Engajada, alto astral, talentosa e divertida, essa é Roberta Rodrigues que está de volta (à nossa capa e à TV) ainda melhor. Um furacão de mulher, linda, empoderada e segura do seu papel como artista e cidadã. Nascida e criada no Vidigal, muito cedo Roberta passou pelo projeto “Nós do Morro”, que foi sua grande escola e fez a diferença na sua trajetória. Atualmente na novela “Nos Tempos do Imperador”, interpretando a esperta Lupita, Roberta conversou com a MENSCH sobre suas lutas, desejos e realizações. Um papo alto astral para combinar com esse ensaio bem no clima do samba carioca. Como não amar?!

Roberta, de onde vem esse alto astral e esse jeito descontraído e divertido que lhe são peculiares? Vem da gratidão que eu tenho pela vida, pela minha família e por meu trabalho. 

O que te coloca um sorriso no rosto? O que coloca um sorriso no meu rosto é a minha realização profissional. Ver de onde eu vim, com as oportunidades escassas que tínhamos, além das dificuldades, e ver onde cheguei hoje, tudo o que conquistei. Minha felicidade é chegar em casa e ver minha filha feliz, sabendo que estou criando a possibilidade de um futuro melhor para ela. 

E o que te tira esse sorriso? O que tira o meu sorriso é ver que apesar de toda a evolução que estamos vivendo, ainda existe muito preconceito na sociedade. O racismo, a falta de oportunidade para os negros, essa segregação que ainda vivemos. A desigualdade social. 

Curioso que você já interpretou muitas personagens brabas e temperamentais. Como é viver esse lado que parece não ter muito de você? Eu amo a arte e amo interpretar. Estou sempre buscando em mim novos caminhos para interpretar meus personagens. Gosto de viver outras vidas. E sempre procuro incluir nos meus personagens algo que possa agregar à sociedade de alguma forma. E como atriz eu quero mesmo esse desafio, quero poder viver personagens que nunca vivi antes.

Atualmente interpretando Lupita / Isaura em Nos Tempos do Imperador, como foi o processo de criação da personagem? Que novos desafios ela tem trazido? Eu estudei bastante para fazer a personagem, mas também busco, muito, seguir tudo o que está escrito no meu roteiro, sempre. Todo o sucesso da Lupita, vem do autor da novela, que está se dedicando bastante, escrevendo essa personagem, que é uma mulher bonita e sensual que sonha com sua liberdade. Ela é uma escrava que pensa à frente, uma empreendedora que quer ser liberta, quer ser alguém na vida. Ela cresceu e foi criada junto com o ‘sinhozinho’ e é usada por ele como informante. Se comporta, ali, de uma forma duvidosa, meio que com duas personalidades, conforme é conveniente para ela. Não sei se eu a colocaria como uma vilã, exatamente, mas é um personagem que ainda vai surpreender bastante dentro da trama. E interpretá-la, ao mesmo tempo que é desafiador é também emocionante, no sentido de que te aciona muitos gatilhos. Viver cenas que envolvem toda a luta de negros escravizados e não imaginar que um ancestral nosso tinha isso como rotina, é quase que impossível. E isso reforça ainda mais minha vontade e necessidade de mobilizar meus irmãos para lutar por mudanças hoje. 

Você tem um pouco de Lupita ou ela de você? Como se vê nela? A Lupita se refaz o tempo inteiro. Ela é um pouco trambiqueira, o que não tem nada a ver comigo, ela está sempre se virando, vendendo cocada, correndo atrás, e buscando a alforria dela – a independência dela como mulher.  

Depois da densa Marina de Sob Pressão, veio a Lupita. Como é mudar de drama em pouco tempo? Aliás, você teve alguma pausa de uma pra outra? No SOB PRESSÃO eu me emocionei bastante, porque era, e ainda é, um momento ainda muito trágico do mundo inteiro em relação a essa doença. Então, poder de alguma forma ajudar as pessoas dando essa informação, foi muito satisfatório para mim. Já a Lupita, é uma personagem mais leve, apesar de todas as lutas que representa, e eu prometi que, com ela, eu iria me divertir. Não teria tanta pressão, como a personagem de Sob Pressão. A Lupita é mulher descolada que quer aproveitar a vida, sempre tirando vantagens das situações. Eu me descontruí bastante, para sair de um personagem para o outro. 

Você nasceu, se criou, e sempre morou no Vidigal até hoje. Você vê mudanças ou novas possibilidades surgindo hoje, comparado com seu início como adolescente? As coisas mudaram pra melhor? Ter nascido no Vidigal foi um privilégio. É um lugar maravilhoso com pessoas incríveis e me tornei o que sou, graças a eles. Sinto que tenho uma responsabilidade de cuidar da minha comunidade, mas isso não é um peso, na verdade faço com todo amor do mundo. É um lugar que eu quero ver florescer. Não moro mais lá, mas ali é a minha origem. Infelizmente, existe muito descuido com aquele lugar e as pessoas que ali moram. Eu me mudei do Vidigal ainda na minha gravidez. Fui obrigada, o morro estava já superlotado, e não achava nada para comprar lá. Por isso, precisei sair para construir minha família e ter meu espaço. Mas o Vidigal continua morando em mim. Seja pela pessoas que eu amo e ainda moram lá, ou pelo Vidigal Social. E eu me envolvo mesmo, quero muito poder ajudar sempre minha comunidade, porque nem eu tinha consciência que o Vidigal tinha tanta gente necessitada. Isso é muito louco, porque vamos vivendo sem perceber o que há nas entrelinhas.

E por isso, projetos são importantes para dar oportunidade, seja para a criança estudar de forma adequada ou ter um respiro financeiro frente à crise. Nós conseguimos deixar o lúdico na cabeça das crianças, por exemplo, porque é importante sonhar. Ajudamos a educar as pessoas e transformar a vida de cada um. Mobilizamos a ajuda ao próximo. É gente ajudando gente. No Vidigal Social, a gente atende algumas crianças, é o que eu acredito –  acredito na educação. Eu preciso que as pessoas entendam isso, que a educação é a única coisa que nós temos, com o que a gente vai conseguir transformar a realidade de verdade. A gente precisa se apegar a isso. A gente precisa acreditar nessa transformação. A gente precisa fazer essa transformação. 

E como anda o Nós do Morro hoje em dia? Como o projeto tem evoluído? Eu tinha 16 anos, e foi ali, nesse grupo, onde eu me encontrei, onde eu me achei e falei “caramba, é isso que eu amo, é isso que eu quero fazer”. Sabe quando a gente fica procurando na vida, um lugar para dizer que é seu? Aqui dentro a gente não se olha pela cor de nossa pele, não compara quem tem a casa com mais azulejo ou móveis. A gente se olha através da alma, a gente se olha no olho mesmo. Eu fico emocionada porque, pra mim, é algo muito gigantesco. Foi onde eu encontrei pessoas, descobri quem eu era. O Nós do Morro nos permitiu sonhar, entender que a gente tinha um espaço, que a gente podia ser quem quisesse. A gente não foi educado para ser famoso. Não teve nada disso. A gente foi para lá para aprender o ofício da arte, tanto que o nosso lema é o coletivo. O Nós do Morro é um espaço agregador que chegou a ter 500 pessoas, entre alunos, professores e técnicos, e agora tem apenas 50, com a pandemia e sem patrocínio. É um projeto que não gera renda própria. A gente depende das doações, tanto das pessoas quanto do governo e das empresas

Com a pandemia tudo piorou (pelo menos para grande parte das pessoas), e como movimentos solidários foram se mantendo para dar um certo suporte aos mais carentes? Estamos vivendo momentos difíceis, inclusive eu estou em quarentena por conta do CORONA vírus. Logo que soube da existência desse vírus e toda a potência em que ele nos afetava, busquei logo mobilizar pessoas que pudessem me ajudar com arrecadações para ajudar outras pessoas que estavam precisando. A fome, o desemprego e a desigualdade sempre existiram, mas aumentaram muito com essa pandemia e toda a crise financeira que ela trouxe. Acho que esse é um momento em que aprendemos, mais do que nunca, o quanto é importante nos unirmos a favor do próximo. Essa é forma de ajudar o meu povo, eu vou sempre fazer tudo o que posso e estiver ao meu alcance para vê-los bem. 

Percebemos ao longo de sua carreira, com personagens fortes, que você foi ficando cada vez mais engajada em questões sociais. Acha que sim, é preciso usar sua visibilidade para dar voz a essas questões? É muito necessário, e hoje, esse é o meu papel na sociedade. Por muito tempo me culpei pelo meu lugar de privilégio, mas hoje entendo que é através da visibilidade que conquistei que vou poder ajudar mais o meu Vidigal e outras comunidades e pessoas que precisam também. Seja com ações diretas, ou pelo menos inspirando o meu público, e outros artistas a também ajudarem. Porque se cada um fizer um pouquinho, já ajuda muito. O pouco se torna muito, quando temos mais pessoas caminhando e trabalhando no mesmo propósito. Então, hoje, eu Roberta, quero sim usar a minha visibilidade para chamar atenção para esses projetos sociais, que precisam deixar de ser ignorados pela grande maioria da sociedade. 

Falar em preconceito racial, desigualdade social, inclusão… são temas cada vez mais necessários e primordiais para que as pessoas comecem a mudar. Como isso já te tocou e qual é sua luta? Hoje, com todas essas bandeiras, as pessoas estão mais conscientes sobre o que é o preconceito, mas ainda é uma coisa muito enraizada. Eu já sofri preconceito. A gente sofre todos os dias, né? Dependendo do lugar que você está no dia, isso é muito corriqueiro. Realmente, nas redes sociais acontece muito, eu fico muito assustada. Ainda mais depois que eu tive filho, mesmo estando no século 21. Todos têm acesso às redes sociais, independentemente da classe social. E mesmo assim, com tanta evolução, a gente acaba andando pra trás, isso me preocupa muito. Eu sempre corro atrás de meus direitos, eu sempre vou batalhar por isso, levantar essa bandeira por que só sabe as dores do preconceito racial, quem vive, quem passa por elas. Eu estou nessa luta desde os meus antepassados. Então, é uma luta muito longa e eu não quero mais que seja. Minha luta vem mudando! Hoje em dia eu quero protagonismo negro, quero protagonista em tudo. E sempre que alguém me agredir, eu vou sim, atrás de meus direitos, vou à delegacia sim. Eu não aguento mais isso, é inadmissível, já estou cansada disso!

Enfrentar a Covid-19 na ficção, em Sob Pressão, e na vida real são pesos diferentes, mas que mexem de todo jeito. O que ficou disso? Quais as lições? Não tem como não mexer… porque essa é uma doença cruel, em todos os aspectos. Além do físico, ela afeta também o emocional, porque é uma doença que te deixa sozinho. E que apesar da vacina e dos muitos estudos que vêm sendo realizados, ainda é muito desconhecida para todos nós. Então isso assusta. No início, eu tive medo de sair de casa. Entrei em pânico, tive crise de ansiedade de sair de casa e voltar para o meu marido e a minha filha. Foi um longo processo até superar tudo isso e voltar a trabalhar. E a lição que fica sempre é a do cuidado que precisamos ter com a gente e com todos que amamos. Apesar de tudo estar voltando, a Covid-19 ainda está aí e não deixou de ser cruel. Ela não escolhe gênero, classe social, ou etnia. Então, se vacinem, usem máscara, álcool em gel, evitem aglomerações, se cuidem de verdade e mandem muita energia positiva para mim e toda a minha família.  

Diante de momentos tensos, como tudo que temos vivido nesses últimos meses, como manter a cabeça em ordem, leve e positiva? Onde recarrega suas energias? Eu encontrei refúgio e coragem na minha espiritualidade. É isso que temos para nos segurar. 

Você parece ser sempre muito ativa. O que faz para manter o corpo em ordem? Sobre essa coisa de cuidar do corpo e da beleza, eu confesso que sou bem relaxada. Mas quando eu foco, eu foco mesmo. E estou nesse momento bastante focada e cuidando mais de mim. Já perdi cerca de 13Kg, estou com 67,6 Kg, e estou muito feliz, mas tudo isso com acompanhamento médico, é claro. Sempre que posso vou à academia. Dessa vez, estou me cuidando com uma endocrinologista maravilhosa, para manter a forma sem perder a saúde. E tenho costume de beber muita água. Acho que água é vida, acho não, tenho certeza! E tento cuidar da alimentação, sempre. Mas quase sempre não consigo ter tempo para fazer muita coisa, porque estou sempre dividindo o meu tempo entre a maternidade e a vida profissional. 

Momentos em casa pedem livros, músicas e filmes/séries. O que tem lido, ouvido e assistido que serve de dica para a galera? Estou lendo muitas coisas sobre a história do Brasil e sobre o empoderamento negro, para poder contribuir com a minha personagem, Lupita. 

No meio disso tudo, qual seu maior pecado? Não resiste a que? Meu maior pecado acho que é o da gula. Eu gosto muito de comer, e sempre que estou num momento mais instável da minha vida, acabo não conseguindo resistir muito às gostosuras como chocolate e outras comidas gostosas. Aí não tem dieta que sobreviva. 

O que essa melanina carioca tem pra mostrar ainda? Para onde vai Roberta? Eu não tenho limites. Tenho asas e quero voar. Aproveitar todas as oportunidades que possam vir… quero ir mais longe. Tenho muitos sonhos ainda para realizar e tem muita coisa boa para acontecer. Algumas séries, projetos de filmes e aos poucos vou revelando tudo.

Foto Márcio Farias 

Beleza Michel Sampaio 

Styling Paulo Zelenka 

Asst de Produção Ester Modesto 

Asst de fotografia Douglas Jacó 

Vídeo Vegalsfilms 

Assessoria AF produções

Retouce Pedro Fonseca

Agradecimento Hotel le Chateaux Lapa @lechateaulapa

Roberta veste Look 1: vestido amarelo Camila Dzorzi, sandália Morena Rosa; Look 2: vestido vermelho Bambu, sandália Cecconello; Look 3: vestido vermelho e azul Maria Valentina, sandália acervo

Assista Making Of: