LIFESTYLE: O TANGO COMO ESTILO DE VIDA

Por Márcia Dornelles

Com uma trajetória de mais de 25 anos juntos, como parceiros artísticos, Alice Vasques e André Carvalho compartilham suas experiências, a paixão pela dança que vai muito além dos passos, e os detalhes dessa data tão especial que será marcada por eventos exclusivos, aulas e workshops com mestres portenhos.

No cenário cultural do Rio de Janeiro, poucos espaços representam tão bem a alma e a profundidade do tango quanto a Casa do Tango, fundada por Alice Vasques e André Carvalho. Com mais de 25 anos de parceria artística, a dupla se tornou referência na difusão dessa dança que transcende os passos e se transforma em verdadeira linguagem da alma.

A história deles está entrelaçada à trajetória da Casa do Tango, que não é apenas uma escola, mas um ponto de encontro onde corpos, emoções e histórias se conectam. Junto a eles, os professores Elen Aguiar Chaves e Marcos Zelaya contribuem para enriquecer essa arte, trazendo diferentes olhares e técnicas que ampliam a experiência do tango, tornando-o um caminho de bem-estar, autoconhecimento e troca cultural.

Para compreender melhor a essência do tango e o impacto dessa dança tão singular, Alice e André concederam uma entrevista exclusiva para a MENSCH para celebrar, em grande estilo, o aniversário de 16 anos da Casa do Tango, espaço que eles fundaram e que hoje é referência no Rio de Janeiro para a dança e cultura do tango.

Na sua visão, o que torna o tango uma dança tão singular e fascinante? André: O Tango é singular porque não se limita a ser apenas uma sequência de passos. Ele é, sobretudo, uma conversa entre dois corpos em movimento. Uma escuta ativa que envolve presença, entrega e improviso. É uma dança que te obriga a sair da zona de conforto e mergulhar na relação com o outro, com o espaço e com o tempo. Existe uma poesia implícita no silêncio entre um passo e outro, uma tensão criativa entre intenção e realização. O Tango é uma metáfora física da vida: você nunca sabe exatamente o que vai acontecer no próximo compasso.

Como nasceu sua paixão pelo Tango? Alice: A dança sempre fez parte da minha vida. Durante anos, lecionei aulas de Jazz na escola da Carlota Portela, onde vivi intensamente o universo do movimento e da expressão corporal. Foi então que assisti ao filme Tango, de Carlos Saura — uma obra que me tocou profundamente. Naquele momento, compreendi que o Tango não era apenas uma dança, mas uma linguagem da alma. E era exatamente isso que eu queria viver, ensinar e compartilhar.

Decidi mergulhar nesse novo universo. Foi nesse caminho que conheci o André, que já dançava Tango com paixão e experiência. Começamos a treinar juntos, e pouco a pouco construímos uma conexão que ultrapassou os palcos. Vivemos uma parceria artística que já soma mais de 25 anos — marcada por cumplicidade, entrega e amor pela dança.

O Tango é muitas vezes associado à paixão e à melancolia. Como você define a essência dessa dança? André: A essência do Tango é a presença. Mais do que uma dança sobre tristeza ou paixão, o Tango é uma experiência de estar junto, de habitar o momento com intensidade. Ele carrega uma memória afetiva que atravessa gerações, por isso evoca melancolia. Mas também é profundamente vital. O abraço no Tango não é apenas um gesto coreográfico: é um espaço de encontro onde cada um oferece e recebe, no limite do que consegue se entregar. Não há como dançar Tango sem colocar algo verdadeiro de si.

Quais os benefícios do tango? Alice: O Tango vai muito além da dança. Ele transforma corpo, mente e alma.

– Melhora a postura e o equilíbrio – fortalece a musculatura e desenvolve a consciência corporal.

– Estimula a concentração e a memória – a conexão com o parceiro e a música exige presença, foco e agilidade mental.

– Reduz o estresse e a ansiedade – dançar libera endorfinas, proporcionando bem-estar e leveza.

– Fortalece laços sociais – promove novas amizades e conexões verdadeiras.

-É uma expressão de arte e emoção – cada passo é uma forma de contar uma história.

Alguma história marcante de superação ou transformação de um aluno que vocês gostariam de compartilhar? André: Ao longo desses anos, muitas histórias me marcaram, mas algumas têm um peso especial. Lembro de um aluno que chegou à Casa do Tango após um período difícil de depressão. A princípio, a ideia de dançar parecia para ele algo distante, quase impossível. Mas, pouco a pouco, o Tango foi abrindo espaços: primeiro no corpo, depois na alma. Hoje ele é um dos frequentadores mais assíduos das nossas milongas. O Tango não foi uma cura mágica, mas foi um caminho de resgate da presença e da relação com o outro.

Quando a escola Paulo Araújo encerrou suas atividades, como surgiu a Casa do Tango? Alice: Quando a escola do querido Paulo Araújo encerrou suas atividades, eu e André — que já trabalhávamos com ele — sentimos que era hora de dar um passo adiante e criar nosso próprio espaço. Nossa parceria já era bastante reconhecida, tanto pelas apresentações nos palcos e bailes quanto pela qualidade das aulas em grupo que ministrávamos.

Com muito trabalho, dedicação e paixão pelo Tango, fundamos a Casa do Tango. Aos poucos, ela foi conquistando seu espaço, reunindo uma comunidade vibrante e se tornando uma referência não apenas no Rio de Janeiro, mas também admirada por amantes do Tango ao redor do mundo.

Quais são os maiores desafios no ensino do Tango e quais as maiores recompensas? André: O maior desafio é ajudar o aluno a desconstruir a ansiedade por performance imediata. O Tango é uma construção lenta. Requer paciência, escuta e vulnerabilidade. Outro desafio é trabalhar com os medos: o medo do toque, o medo de errar, o medo do olhar do outro.

A recompensa? Ver os olhos de alguém brilharem depois de um bom baile. Ver dois corpos encontrando harmonia num simples caminhar. E, claro, acompanhar as pequenas transformações emocionais que a dança provoca. O Tango, quando bem vivido, não melhora só a dança: melhora o jeito de estar no mundo.

O Tango é uma dança acessível para todas as idades? Alice: Sim. Seja você jovem ou mais maduro, o Tango oferece benefícios únicos: melhora postura, equilíbrio, coordenação e promove bem-estar emocional. Não exige força física extrema nem habilidades acrobáticas — o mais importante é a escuta, a conexão e a sensibilidade. É comum ver pessoas de todas as idades compartilhando a pista, cada uma com sua elegância e estilo. Na Casa do Tango, temos alunos dos 18 aos 80 anos (ou mais!) dançando com prazer e desenvolvendo-se no seu próprio ritmo.

O Tango é considerado como a dança do abraço. No entanto, conectar os passos dentro do abraço pode se tornar um grande desafio para os dançarinos? André: Sem dúvida. Conectar os passos dentro do abraço exige mais do que técnica: exige entrega e confiança. O abraço é uma estrutura de contenção emocional e física. É no abraço que os diálogos acontecem. A dificuldade está em sustentar a atenção no outro enquanto gerencia os próprios movimentos. Mas quando acontece… é como um texto bem escrito, uma conversa onde os silêncios falam tanto quanto as palavras.

Se você tem curiosidade ou vontade de aprender Tango, o que pode encontrar na Casa do Tango? Alice: Na Casa do Tango, oferecemos um ambiente acolhedor para quem deseja se conectar com essa arte apaixonante. Além das aulas, realizamos práticas e bailes abertos ao público, voltados para todos que amam o Tango — seja pela dança, pela música ou pela atmosfera única que ele proporciona.

O que torna o Tango uma dança tão apaixonada e emocional? André: É a combinação de pausa e tensão, presença e ausência. O Tango trabalha com o que é dito e com o que fica por dizer. É uma dança que permite vulnerabilidade, onde a emoção não é um acessório, mas o próprio motor do movimento. A paixão no Tango não é só romântica: é existencial.

O tango, como revelam Alice e André, é uma arte que vai além da técnica e dos passos, envolvendo corpo, mente e espírito. Essa experiência se enriquece ainda mais com os olhares e práticas dos professores Elen Aguiar Chaves e Marcos Zelaya, que somam conhecimentos que aproximam o tango do bem-estar integral.

Elen Aguiar Chaves — formada em Educação Física, com mestrado e doutorado em fisiologia, traz para suas aulas influências da medicina chinesa, yoga e biomecânica.

“O maior desafio para mim é aprender a como ajudar os meus alunos tendo em vista a múltipla gama de dificuldades corporais e psicológicas que eles apresentam e que são refletidas tanto no aprendizado quanto no dançar. A maior recompensa é quando vemos que um aluno é capaz de se mover de forma mais harmônica, de respirar e aprimorar percepções corporais que antes não eram desenvolvidas.”

Marcos Zelaya — nascido em Bahía Blanca, Buenos Aires, e hoje vivendo no Rio de Janeiro, ressalta a riqueza da troca cultural no ensino do tango.

“Cada cultura carrega em seu corpo uma linguagem própria, uma maneira distinta de sentir, expressar e se mover. Essa troca cultural me faz aprender constantemente, desde nuances linguísticas até novas formas de interpretar a conexão no abraço. O tango, por sua natureza, se adapta a cada cultura e, ao mesmo tempo, transforma quem o dança. Essa versatilidade é o que o torna uma dança profunda e alquímica.”

Para concluir essa entrevista cheia de arte, emoção, encontros e abraços, fica o convite:

A Casa do Tango se reafirma como um espaço de encontro, aprendizado e transformação — um lugar onde o abraço é mais que um passo de dança: é um gesto que conecta almas. Para saber mais sobre eventos, aulas e milongas, acompanhe pelo Instagram @casadotango.