Estava saindo de casa quando dona Lareci, a moradora mais antiga do prédio, me chamou.

– Psiu, ei, venha cá que quero lhe dizer uma coisa, Félix.

– É Fred, dona Lareci. – corrigi, pela décima-sétima vez naquele mês.

– Tanto faz. Olhe, você se ligue, meu filho, que anda acontecendo muito coito nesse terreno aí do lado!

– Culto, dona Lareci?! – exclamei, estranhamente alarmado.

– Não, culto é na outra esquina. Aliás, você devia ir. Tô falando é de coito mesmo. Trepa. Furança. Lapada na rachada, sabe como é?

– PARE! Pare. Por favor, não gesticule mais. Entendi. Juro.

– Apois é. Por isso é bom tomar cuidado, viu?

– Mas dona Lareci, tomar cuidado com o quê?

– Eu sei lá, meu filho. Esse povo doido. Vai que um deles pula do breu armado e quer forçar a gente a entrar na safadeza? – cochichou-me a sexagenária, um olhar esperançoso mov endo-se pelo matagal.

– A gente quem? Quer dizer, olha, dona Lareci, tô numa pressa danada, mais tarde a gente se fala, tá? – despedi-me, agoniado, enquanto montava na minha bicicleta e tentava ignorar as imagens medonhas que minha mente produzia.
E entre uma pedalada e outra, comecei a pensar que, realmente, quando a vontade bate, qualquer lugar é lugar. Hoje eu moro sozinho e tenho total privacidade para transar na hora que eu quiser e em qualquer lugar do apartamento, o que, sendo uma quitinete, se resume basicamente ao quarto e debaixo da cama que tem nele. Mas não foi sempre assim. Nos tempos secos da adolescência, eu morava com meus pais e nunca na minha vida tive carro. A criatividade era a regra e a cara de pau, uma necessidade. Tentava arrumar uma ocasião em que minha mãe, meu pai e meus dois irmãos não estivessem em casa, ao mesmo tempo em que buscava desesperadamente alguma menina que topasse fazer uma visita. Uma conjunção astral mais improvável do que as chances de pegar um ônibus lotado sem levar ao menos um pula-pirata carinhoso. Se fosse namorada, era mais fácil, mas ainda era preciso algum álibi que explicasse aquela presença feminina no meu quarto trancado por várias horas. Ok, vários minutos. Enfim, por alguns momentos.

Na minha rua, o codinome para a ação era “Jogar Banco Imobiliário”, mas qualquer outro jogo servia, WAR, Jogo da Vida, Scotland Yard, Detetive, Tarimba ou Fubica*. Meus pais nunca estranharam o fato de que é impossível jogar o clássico Monopólio ou a maioria desses jogos de tabuleiro com apenas duas pessoas. Ou talvez não se importassem. A verdade é que a vida, nesse quesito, e em outros também, é muito mais camarada com os homens do que com as mulheres. Elas sentem, claro, exatamente as mesmas vontades que nós, mas em nossa sociedade machista são muito mais vigiadas, inclusive entre si, o que torna a busca por um lugar para transar em paz um epopeia ainda mais épica do que a do lado cueca da situação. Claro, sempre haverá aqueles que topam dar uma literalmente em qualquer lugar, sem medo das consequências. E homem que é homem, adora contar história de pescaria, futebol e, principalmente, sexo.

– …e aí a gente saiu do mar, se ajeitando. O salva-vidas pediu pra gente nunca mais voltar, mas quem ia adivinhar que aquela era uma praia de nudismo geriátrico?

– Fraca. Uma vez, comi a minha esposa na moto. Em movimento. Chovendo e passando por uma blitz.

– Besteira. Peguei uma doida uma vez que só gozava em orelhão. E tinha que estar ligando pro disque-pizza ao mesmo tempo.

– TOLOS – exclamou o amigo que havia permanecido calado até aquele momento, batendo furiosamente na mesa do bar. – Nenhuma dessas histórias chega aos pés na minha. Já desci a madeira na minha namorada na casa de praia dos pais dela, com eles lá!

– Bem…uma fugidinha pro quarto ao lado à noite é perfeitamente…
– A casa estava em reformas! Dormimos todos no mesmo quarto e usamos a mesma cama!

– Pela fé de Abraão! E o velho?

– Dormiu vendo o jogo do Santa Cruz. O mais complicado mesmo foi roubar a camisinha da carteira do irmão dela. Sem acordar o cachorro. Ao mesmo tempo em que eu conversava com a mãe. Sem lençol nem edredom. E demos três seguidas nessas condições. A quarta não rolou porque a vó dela passou mal e tive que levar pro hospital.

– Que mentira do carai…

– Para tudo, camaradas, dá-se jeito nessa vida. – interrompeu o amigo, os olhos perdidos no horizonte repleto de mistérios invisíveis que apenas ele parecia ter acesso. – E quando o assunto é sexo, qualquer lugar é lugar.

De repente, minha quitinete parece o melhor lugar do mundo para a prática do coito. Só espero que dona Lareci jamais pense a mesma coisa.

*Minha editora me proibiu de explicar o que são Tarimba e Fubica. Se você quer realmente saber, pergunte a um pernambucano e não se zangue com a resposta.
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