
Com mais de três décadas dedicadas à arte, Vanessa Gerbelli construiu uma trajetória marcada pela intensidade, versatilidade e, sobretudo, pela busca por personagens capazes de provocar alguma transformação. Da televisão ao cinema, passando pelo teatro e pelo musical, a atriz fez da sensibilidade uma das marcas de seu trabalho, mergulhando nas contradições, fragilidades e forças de mulheres que permaneceram na memória do público.
Mas sua inquietação criativa não se limita à interpretação. Vanessa também encontra na pintura e na escrita outras formas de traduzir aquilo que observa e sente diante do mundo. Para ela, criar nunca foi apenas uma questão estética: é reflexão, questionamento e movimento. Essa mesma necessidade de expressão aparece agora também no desejo de produzir seus próprios projetos e ampliar sua relação com o teatro.
Em cartaz com o musical Forever Young, espetáculo que aborda o envelhecimento com humor, sensibilidade e clássicos do rock, Vanessa vive um momento em que experiência e novos caminhos parecem caminhar lado a lado. Nesta conversa com a MENSCH, ela fala sobre os mais de 30 anos de carreira, o feminino presente em suas personagens e pinturas, maternidade, escolhas profissionais, vulnerabilidade, os desafios de produzir teatro no Brasil e aquilo que ainda deseja realizar. Uma conversa sobre arte, amadurecimento e, principalmente, sobre permanecer aberta ao que ainda pode transformar.


Depois de mais de três décadas de carreira, você continua encontrando novos caminhos para se expressar artisticamente. O que ainda desperta sua curiosidade e faz você aceitar um novo desafio? Três décadas, parece mentira! Acredito que costumo escolher os projetos pelos afetos. Temas que me tocam, personagens que me tocam, dramas ou comédias que despertem em mim um desejo de expandir o assunto, promover discussão, causar comoção. Tocando a mim, vou conseguir ser um veículo para que toque os outros. Arte serve para movimentar o interior da gente. O movimento traz crescimento para a gente. Amadurecimento. Vamos crescendo juntos.
Ao longo da sua trajetória, você construiu personagens que permanecem vivos na memória do público, como Lindinha e Fernanda. Como é olhar para essas mulheres hoje e perceber o impacto que elas ainda têm? Fico muito honrada com isso. Sempre tentei aprofundar ao máximo a humanidade das personagens que fiz. Sempre quero que elas tenham camadas com as quais as pessoas se identifiquem, se reconheçam e se questionem. Também tento colocar sempre algum humor e ternura em tudo que faço.
Sua carreira reúne televisão, cinema, teatro, musicais e agora uma exposição de artes plásticas. Existe um ponto em comum que conecta todas essas formas de expressão para você? Acho que o que conecta todas elas é o feminino que tenho em mim. O feminino que herdei, o feminino com o qual convivi. O feminino que aprendi. As dores, as belezas, as injustiças, os equívocos… o desejo de mudança, o anseio pelo equilíbrio e por ser ouvida.


A exposição “Aparências, nada mais?” propõe uma reflexão sobre memória, identidade feminina e os bastidores da fama. Em que momento surgiu a necessidade de transformar essas inquietações em pinturas? Meu temperamento como pintora nunca foi o de produzir beleza em primeiro lugar. Sempre partia de um impulso apaixonado… Por perceber algo no mundo ou nas pessoas que me deixava perplexa ou profundamente tocada. Sempre teve uma orientação que partia de um pensamento, de uma reflexão. Nunca foi puramente estético. A estética sempre serviu a um desejo de transformar o mundo que eu via.
Você sempre foi reconhecida pela intensidade das interpretações. Nas artes plásticas, sente a mesma liberdade criativa ou a pintura revela uma Vannessa diferente daquela que vemos em cena? Acredito que a pintura também tenha a “cara“ da atriz… sempre me enxerguei ora muito forte, ora muito frágil. Oscilando entre expansão e recolhimento. Acredito que as interpretações e as pinturas também tragam isso.
O musical Forever Young retorna aos palcos celebrando uma década de sucesso. O que faz esse espetáculo continuar tão atual e emocionante para artistas e público? É um conjunto atraente: falamos de um tema universal, que é envelhecer, se aproximar do fim… e falamos com imenso bom – humor e sensibilidade. Cantamos clássicos do rock que as pessoas amam e sentem saudade, temos performances que cativam, muita comédia, leveza… acho que é uma delícia de se ver e rever. O público costuma ver mais de uma vez a peça.


Além de atuar, você está produzindo um novo musical inspirado em Fellini, com canções inéditas de Zeca Baleiro. Como tem sido viver também o papel de criadora e produtora de um projeto tão pessoal? A criação é muito prazerosa e natural, ao mesmo tempo que um mistério, em termos de execução. Mistério porque os incentivos em editais ou patrocínios seguem critérios que desconheço para se premiar esta ou aquela obra. Venho tentando abrir esse caminho de me autoproduzir e perceber o espaço que posso ocupar. Sei que tenho um belíssimo espetáculo para entregar, inspirado num filme monumental do Fellini, com canções originais lindas do Zeca Baleiro, falando de um tema atual, que é a submissão feminina. Espero conseguir botar meu bloco na rua, pela segunda vez, com um texto meu. Zeca me propôs produzirmos juntos, sem incentivos de fora, mas neste momento, não consigo.
Em um mercado que frequentemente valoriza a imagem e a velocidade das redes sociais, como você preserva sua identidade artística e escolhe projetos que realmente dialogam com quem você é? Eu acredito que tudo que vem ao nosso encontro nos diz respeito. Mesmo quando chega uma proposta esdrúxula de trabalho, ela está servindo para que você perceba algo, mesmo que seja perceber seu limite e se discriminar daquilo. Sempre tive um olhar muito inclusivo para tudo que chegou para mim, mas acabo excluindo tudo que não me dá entusiasmo, alegria. Posso até tentar me encaixar em algum trabalho por acreditar que possa ser bom… mas se não houver satisfação, eu não consigo me manter ali.


A maternidade transformou sua maneira de enxergar a vida e a profissão? Que aprendizados seu filho Tito trouxe para a mulher e para a artista que você se tornou? A maternidade faz a gente deixar de se sentir a protagonista da própria vida. Outra pessoa ocupa aquele lugar e isso é muito enriquecedor. A gente se torna mais humana, mais empática, lida melhor com os erros e fracassos, além de sentir amor o tempo inteiro. Eu me tornei uma pessoa menos ansiosa em relação à minha profissão, mais autossuficiente como mulher. Não é um caminho previsível o de ser mãe, mas é de muito amadurecimento e expansão.
Você transmite a impressão de estar vivendo um momento de grande liberdade criativa, explorando diferentes linguagens sem se limitar a uma única área. O que ainda falta realizar e qual legado gostaria de construir através da arte? Eu ainda quero poder produzir mais textos e montá-los, o teatro no Brasil ainda pode ter muito mais público. Em Londres, as pessoas vão mais aos teatros que aos jogos de futebol, olha que maravilha. Desejo fazer as pessoas se apaixonarem por assistir gente viva sobre um palco, nesse momento de tanta virtualidade.
Vanessa onde você recarrega suas energias? O que te inspira? Recarrego na yoga, na reza, na música, na beleza das coisas, das pessoas. Numa boa conversa, sem reclamação nem julgamento. Recarrego com meu filho, meus cachorros, meu namorado. Um belo filme, um belo livro.
Por fim, o que te conquista? Bom-humor, inteligência e profundidade sempre me conquistam. Acho lindo quem não tem medo de expor sua vulnerabilidade, também. Gosto de sentir que estou perto de gente de verdade, não de pessoa- jurídica, sabe?


Fotos e beleza Pino Gomes
Styling Samantha Szczerb
Agradecimetos Nayane, Pathy, Gutê, Inti


