Em se tratando de mulheres fortes nós aqui da MENSCH estamos bem cercados. Taí a atriz Maria Gal, que volta a MENSCH em um novo ensaio e muitas histórias para contar. Histórias como é ficar no ar por 2 anos ininterruptos com uma mesma personagem. Ou como é ser uma das principais ativistas dos direitos dos negros num país onde o racismo ainda é um grande problema na nossa sociedade. “Eu acredito na educação e acho que sim, que ela pode pôr fim em várias desigualdades sociais existentes hoje, principalmente o racismo”, comentou Maria Gal que há poucos meses foi chamada de macaca por um seguidor em seu perfil no instagram. Por mais que alguns pensem que o racismo seja algo distante da sua realidade, atos como esse nos mostram como precisamos TODOS nos posicionar e combater atitudes assim. E se depender de Maria Gal, essa causa tem uma mulher de pulso forte e muito o que mostrar.

Você acabou de se despedir de uma personagem muito marcante, a Gleyce Soares, que ficou por 2 anos, ininterruptos, no ar no SBT. Como foi essa experiência? Eu costumo dizer que a Gleyce foi um grande presente. Ter a oportunidade de dar vida a uma personagem que é a cara da mulher brasileira é uma honra. O retorno do público foi muito grande, quase imediato, tanto das mulheres que viam na personagem uma inspiração, como das crianças, por conta da relação que a Gleyce tem com os filhos. Representatividade é importante sim e existe uma troca muito grande com o público pelas redes sociais. Estou curiosa pra saber como será a recepção da novela e da personagem em Moçambique, que estreou agora em setembro.

A pandemia interrompeu as gravações da próxima fase de “Poliana”. Quando retomar, podemos esperar Gleyce e seus filhos na trama? Pois é, é verdade. Estávamos gravando a próxima fase quando começou o isolamento. Sim! Gleyce volta com tudo e com um núcleo ainda mais representativo, atuante e com mais poder, pois a família aumentou, afinal, ela agora tem um namorado. É muito bacana ver a evolução da personagem, que trabalhava na limpeza da escola e foi a luta, passou no vestibular está cursando administração e hoje trabalha em outra área na trama. 

Falando em pandemia, como foi esse período para você? Acho que aconteceu comigo o que aconteceu com todo mundo. Eu tive meus momentos de tristeza, de medo e de tentar entender o que estava acontecendo. Tive meu período de lives, em que eu troquei muito com os meus seguidores e compartilhava até minhas aulas de inglês. Mas, este período também foi proveitoso para estudar, retomar projetos pessoais e fazer o bem. Usei minha imagem para ajudar inúmeras campanhas sociais, como “Gerando Falcões” e “Favela sem Corona”, do qual virei embaixadora, inclusive. 

Essa parte de fazer o bem e ajudar o próximo sempre esteve presente na minha vida, mas com a correria que vivemos, a atuação vai diminuindo. Mas um problema dessa escala, como foi o coronavírus, sacode a gente e ajudar o próximo vira uma prioridade. Além disso comecei a estudar ações da bolsa de valores, interpretação em master class internacional, estudo também palestra com Roberto Shinyashiki, estou estudando confeitaria com Nubia Moraes, que foi do “Bake Off Brasil” e trabalhando a estratégia para estar atuante na função apresentadora.

Você hoje é uma das principais ativistas dos direitos dos negros no país. Como começou essa história? Sou de Salvador e comecei a fazer teatro no Teatro Vila Velha e trabalhando também com o Bando de Teatro Olodum. Grupo formado por atores negros e que já falava sobre a questão racial nos espetáculos há 30 anos. Então esse tema acabou fazendo parte do meu DNA como artista, mulher, negra e cidadã, desde sempre.

Há algumas semanas você, inclusive, passou por uma nova situação de racismo, desta vez via Instagram. Você ainda fica perplexa que isso aconteça nos dias de hoje? (Ela foi chamada de macaca por um seguidor no Instagram) Eu fico sim e me entristecei muito. Confesso que foi doloroso ver o meu nome em vários veículos associados a notícia de racismo. Isso em pleno século XXI! O que ameniza é que o tamanho da exposição que o caso teve reflete o quanto as pessoas estão cansadas disso e querem debater. O meu post foi com o intuito de chamar atenção para educar as crianças, os jovens, que serão nossos governantes no futuro. 

Você se considera otimista quando falamos de fim do racismo? Eu sou daquelas que não desiste nunca, então me considero muito otimista. Eu acredito na educação e acho que sim, que ela pode pôr fim em várias desigualdades sociais existentes hoje, principalmente o racismo. Começar a educar as crianças que o Brasil não foi descoberto, ele foi invadido e que trouxeram para cá seres humanos para serem escravizados. Que a Abolição dos Escravos, que aconteceu há 132 anos, adiantou muito pouco porque ninguém criou um plano para a população negra e, desde então, os brancos possuem uma dívida com a gente. Acredito também na importância e urgência de uma educação antirracista aos adultos de hoje após um longo período de mitos e desinformação como o mito da democracia racial.

Você escreve para a Vogue Online. Como é ter uma coluna na maior revista de moda do país e como você traz os temas da negritude para essa publicação? Eu adoro escrever para a Vogue e usar esse espaço para levar temas e pessoas de suma importância para um público que, até outro dia, não leria sobre esses temas, me traz muita felicidade. Sei da minha responsabilidade e a uso com sabedoria para compartilhar.

Essa entrevista faz parte do ensaio de capa. Quando criança, você se imaginava em capas de revistas ou isso nem passava pela sua cabeça? Imaginava e percebia o quanto as capas de revistas até hoje oferecem ainda poucas oportunidades para quem tem a pele negra retinta como a minha. Esse é o tão cruel colorismo.

E, qual o significado para você de estar numa capa, na TV ou vendo outros negros em comerciais? É um momento necessário e urgente pra uma grande mudança no Brasil. Percebo as mudanças mas entendo que ainda está muito aquém visto que no Brasil temos 56% da população que se auto declara negra.
Estamos ainda engatinhando pra uma mudança no racismo estrutural nas empresas e sociedade como um todo.

Deixe uma mensagem para os leitores da MENSCH. Compartilho uma frase que gosto muito de um dos maiores esportistas de todos os tempos. “Vencer a todo custo”, Michael Jordan. 

Fotos Marcos Nadur 

Produção Marcia Dornelles 

Beleza Sara Prado

Locação IED RIO (www.iedrio.com.br) Maria Gal veste: Look 1: Pulseira e brincos Atelier Chilaze, saia de bolas Maisa Gouvêia; Look 2: blusa Elegance, brincos Silvia Doring, sandália acervo; Look 3: colete Divina Criação, hot pant Lia Presenti; Look 4: Max colete Divina Criação, colar My Charm Joias.