Quem não se lembra da enlouquecida namorada de Patrick, do “Zorra Total”, rodando suas tranças para defendê-lo dos apuros? Pois é, a personagem de Dig Dutra fez história na TV e conquistou o público. Vinda do teatro para a TV, Dig tem sua veia humorística muito afiada, mas nem por isso deixou de navegar pelo drama com outros personagens que a desafiaram de formas diferentes. Como a recente Rochelle de “A Força do Querer”, reprisada recentemente. Ao longo da sua carreira, Dig aprendeu a conviver com momentos de altos e baixos da carreira, sempre com alto astral e perseverança. “…somos cobrados por estarmos fora de cena. Faz parte. Nada que não se resolva quando a gente estreia um novo trabalho e recebe o aplauso caloroso e o reconhecimento do público”, concluiu Dig.

Diga, quando Silvia Camargo virou Dig Dutra? De onde veio esse nome? Minha mãe escolheu Silvia para manter a mesma sonoridade das três filhas: Simone, Cintia e Silvia. Mas logo que eu nasci meu pai espalhou a notícia entre os amigos: “Nasceu a Dig-Dig!” Pronto! O apelido pegou e meu pai nunca me chamou de Silvia. Para ele eu sempre fui a Dig-Dig! Eu adoro e me identifico muito com esse apelido. Todo mundo próximo a mim passou a me chamar assim e à medida que fui crescendo foi ficando só Dig. Como nome artístico eu usava Silvia Dutra mas muitas vezes tinha que colocar Dig entre parênteses pra saberem quem era eu. Um dia o Anderson Faganello, meu amigo e super ator, disse pra eu usar Dig Dutra. Eu adorei e acho que fez toda a diferença na minha carreira, por ser um nome original e marcante. 

E como surgiu sua veia artística? A veia artística nasceu comigo e foi se revelando através da pintura, da dança e da música. Era notório que eu precisava me expressar através da arte. Mas a atuação eu descobri quando, aos 14 anos, assisti uma peça de teatro no colégio onde eu estudava e vi uma colega de turma em cena. Fiquei maravilhada ao vê-la interpretando um personagem tão diferente dela. Acho que foi aí que eu compreendi a beleza da profissão de ator. No ano seguinte, com 15 anos, fiz um teste e entrei no grupo de teatro. Ali tive certeza de que eu queria ser atriz para sempre e não parei mais de estudar e batalhar por isso. 

Você basicamente é uma atriz de TV. É isso mesmo ou estamos enganados? Se sim, foi uma escolha sua ou o caminho que foi sendo traçado? Eu sou uma atriz que estudou e se preparou para atuar, seja em qual segmento for. Mas minha maior experiência é no teatro. O público me conhece mais da televisão porque a visibilidade é maior. Sou formada em artes cênicas e pós-graduada em cinema. Este ano completo 30 anos de carreira. Comecei no teatro e vou seguir nos palcos sempre que possível. Tenho uma grande vivência no teatro, seja como atriz, autora, diretora ou professora. 

Falando em TV, você estava na reprise de “A Força do Querer” com a personagem Rochelle. Como foi participar desse trabalho e que lembranças te traz? Foi um trabalho do qual me orgulho muito. Os temas abordados são muito relevantes e foram apresentados na novela de forma muito esclarecedora e necessária. Minha personagem, Rochelle, era o ouvido de Elis Miranda (personagem de Silvero Pereira). Era para Rochelle que Elis contava seus dramas, sua luta e seus sonhos. Rochelle era uma amiga leal que torcia e vibrava por Elis. Através dos diálogos dessas duas amigas, Gloria Perez encontrou uma forma quase didática de explicar ao público de casa as questões que envolvem a vida real de um travesti. O público enxergava os personagens, não como estereótipos, mas como gente como a gente, que ama, sofre e sonha. Foi lindo. 

Ainda sobre seus destaques na TV difícil não lembra da noiva de Patrick no “Zorra Total”, fazendo dupla com Rodrigo Fagundes. Parecia que a sintonia entre vocês era ótima. Foi difícil largar esse personagem? Legal você falar da nossa sintonia porque eu e o Rodrigo Fagundes somos grandes amigos fora da tv. Moramos perto um do outro e temos a mesma turma de amigos. Estamos sempre juntos e eu adoro muito ele! Quanto aos personagens, acho que eles aconteceram e brilharam na hora certa e nós nos divertimos muito. Mas somos inquietos e queremos fazer coisas novas. Isso é natural na vida de qualquer ator. A gente se apega aos personagens, mas depois eles saem de cena para nos dar a chance de criar outros. São ciclos que naturalmente se renovam. 

Alguma situação engraçada que você guarda dessa época? Como Abadia, no “Zorra Total”, o que eu mais gostava era a especulação por conta das minhas tranças! Todo mundo queria saber se era eu mesma quem rodava as tranças ou se havia algum efeito especial. Falavam de tudo! Que era fio de nylon, arame, motorzinho…(risos). Certa vez uma mulher veio toda feliz me falar que descobriu que eu tinha um botãozinho no quadril onde eu apertava pra fazer as tranças girarem! Eram muitas teorias! Eu adorava o frisson que causava! Sendo que na verdade era pura habilidade minha! Eu já fazia esse personagem no teatro e desde lá já enlouquecia a plateia rodando as tranças ao vivo e sem nenhum efeito especial! 

E sair do humor e ir para trabalhos mais “sérios” requer muito esforço? Já passou por algum tipo de preconceito por isso? O drama acessa com facilidade o emocional do público. Traz alguma memória emotiva, alguma identificação, mexe nos medos e inseguranças que todo mundo tem. Está tudo lá. Mas o humor encontra uma resistência maior. Nem todo mundo está predisposto ao riso. Muitas vezes para fazer rir é preciso desarmar a pessoa. E isso não é tarefa fácil. Como fui aceita pelo público fazendo humor, não foi difícil atravessar essa “ponte”. Pelo contrário, senti o público vibrando ao me ver interpretar uma vilã. Foi uma resposta maravilhosa. 

Mais do que nunca é difícil se manter nessa profissão? Eu costumo dizer que talvez seja uma das profissões em que mais se ouve “não”. São muitos testes e o tempo inteiro estamos sendo colocados à prova. Quando pegamos um trabalho, meses depois ele acaba e lá estamos nós de novo em busca de novos projetos. Podemos fazer um grande espetáculo ou uma novela de sucesso, que ainda assim eles vão chegar ao fim. Isso é inerente à profissão e temos que saber lidar com isso. Às vezes estamos em evidência, em outros momentos estamos fora dos holofotes, criando, desenvolvendo projetos e isso não significa que não estamos trabalhando. Mas somos cobrados por estarmos fora de cena. Faz parte. Nada que não se resolva quando a gente estreia um novo trabalho e recebe o aplauso caloroso e o reconhecimento do público. Nessa hora a gente pensa que tudo valeu a pena. 

Como é seu processo para criação de um personagem? E para se desfazer dele, é algo natural ou leva um tempo? Sempre gostei muito da composição de personagens e a comédia me proporcionou muito isso. Pesquisar, desenvolver o andar, os trejeitos, a voz, o figurino, cada característica física e psicológica de um personagem, sempre foi um processo que me atraiu muito.

É preciso muito estudo e entendimento do personagem para que se possa defendê-lo em cena. Cada personagem me desafia de uma maneira e me exige algo novo. Quando o trabalho termina eu sinto saudade de cada personagem como se fosse um grande amigo que não vejo há tempos. 

Onde busca inspiração? Muitas coisas me inspiram. Minha família me inspira, meu namorado, meus amigos. Pessoas disciplinadas e trabalhadoras me inspiram. Gosto das histórias de superação e das conquistas improváveis. Uma frase que amo é: “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.” (Jean Cocteau) 

O que é humor para você? E o que é piada? Além de atriz, eu sou humorista. Crio, escrevo e interpreto personagens de humor. Mas não sei contar piada. Essa é outra arte. Se me contam uma piada maravilhosa eu morro de rir mas logo esqueço. Não lembro de contar depois. Sou péssima pra isso. Acho que são vertentes diferentes da comédia. 

Fora atuar, o que te dá prazer como atividade, trabalho? Além do trabalho de atriz tenho investido muito nas artes plásticas. Sempre gostei de pintar, mas só a partir de 2019 passei a encarar isso de maneira profissional. Estou muito feliz conciliando as duas atividades. Pretendo manter essa dobradinha na minha carreira artística. 

Para conquistar Dig basta… Lealdade, respeito ao próximo, bom humor, amor pelos bichos e pela família, e me paparicar bastante! (Risos)

Você sempre passou a ideia de bom humor e alto astral. É isso mesmo? Sou muito alegre por natureza. Amo a vida e vivo intensamente. Tenho uma família maravilhosa e amigos queridos. Trabalho com o que gosto, tenho um namorado incrível e me sinto muito amada. Sou grata pela vida que tenho e sei dar valor às pequenas coisas. Na minha opinião, as coisas simples da vida são as mais valiosas. Tenho um olhar generoso e otimista pra vida. E dou muita, muita risada. Esse é o segredo da felicidade. Riso fácil transforma o mundo! 

E o que te tira o humor? Atualmente, o que me entristece é a pandemia e suas consequências. Por isso mesmo, gosto de postar sorrisos, propagar alegria e contaminar as pessoas com arte. Essa é a minha função. 

O que espera (ou planeja) para esse ano? Eu quero, mais do que tudo, que essa pandemia acabe. Que a gente possa voltar aos palcos, aos encontros presenciais, aos abraços. Tendo essa possibilidade de novo, aí teremos peças de teatro, gravações, exposições, shows e toda a sorte de aglomerações artísticas que quisermos criar. Vai ser inspirador e libertador! Não vejo a hora! 

Fotos Marcio Farias

Assist de foto Humberto Felga

Beauty Diego Nardes

Hairstylist Lucas Souza

Stylist Vanessa Marques

Agradecimentos: Hotel Mar Palace e Hotel Arena Copacabana Dig veste Lybethras