PERFIL: RAFAEL FIGUEIREDO: TECNOLOGIA COM PROPÓSITO

EM ASCENSÃO METEÓRICA, O EMPRESÁRIO CEARENSE MOSTRA QUE A INOVAÇÃO NÃO TEM FRONTEIRAS AO EXPANDIR AS OPERAÇÕES DA TECLA T, EMPRESA DE TECNOLOGIA COM DNA NORDESTINO.

Por Isabelle Barros / Fotos Rafael Yaguiu

Se dependesse dos pais de Rafael Figueiredo, fundador e CEO da empresa de tecnologia Tecla T, sua vida seguiria um roteiro mais previsível. Prestar um concurso público e conseguir estabilidade no emprego parecia uma continuação lógica do caminho percorrido pela família, composta por pai professor e mãe enfermeira, ambos servidores da rede pública de Fortaleza. No entanto, desde muito cedo, o cearense mostrou disposição para empreender. A aposta se revelou certeira. Aos 31 anos, Figueiredo comanda um negócio com escritórios no Ceará e em São Paulo, tendo cerca de 50 empresas como clientes e mais de 600 colaboradores, com foco na terceirização de profissionais para oferecer soluções personalizadas.

Rafael não se queixa da vida que teve quando era criança e adolescente, mas percebeu que queria um caminho diferente. Para ter o próprio dinheiro, começou a dar aulas particulares aos 15 anos de idade e logo montou estratégias para maximizar os lucros. “Na época eu já estava namorando minha atual esposa e não queria pedir dinheiro aos meus pais para sair com ela. Então, comecei a dar aulas de matemática, física e inglês. Percebi que, se eu fizesse meu trabalho bem-feito, só teria uma fonte de renda por oito meses do ano, pois as crianças seriam aprovadas na escola e não precisariam mais dos meus serviços. Nas férias escolares, passei a dar aulas de violão e de informática para idosos – então, eu tinha receita o ano inteiro”.

Rafael se formou como engenheiro de computação pela Universidade de Fortaleza (Unifor) e passou a seguir carreira em tecnologia, com passagens por multinacionais. Já nesse período, percebeu que seu perfil era diferente de muitos dos desenvolvedores que conhecia. “Eu gostava de conversar com o cliente e entender o que eu estava desenvolvendo para ele. A virada de chave para desenvolver meu lado comercial, ocorreu quando eu trabalhava para a Enel, concessionária de energia do Ceará. Numa sexta-feira, voltei para casa pensando no que eu poderia oferecer de novos projetos para a empresa. Na segunda-feita seguinte, voltei com oito novas propostas. Três foram aprovadas de imediato. Meu time cresceu e eu passei a liderar uma equipe, tudo isso aos 20 anos de idade. Isso ocorreu por puro instinto de sobrevivência, mas percebi que eu precisaria focar muito mais em habilidades de negócios, comunicação e vendas para aplicar no meu futuro”.

NASCE A TECLA T

É a partir dessas experiências que começa a história da Tecla T. Em 2019, aos 25 anos, ele decidiu abrir o próprio negócio com R$ 25 mil do cheque especial e o apoio da esposa, Lorena, que atualmente comanda a comunicação da empresa. A Tecla T nasceu para ser uma fábrica de software. A terceirização de profissionais veio depois, após Rafael deixar de lado suas reservas quanto a esse tipo de negócio. “Eu sabia da rotina e dos desafios de um profissional terceirizado. Já trabalhei dessa forma, mas não gostei, porque eu não pertencia nem à empresa que me contratou, nem à empresa onde eu estava alocado. Só que eu precisava pagar minhas contas. Três meses depois da abertura da Tecla T, uma grande empresa de telecomunicações, nossa cliente até hoje, pediu 12 desenvolvedores terceirizados e resolvi aceitar, mas do meu jeito. Meu colaborador tinha que usar crachá, ter um e-mail corporativo, participar de eventos”.

Com essas ideias em mente, Rafael desenhou a filosofia de trabalho da Tecla T, justamente a partir das lições aprendidas do que ele considerava negativo em sua experiência como terceirizado. “As empresas de terceirização que eu conhecia entregavam o profissional e o relacionamento acabava ali. Só que, se esse colaborador tiver qualquer tipo de problema, até mesmo na esfera pessoal, ele pode começar a falhar na entrega dos projetos. Sabendo de todas essas questões com antecedência, posso agir para minimizar o impacto desses problemas, apoiando esse profissional e ajudando-o a resolver suas questões. Na minha opinião, esse é o segredo do crescimento da Tecla T”. De acordo com o CEO, isso se traduz em uma taxa de rotatividade de 2%, quando o habitual, no setor de tecnologia, é de 10%. Hoje em dia, a empresa tem colaboradores em 18 estados do Brasil, seja presencialmente ou remotamente.

Embora a Tecla T tenha grandes empresas do Sudeste, como a G4 Educação e a Hypera Pharma, em sua carteira, todos os portes e segmentos de negócio são clientes em potencial. O diferencial, segundo Rafael, é a customização. “Todos os nossos produtos têm a cara de cada cliente, seja uma pequena, média ou grande empresa. Oferecemos duas soluções principais. A primeira é a terceirização. Algumas empresas passam dois, três meses com vaga de tecnologia em aberto, sem conseguir preenchê-la. Em sete dias, a Tecla T vai levar um profissional de tecnologia para esse negócio. Então, eu resolvo o problema de quem não está conseguindo contratar profissionais. A segunda solução, está ligada à inovação. Fazemos um diagnóstico de 30 a 45 dias e apontamos o que tem de ser feito. Por exemplo, é possível desenvolver um aplicativo, um site, análise de dados, integração entre sistemas ou trabalhos com inteligência artificial”.

MUDANÇA DE ESTADO

Após fazer o dever de casa no Nordeste e atender nomes nordestinos de projeção nacional, incluindo o Grupo Mateus, o Hapvida e o Beach Park, Rafael vislumbrou a expansão da Tecla T para São Paulo, o que ocorreu em 2022. “Hoje, eu gosto de São Paulo, tem cara de casa, mas eu trouxe na bagagem uma experiência frustrante. Vim à cidade pela primeira vez em 2017, como colaborador de uma multinacional, mas estava sem minha família, sem meus amigos, morando de favor e vivendo apenas para trabalhar. Voltei três anos atrás, mais maduro e em melhores condições, mas, mesmo assim, não foi fácil. Levou um ano para as portas se abrirem mais. O fato de ser nordestino não dificultou minha vida, e sim a falta de operações mais fortes da Tecla T em São Paulo. Quando eu cheguei, tentei me policiar para neutralizar meu sotaque, mas ele me deixa mais natural, mais humano. Isso não é mais uma preocupação, ao contrário”.

O crescimento da Tecla T também proporcionou a Rafael uma ligação forte com seu time de coração, o Fortaleza. “Há quatro anos, a empresa já tinha um camarote na Arena Castelão. Nossos clientes usam bastante o camarote, muitos negócios são fechados lá. Este ano, demos um passo a mais. Na etapa de renovação do camarote, recebemos uma proposta de patrocínio do time e aceitamos. Foi a realização de um sonho de criança. Eu acompanhei as negociações, assinei o contrato, mas ainda não me acostumei a ver um jogo e ter nossa marca estampada no uniforme. Outra grande vantagem é fazer a empresa ter visibilidade e estreitar cada vez mais os laços, inclusive comerciais, com um clube que se destaca pelo profissionalismo de sua gestão. Em 2025, a Tecla T vai ser a única empresa de tecnologia patrocinadora de um time que vai competir na Libertadores”. Depois de tudo o que conquistou como empresário, Rafael diz que agora os pais estão aliviados e orgulhosos. Hoje, a Tecla T também conta com o reforço de Renan Figueiredo, irmão de Rafael, que deixou um emprego como engenheiro para entrar na empresa ainda no início das atividades, quando ela tinha apenas cinco funcionários. “Eu só contei aos meus pais que tinha aberto a empresa no primeiro dia de funcionamento da Tecla T – 1º de novembro de 2019. Queria protegê-los, para que eles não ficassem tão ansiosos. O começo não foi fácil. A responsabilidade e a cobrança aumentam quando você pensa que vai cuidar de dezenas de famílias, além da sua. Pra exercer essa missão, a gente tem que se preparar e transmitir confiança, tanto para nossos clientes quanto para nossos colaboradores”.