
Por Ivan Reis
Giorgio Armani é um dos nomes que escreveram capítulos marcantes na história da moda e da indústria criativa. Aos 91 anos, o estilista morreu em Milão da forma como sempre viveu: cercado de ideias e criações concebidas por sua mente que trabalhou décadas a fio. “Com infinita tristeza, o grupo Armani anuncia o falecimento de seu criador, fundador e incansável impulsionador: Giorgio Armani. O Sr. Armani, como sempre foi chamado com respeito e admiração por funcionários e colaboradores, faleceu serenamente, cercado por seus entes queridos. Incansável, trabalhou até os últimos dias, dedicando-se à empresa, às coleções, aos diversos e sempre novos projetos em andamento e em desenvolvimento”, afirmou a nota oficial da empresa. Ao longo de sua trajetória, Armani revolucionou o traje formal no que tem de mais essencial – o poder da alfaiataria confeccionada com rigor técnico para o cotidiano. O resultado é um estilo elegante, sofisticado e, acima de tudo, atemporal. Com este espírito, retomamos a vida e o legado do designer que construiu um império na indústria criativa e criou um verdadeiro lifestyle.
A COSTURA DO IMPROVÁVEL
Nascido em 1934 na comuna de Piacenza, no norte da Itália, Giorgio Armani sempre esteve nos arredores de Milão, onde abriria a sua primeira loja anos mais tarde. Em 1953, começou a estudar Medicina, mas abandonou os estudos para ingressar no exército italiano.
Em uma virada de chave de sua vida, foi contratado como vitrinista na renomada loja de departamentos La Rinascente. Em meados dos anos da década de 1960, teve a oportunidade de trabalhar para o fabricante italiano Nino Cerruti. Sob os olhos do criativo, vivenciou o cotidiano da confecção de roupas. No novo emprego – embrião dos conhecimentos que levou para a vida -, ficou familiarizado com as características de tecidos, cortes e todos os detalhes do fazer artesanal aplicado às roupas. A qualidade e os detalhes beiravam à perfeição pela excelência. Com o olhar apurado pelos anos de experiência, candidatou-se para trabalhos com nomes italianos de peso, como Zegna e Valentino. A época ficou marcada pelo trabalho com os alfaiates que lançaram as bases da alfaiataria italiana reconhecida pelo rigor técnico de sua construção e atenção extrema aos detalhes.


SIGNORE ARMANI
“Comecei nesse ofício quase por acaso e, aos poucos, ele foi me atraindo, roubando completamente minha vida”, declarou Giorgio Armani ao portal Business of Fashion em 2015. Em se tratando de talento, o designer não demorou para iniciar a construção do que seria, décadas depois, um verdadeiro império. O italiano criou a sua própria casa em 1975 e, desde então, passou a desafiar as regras do mercado. Era o começo de uma era que mostraria o talento e a perspicácia de Giorgio Armani na indústria criativa.
Em um tempo marcado pelo exagero e pelo exibicionismo de cortes e proporções, Armani ofereceu silhuetas longilíneas, tecidos leves, cores neutras e linhas que dessem liberdade de movimento ao corpo. Um dos grandes trunfos de Armani foi a reinvenção da jaqueta. Remodelando a peça, o estilista torceu, amassou, retirou o enchimento e ajustou as proporções. Na época, o novo modelo se tornou revolucionário ao ser flexível como um cardigã de lã e leve como uma camisa. “Removendo toda a rigidez da roupa e descobrindo uma naturalidade inesperada”, disse ele em entrevista anos depois. “Esse foi o ponto de partida para tudo o que veio depois”, completou o estilista sobre a sua assinatura – uma junção de elegância e durabilidade no guarda-roupa.
ARMANI EM HOLLYWOOD
Nos anos da década de 1980, o Power Dressing, tendência dos escritórios e ambientes de trabalho, ganha repercussão com o estilo de Giorgio Armani. De terno, gravata e muita sobriedade, o estilista italiano marcou o imaginário de uma geração com parcerias com celebridades do cinema.

O ator Richard Gere foi o primeiro ator a ser vestido por Armani nos estúdios de Hollywood. Para a caracterização de seu personagem em Gigolô Americano (American Gigolo, 1980), o designer não poupou esforços para vestir o personagem Julian, um acompanhante de luxo, com peças da etiqueta italiana. O sucesso rendeu uma nova parceria para o filme Desejos (Final Analysis, 1992).
Kevin Costner, Robert De Niro e Sean Connery vestiram o figurino assinado por Giorgio Armani para Os Intocáveis (The Untouchables, 1987). O criativo se valeu da atmosfera de Chicago nos anos de 1930 para usar casacos amplos, chapéus, cintos e toda a sorte de acessórios e peças em tons terrosos. Retomando a parceria com Costner, Armani vestiu o personagem icônico do ator americano em O Guarda-Costas (The Bodyguard, 1992), filme que marcou uma geração. Brad Pitt também foi caracterizado pelo estilista italiano em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), longa-metragem dirigido por Quentin Tarantino.



Christian Bale na pele de Bruce Wayne, ou melhor, Batman em O Cavaleiros das Trevas (The Dark Knight, 2008) já teve seu guarda-roupa reformulado pela etiqueta italiana no filme dirigido por Christopher Nolan. Leonardo DiCaprio vestiu Armani para reviver os anos da década de 1990, com fidelidade, em O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013).
FENÔMENO
Em suas entrevistas, Armani declarava que o objetivo de seu trabalho era procurar alguma forma das pessoas se sentirem bem consigo mesmas. Em seu ateliê e nas peças que criava, o designer não era adepto às linhas rígidas que definem os padrões da alta alfaiataria. Traduzir a essência para a liberdade do corpo é um dos pilares de sua marca homônima.
No início da década de 1990, o diretor Martin Scorsese dirigiu Made in Milan, documentário sobre o estilista italiano. “Essa é uma fraqueza minha que afeta tanto minha vida quanto meu trabalho: estou sempre pensando em acrescentar algo ou tirar algo. Na maioria das vezes, tirando algo”, revelou ele sobre sua estética despretensiosa e minimalista na produção audiovisual. “Não suporto exibicionismo”, completou o estilista ao revelar o seu princípio criativo caracterizado como simples, porém estratégico e com visão de mercado.
Em se tratando de posicionamento de marca, a elegância do estilista expandiu o seu raio de ação para outros campos da indústria criativa. Ao longo das cinco décadas da marca, foram produzidos ternos campeões de venda que se tornaram carro-chefe da etiqueta no mundo todo. Com o sucesso, o nome Giorgio Armani se tornou um conglomerado que produz para vários segmentos, incluindo alta costura, prêt-à-porter (pronto para usar nas passarelas e nas lojas), além de perfumes famosos e itens para casa e decoração. Com o faturamento astronômico e a consolidação no mercado, o “Re Giorgio” (Rei Giorgio, em português) se tornou símbolo de estilo italiano, sofisticado, detentor de uma estética comedida, porém conectada às necessidades do consumidor afeito à simplicidade e, sobretudo, à qualidade do produto final.

Giorgio Armani – tanto o homem quanto a marca – conseguiu aliar o rigor técnico na construção de seus itens à meticulosidade dos detalhes. O resultado não poderia ser melhor: moda, estilo e elegância intrinsecamente combinados no legado que se tornou um fenômeno global.


