhor as próprias histórias. Tanto Entre uma rajada de emojis quanto Diário dos Ventos falam, de maneiras diferentes, sobre encontros e travessias. Sobre como a vida muda quando algo inesperado acontece. No fundo, são histórias sobre prestar atenção nos sinais do caminho, tanto externos e internos.

Para terminar: o que ainda te move como artista? A pergunta. Acho que o que me move é continuar perguntando. Sobre as relações, sobre o desejo, sobre as narrativas que criamos para dar sentido à vida. O teatro e o cinema são lugares onde essas perguntas podem existir sem precisar de respostas definitivas.

Fotos Sérgio Santoian @s_santoian

Stylist Luan Ventilari @luanventilari

Make Maria Antonia @aguriadamake 

Cabelo Murilo Maurício @murilomauricio