ESTRELA: ZEZÉ POLESSA E NARA LEÃO

A atriz Zezé Polessa traz ao palco paulistano o espírito livre e a leveza de Nara Leão. Nara é um ícone imprescindível para compreender a cultura, a música e a sociedade brasileira das décadas de 1960, 1970, 1980. Zezé Polessa cresceu ouvindo e acompanhando a carreira de Nara por meio dos discos e dos muitos sucessos apresentados nos festivais de televisão. Durante a pandemia, ao ler uma biografia da cantora, Zezé iniciou uma profunda pesquisa que daria origem à sua próxima personagem. Há vasta documentação impressa sobre a vida e a obra de Nara Leão. Ao comentar seu desejo de interpretar Nara durante uma conversa com Miguel Falabella, ele imediatamente aceitou escrever o texto. Zezé recebeu a repórter Patrícia Alves para contar um pouco sobre a construção da personagem e a emoção de iniciar a temporada para o público de São Paulo.

Por Patrícia Alves / Fotos Priscila Prade / Revisão Sheila Santos

Como é vir a São Paulo com um musical tão aclamado? Um presente! Sempre me encantei com Nara Leão. Uma das melhores biografias que li foi escrita por um amigo em comum, Tom Cardoso — um escritor de mão cheia que me emocionou ao retratar Nara não como musa, e sim como música. Estar em São Paulo e ter o privilégio de contar uma história tão linda é mais um presente que a vida me deu.

Você começa a peça dizendo: Não se surpreendam eu estou de volta, Meio Nara, meio Zezé! Exatamente… A ideia é trazer Nara para junto de nós durante o espetáculo. Linear, doce, arrebatadora. Sou encantada por sua sutileza e força. Quando ela arrumava aquela franja, parecia colocar os pensamentos no lugar (risos). E o público vem comigo, se emociona e entende… Estou muito feliz em poder voltar com esta temporada linda em São Paulo.

Há um momento político muito propício para reviver a luta de Nara Leão? Sem sombra de dúvida. Trazer ao palco uma cantora que se reinventou e lutou na época da ditadura. Nara sempre foi a frente do seu tempo. Abriu portas e apontou caminhos!

Nara foi uma mulher à frente do seu tempo que com delicadeza trouxe a tona lutas importantes. Ela é a prova que é possível endurecer sem perder a ternura? Exatamente. Nara enfrentou os militares e o preconceito de muitos músicos, mas nunca se abateu nem desistiu. Um espírito livre e contestador, envolto em beleza, delicadeza, talento e muito charme. Uma mulher forte que, infelizmente, teve uma passagem muito breve, mas deixou uma obra de extrema relevância no cenário musical.

Você sempre disse que quer transmitir ao público o espírito livre de Nara Leão sem imita-la. Me fale mais sobre isso. Sabe que mudei um pouco de ideia (risos)? Tive um ano que chamo de “sabático” – e não sabático por escolha, mas por conta de um problema de saúde que me tirou dos palcos. Foram meses de exames e acompanhamentos. Nesse período, revi O Canto Livre de Nara, produzido por Pedro Bial. E quis, sim, não propriamente imitar, mas trazer a força e o gestual de uma mulher à frente do seu tempo – que sofreu inúmeros preconceitos, foi objetificada como musa e, dentro de sua leveza e doçura, lutou bravamente pela liberdade e pela democracia.

Quem você gostaria de viver nos palcos além de Nara? Rita Lee, Gal Costa, tanta gente boa!Mas eu queria muito contar a história da psiquiatra Nise da Silveira. Essa história merece — e precisa — ser contada. Reconhecida mundialmente por sua contribuição à psiquiatria, essa mulher revolucionou o tratamento das doenças mentais no Brasil por meio da arte, da livre expressão e da afetividade. Ainda quero contar essa história! Mas, antes, quero rodar o país — e quem sabe o mundo — com Os Olhos de Nara Leão.

Você foi precursora quando há tempos falou sobre a solitude da mulher. A peça Não Sou Feliz Mais Tenho Marido, você colocou este tema na roda e fez muitas mulheres repensarem a vida. Depois de tanto tempo, você tem a magnitude de como isso foi importante? Na época, não se falava sobre isso — era quase um assunto do qual ninguém queria tratar. Mas, depois, a questão da mulher poder fazer escolhas e não viver apenas da aparência de um relacionamento que não a preenche virou tema de debate. Sinto-me feliz por ter colocado esse assunto em pauta em uma época em que ainda era um tabu.

Você e Falabella são parceiros em vários projetos teatrais. Como é esta relação e especificamente como foi ser dirigida por ele no espetáculo que narra a vida e obra de Nara Leão? Somos muito próximos mesmo! É uma imensa alegria e um orgulho trabalhar com ele novamente. O que dizer? Um amigo, um mestre. Generoso, talentoso… sinto-me muito privilegiada por estar com ele revivendo Nara.

Nara Leão sofreu muito preconceito por conta de acharem que sua ‘potencia vocal” era menor do que as cantoras da época. Como foi retratar esta passagem? Sim, Nara Leão sofreu preconceito ao longo de sua carreira — principalmente por não ter a potência vocal de cantoras como Elis Regina ou Maria Bethânia, e por ser uma mulher independente e vanguardista, que confrontou a ditadura militar e abriu caminhos para outras mulheres na música. Ela também enfrentou preconceito em situações isoladas, como na ocasião em que a banda de Raul Seixas foi impedida de tocar em um clube por ter integrantes negros — e ela, junto com Chico Anysio, ajudou o grupo a se estabelecer no Rio de Janeiro. Nara nunca se abateu e provou que sua obra e sua voz eram gigantes. Assim como tantas mulheres, foi à luta e demonstrou seu talento, deixando um grande legado.

Pouca gente sabe, mas você chegou a se formar em Medicina. Mas, acabou enveredando pelo caminho das artes. Já recebeu o prêmio Shell por sua capacidade de transitar entre o drama profundo e a comédia. Me fale um pouco sobre esses caminhos. Sim, a medicina foi uma escolha para agradar meu pai na época, mas nunca exerci a profissão. Me considero uma atriz versátil, e o público e a crítica têm me dito isso. Fico extremamente honrada em poder transitar entre personagens dramáticos e emocionantes, e também fazer o público gargalhar, como em 2008, quando fiz comédia no teatro. Quero, cada vez mais, não me encaixar em nenhum estereótipo e realizar trabalhos diversos que me preencham como artista e como mulher.

Foto @priscilaprade 

Beleza @marcelodoficial

Figurino @danigarciatoscano